SUJEITO TRANSCENDENTAL E QUESTÃO DA TÉCNICA

BOUGNOUX, Daniel. Sciences de l’information et de la communication. Textes essentiels. Paris: Larousse, 1993.

Essa “sociedade” se revela particularmente sob o olhar da mediologia. Essa disciplina, que surge a partir de diferentes horizontes do conhecimento, obriga a redefinir o sujeito transcendental kantiano pela história das técnicas e dos coletivos. Longe de ser imanente, inata e radiante em algum éter transparente à maneira da “luz natural”, nossa razão depende de nossas ferramentas. Um mediólogo contestará o Pensador de Rodin, que pretende nos mostrar o esforço do pensamento nu. Sem instrumentos, sem papel nem lápis, longe de laboratórios, bibliotecas e outros bancos de dados… Contra esse monumento idealista ou romântico, é preciso lembrar que o homem sozinho não pensa (mas sonha ou imagina nas fronteiras do delírio), em suma, que é o coletivo que pensa e que são necessárias ferramentas ou meios de comunicação em geral.

Após os estudos de Goody, Eisenstein, Latour e hoje Pierre Lévy, a mediologia se propõe como o inventário das restrições materiais e das orientações técnicas graças às quais circula uma informação. Ela repousa, portanto, em termos mais refinados do que os de Heidegger, a “questão da técnica”. Se a razão nunca está totalmente pronta, espontânea ou disponível antecipadamente (im-mediata), mas resulta de uma adaptação a certas redes às quais responde ajustando-se a elas, vamos propor que o pensamento “faz com” a infraestrutura midiática em geral, que constitui seu parceiro oculto. Nossa abordagem terá como princípio nunca separar as ciências das técnicas, nem as técnicas do corpo ou da organização viva em geral: a esfera das ideias, a esfera dos meios de comunicação e a biosfera se encaixam sucessivamente (ou se geram na ordem inversa).

Também podemos, com Régis Debray, definir essa ecologia das ideias, ou essa física de nossos pensamentos, como o estudo das relações entre uma ferramenta de comunicação e um poder. Que consequência tirar entre uma inovação midiática (a imprensa, por exemplo) e tal movimento intelectual (a Reforma protestante)? Por que uma representação é mais dinâmica do que outra? De onde vem a eficácia de certas doutrinas no campo político e social? É tradicional conhecermos melhor as ideias do que os meios técnicos que garantem sua propagação: melhor a história da literatura do que a do livro ou da livraria; melhor a mensagem evangélica do que a história da Igreja… “A teoria de Marx é todo-poderosa porque é verdadeira…” Este memorável slogan de Lenin não impediu seu autor de organizar duramente um partido bolchevique e o assalto ao Palácio de Inverno. Supondo que uma teoria seja verdadeira, ela nunca se impõe pela virtude dessa única verdade; para fazê-la circular, é preciso colocar rodas nela e trilhos sob elas. Mas nos apressamos em esquecer esses meios, ou essas infraestruturas, dos quais nossas ideias, no entanto, tiram sua força. O pensamento se acredita espontaneamente autônomo: e esse inconsciente, constitutivo de uma boa comunicação em geral, torna a mediologia e a pragmática ciências tardias.