BOUGNOUX, Daniel. Sciences de l’information et de la communication. Textes essentiels. Paris: Larousse, 1993.
A noção de abertura cultural é introduzida a partir da referência à obra de Karl Popper, na qual a oposição entre sociedades abertas e sociedades fechadas fornece um modelo conceitual para pensar a democracia.
A análise popperiana não é retomada em detalhe, mas serve como ponto de partida para a formulação de uma noção específica de abertura comunicacional.
Essa abertura é caracterizada como fenômeno histórico sem precedentes, operando simultaneamente em múltiplas escalas, da família ao planeta.
Tal fenômeno transforma profundamente as representações de espaço, tempo e identidade, ao mesmo tempo em que altera de modo decisivo as condições de trabalho, de lazer e de mobilidade humana.
A abertura comunicacional é associada à intensificação dos fluxos globais e à dissolução progressiva dos isolats.
O axioma segundo o qual não é possível não comunicar é reinterpretado à luz da mundialização dos mercados e das redes.
O turismo, os grandes networks e a circulação contínua de informação contribuem para a extinção de isolamentos geográficos, econômicos, técnicos e civilizacionais.
As ilhas remanescentes tornam-se cada vez mais vulneráveis a dispositivos de vigilância, à circulação financeira e à indústria turística global.
A generalização das interações globais é ilustrada pela metáfora do efeito borboleta.
Fenômenos antes concebidos como paradoxais tornam-se experiências ordinárias na modernidade.
Eventos localizados produzem efeitos globais, como demonstram acidentes tecnológicos ou declarações políticas de grande impacto econômico.
A comunicação é apresentada como inevitável e irrecusável, eliminando a possibilidade de neutralidade ou retraimento.
A figura do sujeito da comunicação emerge como problemática central.
O sujeito é definido como aquele que não pode não saber, não sofrer os efeitos e não participar.
O homo communicans perde a soberania do sujeito clássico da filosofia individualista.
A identidade torna-se menos estável e menos facilmente delimitável.
Afirma-se o primado da relação, no interior da qual os sujeitos se encontram inevitavelmente engajados.
A abertura comunicacional manifesta-se inicialmente pela expansão dos aparelhos de informação.
Observa-se o crescimento acelerado dos médias, da edição, dos sistemas educativos e culturais.
A ampliação da informação não implica automaticamente sua integração ou compreensão.
O excesso informacional pode produzir saturação, evasões imaginárias e recusas do saber.
Cada indivíduo permanece limitado por uma clausura informacional, utilizando apenas uma fração mínima dos sinais disponíveis.
O recuo do religioso e das ideologias duras constitui outro aspecto decisivo dessa abertura.
O progresso do modelo democrático reforça o individualismo, o consumo e o comércio.
O sagrado e a transcendência perdem sua função organizadora vertical.
A heteronomia é substituída pela busca da autonomia, ainda que esta não se realize plenamente.
As hierarquias passam a ser negociadas em relações horizontais entre sujeitos idealmente iguais.
O antigo eixo vertical da relação com o transcendente é substituído por uma rede de mediações.
Persistem, contudo, formas secundárias de ressacralização na cultura de massa.
O declínio do mundo rural fornece uma terceira figura da abertura.
A cultura camponesa tradicional é estruturada por cercamentos simbólicos e religiosos.
A modernidade dissolve essas fronteiras e promove mobilidade física e mental.
A urbanização, o comércio e os meios de transporte aceleram a dissolução das formas holistas.
A juventude e o movimento tornam-se valores dominantes.
O desprendimento territorial é vivido simultaneamente como perda de sentido.
Surge um individualismo caracterizado como era do vazio.
A extensão dos mercados e a mercantilização generalizada acompanham esse processo.
Bens e serviços anteriormente exteriores à economia tornam-se mercadorias.
A análise da comunicação implica necessariamente a análise das formas contemporâneas do comércio.
O mercado aparece como estrutura tentacular e fluida, inseparável da circulação simbólica.
O crescimento do setor terciário evidencia a interdependência entre comunicação e produção.
A informação penetra todas as etapas do processo produtivo.
A automação contribui para a desmaterialização crescente do trabalho.
O trabalho passa a ser mediado por dispositivos de controle e por signos.
Intensifica-se a divisão global entre operadores de signos e trabalhadores da produção primária.
A informação torna-se fator central de produtividade, tanto antes quanto depois da produção.
Produzir divide-se entre fazer fazer e fazer saber.
A sedução publicitária acompanha e duplica a produção material.
A retração da guerra no horizonte das sociedades ocidentais favorece a centralidade da comunicação.
A violência armada é progressivamente externalizada para outras regiões do mundo.
A segurança relativa desde 1945 desloca os conflitos para o plano simbólico.
Convencer torna-se preferível a vencer.
A cibernética emerge como modelo de mediação, controle e regulação soft dos conflitos.
A emergência de uma consciência planetária e ecológica está estreitamente ligada à comunicação.
A imagem da Terra como nave espacial produz uma percepção de interdependência global.
A abertura do mundo revela simultaneamente seus limites.
O ambiente é reconhecido como frágil e insubstituível.
A relação com a natureza deve abandonar a lógica adversarial.
A ecologia promove uma atenção renovada às interações, solidariedades e coletivos vivos.
A fragmentação dos saberes constitui outra consequência da modernidade comunicacional.
A antiga unidade cultural das humanidades é substituída por saberes especializados.
Ciências regionais, cultura literária e cultura de massa coexistem sem diálogo.
O ideal enciclopédico é desacreditado.
Reaparecem críticas ao saber mutilado e apelos à interdisciplinaridade.
A comunicação surge como possível mediação entre campos do saber isolados.
A abertura comunicacional define o horizonte teórico das ciências da informação e da comunicação.
A comunicação não é concebida como objeto delimitável.
Ela opera como relação, como interstício entre mídias, meios e disciplinas.
Seu primeiro efeito teórico é a suspensão de oposições clássicas.
Interior e exterior, vertical e horizontal, sujeito e sistema são recodificados.
O paradigma comunicacional desloca a primazia do conteúdo para a relação.
Esse deslocamento atinge as grandes questões das ciências humanas.
A constituição do princípio de realidade é recolocada.
A razão, o vínculo social e a distinção público-privado são problematizados.
A própria definição do indivíduo e do sujeito é revista.
A comunicação é afirmada menos como ideologia do que como sensibilidade metodológica.
Ela fornece um quadro comum para as ciências humanas.
O conceito central que resume essa perspectiva é o de complexidade.
O sujeito é pensado como coletivo em interação contínua com instituições e máquinas.
Problemas sociais complexos exigem abordagens não lineares.
Os fatos sociais não podem ser tratados como coisas, mas como processos relacionais.