2.1 Ruptura

BORNHEIM, Gerd. Brecht: A Estética do Teatro. Rio de Janeiro: Editora Graal, 1974.

O jovem Brecht (1918-1933)

1. A expressão “jovem Brecht” não indica imaturidade, mas um tipo de criação literária e teatral aberta às experiências mais diversas de um período cultural avesso a definições, e que soube assimilar a instabilidade visceral da vida social daqueles anos.

2. Nas primeiras peças, ao elogio do niilismo segue-se a experiência com o realismo social, depois o fascínio pelo esporte e o teatro do absurdo, até a grande ópera e as peças didáticas, só então principiando a segunda fase, da experiência sedimentada e amparada numa filosofia.

3. Não há rupturas maiores na evolução de Brecht, mas um desenvolvimento constante e uma inquietação avassaladora que afeta todos os aspectos do fenômeno teatral, rompendo de modo muito pessoal com a totalidade da tradição do teatro ocidental.

4. O exame do que seja ou deva ser o teatro vem acompanhado de uma ampla meditação comandada pela prática sobre todas as dimensões que o constituem, questionando a dramaturgia, a poética do espetáculo, o trabalho do ator e o público.

5. Já muito cedo o ensaísta Brecht manifesta a necessidade de pensar o mundo teatral e submetê-lo à crítica racional, tornando hábito escrever breves ensaios sobre sua prática como dramaturgo e encenador, quase sempre por ocasião de um novo espetáculo.

6. A ruptura só se verifica a partir de um fundo de aceitação da família, da pátria e dos valores estáveis, e o que interessa é a intensidade dessa ruptura, que em Brecht apresenta um radicalismo justificado pelas coordenadas contundentes do tempo.

7. No plano restritamente biográfico nada se observa que pudesse tornar-se suspeito aos padrões da normatividade, e os biógrafos comprazem-se em repetir o escasso anedotário de sempre, como a disposição antibélica confirmada pela visão dos feridos de guerra em Augsburgo.

8. A grande experiência de anormalidade não decorre do berço ou da escola, mas da própria época, marcada pelo trauma inédito da Primeira Guerra Mundial, pelo clamor sobre a decadência do Ocidente e pela experiência expressionista do rompimento assumido em sua condição própria.

9. O jovem dramaturgo está situado numa alternativa paradoxal que suprime um de seus termos e deixa o outro à deriva, permitindo apenas a crítica ao passado e a aventura da novidade insólita, sem qualquer indecisão quanto a prender-se à tradição.

10. O jovem Brecht pertence ao inconformismo da vanguarda, e suas críticas curtas e incisivas para um jornal de esquerda de sua terra natal oscilam entre o naturalismo e o expressionismo, venerando Franz Wedekind, cuja morte inaugura sua vida teatral com um necrológio.

11. O texto sobre Gás, de Georg Kaiser, é sintomático ao apresentar a peça como visionária e ao equacionar a relação entre o dramaturgo e o diretor Merz, que se deixou influenciar demais por Kaiser à altura do terceiro ato.

12. A crítica sobre o Don Carlos, de Schiller, anuncia o Brecht futuro ao empregar pela primeira vez a expressão “belas áreas” e afiançar que Carlos, Posa e Felipe são cantores de ópera, ofertos ao aplauso, expressando a ruptura entre um antes e um depois.

13. No fragmento Para a estética do drama, Brecht sugere a riqueza dos novos caminhos ao perguntar para que escolher novas pedras se a arquitetura oferece espaços infinitos para novas ideias, lamentando que a comédia política de grandes dimensões não pesquise nem os fundamentos da burguesia.

14. A necessidade da ruptura impõe-se com a evidência dos fatos e constitui o pressuposto fundamental da criatividade brechtiana, sendo a única crise na vida de Brecht a que vai de fins de 1915 a 1918, quando o poeta para de escrever poemas patrióticos e neo-românticos e deixa medrar em silêncio a extensão da ruptura.