3 Niilismo

BRAGUE, Rémi. Les ancres dans le ciel: L'infrastructure métaphysique. Paris: Seuil, 2011.

A RECUSA NIILISTA DA METAFÍSICA COMO PESSIMISMO

1. Na continuidade do esforço dos filósofos que pensaram a relação entre metafísica e homem, mas num nível mais modesto e prosaicamente concreto, cabe indagar como uma doutrina central da metafísica torna possível a existência do homem, entendida no sentido mais banal de sua presença na terra.

§ 8. A ascensão do niilismo

1. É preciso considerar um segundo fenômeno da cultura europeia, paralelo ao abandono da metafísica, que ele prolonga e radicaliza com consequências práticas: a ascensão do chamado niilismo.

2. A palavra surge no fim do século XVIII, provavelmente em Jacobi, com tom desde logo pejorativo, e percorre discretamente o século XIX, primeiro na Alemanha e sobretudo na Rússia, onde assume uma dimensão política terrorista.

3. O niilismo recebe em Nietzsche uma orquestração e uma consagração filosóficas particulares como o fenômeno destinado a dominar a história dos dois séculos seguintes, o mais inquietante dos hóspedes e o perigo dos perigos.

4. Nietzsche não pretendia resistir ao niilismo erguendo diques, mas superá-lo levando-o até o fim, para que passasse do estágio passivo ao niilismo ativo, expressão que surge no fragmento de Lenzer Heide de 1887, tornando-se nas mãos dos criadores um martelo que destrói e esculpe e elimina as raças degeneradas para abrir caminho a uma nova ordem, sem que para isso fossem necessários fomes, expurgos, genocídios ou as máquinas infernais dos niilistas russos.

5. O niilismo tem como desfecho imanente e obra própria o suicídio, pois Nietzsche censura o cristianismo por ter tornado a vida suportável aos que deveriam ser eliminados, convencendo-os de sua imortalidade, ao passo que, restabelecidas as condições normais, os incapazes de suportar o niilismo se eliminariam a si mesmos numa espécie de seleção natural, de modo que o niilismo levado ao extremo se superaria ou se destruiria a si mesmo, como o parasita arrastado na morte da árvore que acabou por matar.

6. No fim do século XX, o niilismo assume com Gianni Vattimo uma tonalidade mais risonha, designada pela fórmula niilismo alegre, cunhada com amarga ironia por Augusto del Noce, que realça os aspectos positivos do niilismo para a liberdade e a convivência pacífica, sendo esse niilista o contrário do russo, incapaz de morrer e menos ainda de matar por uma causa, simplesmente porque não crê em nenhuma.

7. O niilismo arrisca assim assumir aspectos totalmente concretos, embora perfeitamente discretos, tornando-se, se não alegre, ao menos soft.

§ 9. Niilismo e pessimismo

1. Nietzsche traça a genealogia do niilismo a partir do pessimismo, tomado não no sentido psicológico atual, mas no sentido rigoroso de Schopenhauer, que talvez tenha inventado o termo como exato contrário do otimismo, palavra provavelmente de Voltaire, que no Cândido zombava da Teodiceia de Leibniz, segundo a qual o mundo presente é o melhor dos possíveis por não poder reunir estados incompossíveis, ao passo que o pessimismo afirma que ele é o pior dos mundos e que, se fosse ainda pior, não poderia subsistir, ideia que presta uma última homenagem à identidade entre Ser e Bem.

2. Nietzsche define o niilismo como a recusa radical do valor, do sentido e de tudo o que torna algo desejável, consistindo na desvalorização dos valores mais altos e culminando na convicção de que a existência é insustentável, somada à intuição de que não temos direito a postular um além que a redima.

3. Compreender essa definição supõe compreender o que significam valores, cujo uso implica uma mutação na compreensão do bem e deve ser decifrado como sintoma, e não tomado como denominação evidente.

4. O niilismo pode ser compreendido por uma via negativa a partir da etimologia de nihil, nada, perguntando de que tipo de ser ele afirma o nada, e, tal como Nietzsche o define, constitui um ataque a uma tese particular mas central da metafísica clássica, formulada de ponta a ponta dela e ainda visada pelo otimismo de Leibniz.

5. Essa tese é a convertibilidade dos transcendentais, segundo a qual tudo o que é, enquanto é, é também uno, bom e verdadeiro, e cuja aplicação mais pertinente é a identificação entre Ser e Bem, que pensa a relação entre o que é e o que deve ser como identidade última, de modo que o ser vale a pena ser.

6. O objeto em questão não é a metafísica em geral, mas apenas essa tese.

§ 10. A convertibilidade dos transcendentais

1. A tese já se encontra nos filósofos gregos, posta duas ou três vezes com maior ou menor brilho sob a forma de uma equação muito simples: o que é é bom.

2. Aristóteles insere essa afirmação numa visão da natureza que tende sempre ao melhor, sustentando que para o homem de bem ser é um bem, porque ele percebe a realidade tal como é, sem a deformação do homem perverso, e a fórmula de que o que é está bem aparece em Teofrasto, assim como, em Aristóteles, a forma de desigualdade segundo a qual o Ser é melhor que o Nada.

3. Alguns pensadores são mais radicais e afirmam a identidade positiva entre Ser e Bem, como Plotino, para quem o Ser é desejável por ser idêntico ao Belo e o Belo é amável porque o Ser o é, tese neoplatônica que entra na Idade Média árabe e latina sobretudo pelo Liber de causis.

4. Para Aristóteles, a identificação entre Ser e Bem tem duas razões: o Ser é determinado, o que o liga a Platão e ao vínculo entre bem e medida, e o Ser é objeto de um desejo universal, pois todas as coisas desejam ser.

5. A outra fonte da cultura ocidental, a Bíblia, concorda com os gregos, pois no primeiro relato da criação o que era bom dia após dia torna-se, considerado em sua totalidade acabada, muito bom e muito belo, passagem que irritava profundamente Schopenhauer, que, detestando o Antigo Testamento e o judaísmo, mostrou ao menos lucidez na identificação de seus inimigos.

6. No judaísmo posterior, os sábios do Talmud comentaram e ampliaram essa afirmação, chegando um deles, por artifício interpretativo corrente, a ler a morte é um bem, englobando na afirmação a mais insuperável das negações.

7. Na Idade Média confluem as correntes grega e judaica, e a identificação entre Ser e Bem é retomada nas três religiões em que a filosofia se desenvolveu, como em Avicena, para quem o verdadeiro objeto do desejo é o Ser, bem puro e perfeição pura, e em Maimônides, para quem todo ser é bom e tudo é bom por ser ser.

8. No Ocidente latino, a identificação entre Ser e Bem é formalizada na doutrina dos transcendentais convertíveis, segundo a qual tudo aquilo a que se aplica um transcendental admite também todos os outros, coincidindo ente, uno, bom e verdadeiro.

9. Tudo o que é, pelo simples fato de ser, é bom, como já afirma Agostinho e como Tomás de Aquino demonstra ao explicar que o que é está em ato, que todo ato é perfeição e que a perfeição é objeto de desejo, e ao acrescentar que cada coisa ama seu ser, deseja conservá-lo e combate contra sua corrupção.

§ 11. O desejo do bem

1. O sinal probante da identidade entre Ser e Bem é o desejo de ser presente em todas as coisas, evocado por Aristóteles, Avicena e Tomás de Aquino, de modo que tudo depende do valor atribuído a esse desejo.

2. A metafísica clássica concebe esse desejo como prefiguração da vontade humana, definida pelos estoicos como desejo esclarecido pela razão, ao passo que nos seres irracionais ele é guiado pelo que lhes faz as vezes de razão, o instinto nos animais e faculdades ainda mais obscuras nas plantas e nos minerais.

3. O bem visado pela vontade ou por suas prefigurações varia conforme os seres, pois o bem que a pedra quer ao cair em seu lugar natural difere do que a planta quer ao estender a copa e as raízes, do que o animal quer ao buscar alimento e parceiro sexual e, mais ainda, do bem que o homem quer propriamente em toda a gama de suas atividades.

4. Tomás de Aquino insere essa relação com o Bem numa teoria da Providência que se concretiza gradualmente ao longo da escala dos seres, na qual, da autoconservação mineral e específica até o homem, a tendência ao Bem se torna cada vez mais livre na escolha dos meios, mais consciente e esclarecida pela razão e mais desprendida do próprio sujeito, elevando-se à submissão à Lei que estabelece o bem para todos e podendo culminar no sacrifício de si em favor do bem dos seres amados.