2.7 Shakespeare

BORNHEIM, Gerd. Brecht: A Estética do Teatro. Rio de Janeiro: Editora Graal, 1974.

O jovem Brecht (1918-1933)

SHAKESPEARE: A FATALIDADE DO DIÁLOGO

1. Nos quentes anos 20, torna-se moda falar em Neue Sachlichkeit, nova objetividade que não passa de mera nova versão do naturalismo, e Brecht deve ter ruminado a expressão até adotá-la a seu modo, numa época que também ama os contrastes do dadaísmo, ao qual Piscator aderira e de que George Grosz era adepto.

2. Brecht nunca aderiu a nenhum movimento, mas a sedução dadaísta era forte, e no Natal de 1925 publica num jornal de Berlim o poema natalino Maria, sendo indiciado mas safando-se da sina de Grosz, que respondera a processo por apresentar o Cristo crucificado com máscara contra gás.

3. Em suas memórias, Grosz lembra que desprezavam tudo, nada lhes era sagrado e cuspiam em tudo, sendo o símbolo do movimento o nada e o vazio, o que suscitava o protesto contra a arte e o combate sem escrúpulo à ideologia alemã da época.

4. Pertence a essa ideologia a montagem de espetáculos clássicos, questão vasta e complexa que acompanhará Brecht, e o primeiro motivo de sua aproximação de Marlowe e dos elisabetanos é que com seu Marlowe Brecht pretendeu realizar uma montagem que ultrapassasse a maneira alemã usual de montar Shakespeare, a começar pelo hábito da monumentalidade.

5. Na Alemanha existe a excelente tradução de Schlegel-Tieck, que integrou uma tradução a uma história literária outra que não a de seu berço, a ponto de se poder dizer que Shakespeare é um autor alemão, e a tradução alemã mantém um nível de atualidade de linguagem que dispensa glossários, pois o hochdeutsch permanece praticamente inamovível e destituído de história.

6. O elogio de Shakespeare não poderia faltar em Brecht, que acompanha uma tradição iniciada em 1770 com o ensaio de Goethe, e a diferença entre os discursos nem é tão grande, inovando Brecht pela maior distância histórica e pela poluição do tempo, colhendo os frutos maduros e os impasses do itinerário inaugurado por Goethe.

7. Brecht afirma que os grandes textos shakespearianos são a base de nosso drama, a ponto de nem fazer sentido falar em drama pós-shakespeareano, que é sem exceção muito mais fraco e na Alemanha totalmente degenerado pela influência latina.

8. Shakespeare apresenta essa força de base porque funciona como modelo, mas os autores dos últimos cem anos não souberam manter-se à sua altura, tendo conteúdo filosófico nulo, e os clássicos como Goethe e Schiller podem mais dar indicações sobre a sua formação filosófica do que incorporar um conteúdo filosófico às suas peças.

9. A grandeza de Shakespeare está em que ele não tem a necessidade de pensamento nem da construção, pois é o público quem constrói, não arranjando o curso de um destino humano no segundo ato para tornar possível um quinto ato, e não há nada mais bobo do que montá-lo de modo que fique claro, pois ele é conteúdo absoluto.

10. A questão se complica ao perguntar se Shakespeare pode continuar sendo a base, e Brecht flagra-se num tom até nostálgico ao constatar que houve outrora um teatro que tinha com a vida um contato totalmente outro, concluindo que os grandes dramas shakespearianos hoje já não atuam.

11. A volta à origem, mesmo se fosse exequível, a nada levaria, pois ver-se-ia um esquema ingênuo viciado por um infantilismo que compromete o passado, já que o público não é o da origem, e o clássico que se vê hoje, mesmo quando excelente, não passa de resultado acadêmico de experiências recentes.

12. O trabalho de direção atual é possivelmente bom demais para transmitir montagens corretas das boas peças antigas, mas não é suficiente para a montagem de peças novas, e os diretores recusam-se a reaprender o seu ofício, sendo sua alta capacidade justamente aquilo que lhes tolhe o caminho.

13. O importante estaria num processo de demitização que demitize o preciosismo meramente interpretativo e o próprio Shakespeare, cuja genialidade ímpar às vezes se acotovela com a falta de nível, como na análise de um texto visivelmente fraco, o Macbeth, feita por Brecht em 1927.

14. A história da arte é tão mentirosa quanto o museu, e montar Shakespeare como ele realmente seria, além de uma falácia, apenas poria hoje de manifesto o que ele é: uma ruína, como o torso grego, embora ele felizmente não esteja tão distante de nós quanto os gregos, pois ao menos em sua forma o drama e o teatro de Shakespeare estavam muito próximos daquilo que pode conservar a verdade da vida.

15. O único caminho para a reprodução dos textos shakespearianos está no elemento épico, pois no teatro contemporâneo só há um único estilo que pode tornar atual o Shakespeare real, isto é, o seu conteúdo filosófico: o estilo épico, e estamos em 1927, quando o conceito de estilo épico começa a tomar corpo na cabeça do poeta.

16. Brecht sempre sentiu um fascínio muito grande pelos clássicos, sobretudo por Shakespeare, abundantemente citado e que ele conhecia exemplarmente bem como homem de teatro, mas sua postura em face dos textos antigos pautava-se pela suspeita.