George Berkeley (1685-1753)
Geneviève BRYKMAN. UNIVERSALIS.
Berkeley foi essencialmente um apologista preocupado em deter a maré crescente do ceticismo induzido pelo progresso das ciências positivas — mas foi também um autêntico filósofo, cuja ambição paradoxal era definir, de modo ao mesmo tempo novo e tradicional, as relações entre Deus e os seres finitos.
A distinção aristotélica retomada por
Locke entre os “sensíveis próprios” e os “sensíveis comuns” autorizava as abstrações mais desordenadas.
As filosofias que admitem entre o eu e o mundo sensível uma tela de “ideias” de natureza incerta estavam, segundo ele, na origem do ceticismo.
Berkeley ficou célebre pela fórmula “existir é ser percebido” — mas contentar-se com ela é simplificar uma obra multiforme; chamar seu pensamento de idealismo dogmático seria desconhecer o que foi de fato a filosofia nessa obra.
O filósofo, o missionário e o médico
Nascido em Thomastown, perto de Kilkenny, em 12 de março de 1685, Berkeley pertencia pela linhagem paterna à pequena nobreza anglo-irlandesa recentemente instalada na Irlanda.
Entrou no Trinity College de Dublin em 1700, onde o Ensaio de
Locke (1690) gozava de prestígio ímpar graças aos cuidados da família Molyneux.
Em 1707, tornou-se encarregado de cursos no Trinity College, tendo antes se dedicado a estudos de matemática, refletido sobre o tempo e a visão, e discutido a “nova filosofia” — a de
Descartes e o cartesianismo — com colegas.
Em 1709 publicou o Ensaio para uma nova teoria da visão, que criticava a óptica geométrica e estabelecia as bases de uma metafísica original: a heterogeneidade total dos dados provenientes dos diferentes sentidos fazia da natureza uma linguagem referida à estabilidade relativa dos dados táteis.
Em 1710 apareceu em Dublin a primeira parte do Tratado dos princípios do conhecimento humano, cujo objetivo era mostrar que a “substância material” dos eruditos não existe — a obra recebeu acolhida glacial ou irônica em Londres.
Berkeley redigiu então uma versão “popular” dos Princípios — os Três Diálogos entre Hilas e Filonous —, publicados em Londres em 1713; obra-prima literária, buscava mais claramente reconciliar a filosofia e o senso comum, mas em vão.
Visivelmente decepcionado, fez relações entre os letrados londrinos — Steele, Addison, Pope, Swift — e publicou artigos em The Guardian combatendo o livre-pensamento, sem enunciar qualquer tese imaterialista.
Dois sucessivas viagens à Itália (1714, 1716-1721); no retorno, redigiu em Lyon o De Motu, que critica o espaço, o tempo e o movimento absolutos de Newton mais do que a “substância material” dos cartesianos.
Em 1724 obteve a incumbência do diocese de Derry e concebeu um projeto missionário: fundar um colégio nas Bermudas para a edificação dos colonos americanos e a educação dos índios na “verdadeira religião” — casou-se em 1728 e embarcou com a esposa para o Novo Mundo.
Instalado em Newport (Rhode Island) à espera da subvenção prometida, pregou a tolerância diante das mais diversas seitas; conversas filosóficas com S. Johnson — futuro presidente do King's College (Columbia University) — levaram Berkeley mais uma vez a questionar o valor do imaterialismo.
Tendo sabido que a subvenção jamais lhe seria concedida, retornou a Londres em outubro de 1731.
Publicou o Alciphron, ou o Pequeno Filósofo (1732), que causou imediato alvoroço; em 1733, retomou o Ensaio de 1709 numa perspectiva diretamente apologética; em 1734-1735 publicou O Analista e a Defesa do livre-pensamento em matemática, criticando a validade lógica do cálculo infinitesimal para poder dizer que os mistérios religiosos têm sobre os matemáticos o privilégio de se apoiar na autoridade de Deus.
Nomeado bispo de Cloyne em 1734, dedicou-se assiduamente aos problemas socioeconômicos da Irlanda e, em 1744, publicou a Siris — tentativa de combate às epidemias por meio do uso universal da água de alcatrão usada pelos índios, obra que passa gradualmente de considerações sobre uma panaceia a uma meditação sobre a escala dos seres.
Morreu em Oxford em janeiro de 1753, na quietude de uma noite em família.
O “desvio” imaterialista
A leitura de Berkeley deve ser abordada esquecendo o comentário quase oficial que por muito tempo buscou reduzir dois espantos: o primeiro, a fascinação exercida pelo princípio “existir é ser percebido”, do qual os leitores concluíam a um idealismo solipsista radical; o segundo, a Siris, tão diferente das primeiras obras.
A hipótese de uma evolução de Berkeley pareceu a alguns plausível — ele teria partido em viagem para escapar da extravagância imputada ao imaterialismo e retornado com um “platonismo” mais tradicional; outros defenderam a permanência do imaterialismo em toda a obra.
Pode-se afirmar que, em Berkeley, a filosofia era uma maneira de fazer escola às avessas no livre-pensamento.
Por “filosofia de Berkeley” deve-se entender exclusivamente o imaterialismo — a demonstração da não-existência da matéria segundo dois argumentos: a palavra “matéria” carece de sentido; e a noção de matéria é contraditória.
Por “obra de Berkeley” entende-se, ao contrário, a totalidade de seus escritos referidos à sua visada principalmente apologética.
Se toda a obra de Berkeley está a serviço de uma única verdade — “em Deus vivemos, nos movemos e temos nosso ser” —, sua filosofia era um meio a serviço das Sagradas Escrituras; e o imaterialismo era, de admissão do próprio Berkeley, um “desvio” (ambages) na teoria, na linguagem e no livre-pensamento da parte de um prelado para quem o primado da prática, do silêncio e da humilde submissão não admite dúvida.
A análise dos Cadernos de notas e da Nova Teoria da visão mostra que, com os Princípios de 1710, Berkeley não forja suas primeiras armas contra o ceticismo.
A primeira hipótese imaterialista sublinhava, na esteira de Pierre Bayle, que os argumentos dos “novos filósofos” para mostrar a subjetividade total das “qualidades secundárias” se aplicavam igualmente às “qualidades primárias”.
Com a segunda hipótese imaterialista, descoberta ao mesmo tempo que o princípio “existir é ser percebido”, Berkeley passa a questionar o sentido de nossas descrições: o que significa a palavra “coisa”, “substância”, “existência”? O que é, para uma palavra, ter sentido?
Por tais questões Berkeley era muito original em seu tempo — e é por elas que ainda hoje interessa aos filósofos da escola analítica.
Que a palavra “matéria” não tenha sentido decorre de não termos dela nenhuma ideia — mas desde os Princípios Berkeley parece buscar atenuar a extravagância de teses como a intermitência de todas as coisas, que decorrem do princípio “existir é ser percebido”.
Ao fim de 1713, essa “estranha filosofia” é deliberadamente silenciada — o De Motu, dos escritos precedentes, conserva apenas o elemento menos original e chama as coisas de “coisas” e não de “ideias”.
Na Alciphron, os vestígios das obras de juventude não podem ser atribuídos à permanência do “pensamento berkeleyano” — a heterogeneidade dos dados visuais e táteis serve não mais para mostrar a existência de uma “linguagem da natureza”, mas para demonstrar a existência de Deus por meio de uma linguagem que Deus nos fala através da criação.
Em 1733, a publicação de uma refutação dos Princípios por A. Baxter e a refutação da doutrina do sentido das palavras incluída na Alciphron por P. Browne marcam uma data decisiva.
Baxter e Browne concordavam que a crítica da substância material repousava no uso frouxo da palavra “ideia” posto em moda por
Descartes — uso que acarretava a inexistência de toda substância.
Para responder a essa objeção, Berkeley modifica e reedita suas obras de juventude em 1734: o véu das palavras não é mais o efeito de “noções abstratas” embaraçosas, mas marca o inevitável uso de metáforas pelo qual os homens se esforçam por dizer o indizível e falar das coisas espirituais e divinas.
O que está acima da razão recebe com a “noção” um estatuto: pode-se falar do que não se tem nenhuma ideia; e, como o que está acima da razão não lhe é contrário, a “matéria” é reabilitada na Siris — onde o consenso dos filósofos antigos sustenta o bom senso popular para fazer da ilusão realista um efeito da Providência de Deus.
O imaterialismo, por mais provisório que tenha sido, permanece o núcleo vivo de uma obra que nos interessa para além das intenções divergentes de Berkeley como filósofo e como educador.
Ver as coisas de outro modo havia sido para Berkeley, num determinado momento, vê-las em detalhe — mas era estar na impossibilidade de comunicar essa visão aos que as veem em conjunto.
Como a coluna d'água descrita por Filonous sobe até certa altura para depois cair na bacia de onde proveio, a viagem pelo livre exame empreendida para defender a fé cristã devia a ela retornar.