BORNHEIM, Gerd. Brecht: A Estética do Teatro. Rio de Janeiro: Editora Graal, 1974.
O jovem Brecht (1918-1933)
AS ÓPERAS
1. De 1927 a 1931 a atividade de Brecht desenvolve-se com intensidade impressionante e dá-se então a grande virada em seu pensamento, com a publicação de Die Hauspostille, a colaboração no teatro de Piscator, a estréia de O pequeno Mahagonny e a montagem de Um homem é um homem.
2. Em 1928 estréia em Berlim a Ópera dos três vinténs, no Schiffbauerdammtheater, que passa a ficar à disposição de Brecht, e em 1929 surge Ascensão e queda da cidade de Mahagonny, monta-se a miniópera Happy End e começam a surgir os textos das chamadas peças didáticas.
3. A Ópera dos três vinténs relata as aventuras do highwayman Macheath, chefe de um bando de ladrões de rua, mostrando o seu casamento com Poly, filha de Peachum, que controla a mendicância em Londres, e a sua amizade com o chefe de polícia Brown, o Tigre.
4. As coisas quase terminam mal para Macheath, pois por vingança de seu sogro involuntário ele se vê condenado à morte, mas contra todas as evidências e por puro amor à ópera a rainha termina perdoando o romântico ladrão e a vingança se frustra.
5. Trata-se da adaptação simples de um texto inglês de 1728, The Beggar's Opera, de John Gay, que festejava o seu bicentenário e obtivera grande sucesso na montagem do Lyric Theatre de Londres, entusiasmando Brecht, que elaborou cena por cena a sua adaptação à medida que Elisabeth Hauptmann traduzia o original.
6. Além da criação do personagem Brown, a única cena inventada por Brecht, uma das melhores do texto, é a cena de casamento de Macheath e Poly, mas a despeito dessas inovações a tese de Schumacher acaba se impondo de que não se trata tanto de uma reelaboração do texto original e sim de uma tradução que se permite alguma liberdade.
7. Hecht corrige esse ponto de vista ao observar que a ação da peça se passa para Brecht um século mais tarde do que a do original, pois a burguesia vitoriana é mais conhecida e próxima e também suficientemente distante para ser julgada de modo crítico.
8. As duas peças não deixam de mostrar grandes convergências, sobretudo no plano ideológico, pois ambas querem criticar as classes mais elevadas mostrando que a low class não passa de um ministro da high class, sendo a inferior a caricatura e a verdade superior.
9. O berço de estilo e as boas maneiras mal conseguem disfarçar o grande personagem sempre presente, o dinheiro, que compra tudo e desfaz qualquer barreira, e os interesses comuns permitem entender que no fundo as duas classes se entrosam às maravilhas.
10. Mas a crítica de Schumacher se mantém, pois o texto de John Gay apresenta uma virulência crítica maior que a de Brecht, referindo-se de modo imediato à crônica policial da época e pintando com ênfase a periferia a partir de um engano: um ladrão não é um burguês, e este engano tem como pai um outro engano, um burguês não é um ladrão.
11. É esse engano que é muito bem explorado por Brecht, e a análise se reflete igualmente na questão da linguagem, pois a peça de Gay pretende ser também uma crítica às óperas de Haendel, na época em grande voga, e o surpreendente sucesso de Gay teve duas consequências imediatas.
12. Primeiro, suscitou o advento de uma plêiade de imitadores, a começar pela obra The Quaker's Opera, de Thomas Walker, o ator que fazia o papel de Macheath no espetáculo de Gay, e esses textos inferiores ao modelo levaram assim mesmo a uma segunda consequência: a queda do prestígio de Haendel como autor de óperas.
13. Contra o barroquismo que impera no estilo de Haendel, Gay emprega uma linguagem simples e imediata, de efeitos diretos, próxima do linguajar popular, enquanto Brecht volta a um certo barroquismo, com sua linguagem empolada e de um discurso rico que se apraz em certa retórica.
14. Por isso mesmo a exigência do grande espetáculo decorre como que naturalmente, a cena se divide com frequência em planos e o espetáculo prodigaliza a utilização dos mais variados recursos, e a palavra gosta de alçar vôo, fazendo-se declamação e canto.
15. Os cantos são baladas sentimentais ou de situação, há um grande coral luterano, marchas militares, com referências ao jazz e mesmo à música clássica, e de resto Brecht também parodia a ópera, mas a italiana.
16. O tema da ópera é essencial e será melhor analisado no capítulo seguinte, mas por ora sublinhe-se que a intenção de Brecht está em proceder a uma reforma da ópera tradicional, pretendendo lançar uma arte que substitua a ópera do passado.
17. A constatação que se impõe hoje, tantos decênios após o sucesso inicial e também o subsequente, é que o projeto de Brecht não conseguiu alcançar os seus objetivos, pois em que pese o conteúdo crítico que informa o texto o espetáculo termina funcionando em termos de comédia musical.
18. Entretanto, quando se afirma sem mais que se trata de um superspetáculo burguês, admite-se implicitamente o fracasso do problema original, desta feita americana, povoada de bandidos que acreditam que numa época dominada pelos bancos o assalto aos bancos não oferece maiores chances e se defrontam com membros do Exército da Salvação.
19. A peça Happy End não vai além do divertimento, e com resultados bem superiores Brecht voltará ao tema alguns anos mais tarde em Santa Joana dos matadouros, tendo sido empregados os recursos normais do teatro épico, sendo que a novidade ficava por conta do emprego de luz especial para acompanhar o desempenho das canções.
20. Não obstante o bom nível de alguns momentos musicais, o espetáculo foi um fracasso de público e de crítica, e como a confirmar a impossibilidade de repetir o marco que foi a Ópera dos três vinténs, a segunda grande ópera, Ascensão e queda da cidade de Mahagonny, também não apresentou um sucesso significativo.
21. Brecht retoma e desenvolve aqui O pequeno Mahagonny, de 1927, e o tema mais uma vez está na força do dinheiro, pois baseada nesse absoluto funda-se uma cidade dominada pelo princípio de uma anarquia reificadora de todos os relacionamentos humanos, tudo coroado por um coral de prostitutas.
22. A cidade de ouro recebe imigrantes insatisfeitos de todos os continentes, mas através de diversos percalços, inclusive de ordem climática, a decadência total torna-se inevitável, e assim Mahagonny apenas prolonga e confirma as técnicas que vinham sendo utilizadas por Brecht.
23. Talvez se possa falar numa eficácia maior na obtenção de resultados nas críticas ao capitalismo, pois o espetáculo é mais despojado do que a Ópera dos três vinténs, a linguagem é mais direta e o tom geral menos exuberante, e se a ópera anterior não ia muito além de despertar o agrado do público, entende-se que esse mesmo público se sentisse agora atingido e mesmo ofendido com Mahagonny, a ponto de tornar a estréia de março de 1930 um escândalo.