SOPHIA (BETANZOS)

BETANZOS, Ramón James. Franz von Baader's philosophy of love. Wien: Passagen Verl, 1998

Deus, para Baader, é um “centro de amor” vivo para cada parte da “periferia de amor” viva, sendo que qualquer segmento desta só pode amar ao participar d'Ele. Dado este ponto de vista, como o homem chega a compartilhar o amor que é Deus? É claro, por um lado, que Baader faz de Deus a fonte de todo amor; é igualmente claro, por outro, que uma parte importante da experiência do homem tem a ver com o amor. Qual é a ponte que liga os dois? Em que forma o amor de Deus chega ao homem? Uma resposta parcial já foi sugerida: isto é, que a criação e a redenção do homem são ambos efeitos do amor divino. A questão, então, poderia ser aguçada da seguinte maneira: visto que a criação e a redenção são ambos efeitos do amor divino, em que forma particular o amor de Deus pelo homem é corporificado e manifestado? O que há na noção essencial do homem que incorpora a quintessência do amor de Deus por ele?

Baader formula sua resposta na linguagem do Gênesis: “Deus criou o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou, macho e fêmea os criou”. O maior elogio e a mais alta expressão do amor de Deus pelo homem foi fazer o homem de alguma forma uma semelhança, uma cópia, um reflexo, um espelho de Si. Baader compartilhou a posição teológico-filosófica comum de que todo ser criado reflete a perfeição de Deus de alguma forma, mas esta afirmação geral tem uma aplicação única no caso do homem (4,329-30). O homem é uma encruzilhada, o ponto de encontro não apenas para todos os vários níveis de ser no universo, mas também, em certo sentido, o ponto de encontro entre Deus e o todo da criação. O homem não é meramente microcosmos, mas é microtheos também (5,256). Esta é a ideia antropológica que rege o pensamento de Baader. A relevância desta posição para o tema do amor é aparente: se Deus é melhor descrito como amor substancial, e se o homem é melhor descrito como a imagem de Deus, então o amor também deve ser uma realidade que jaz no próprio coração do ser do homem. Na visão de Baader, é a função especial da Sabedoria divina, “Sophia celestial”, estabelecer a presença da imagem de Deus no homem. Assim como Sophia é ela própria a imagem do Deus trino, é também sua presença que faz a imagem de Deus residir no homem. Assim, dois temas intimamente relacionados são explorados neste capítulo: (1) que o homem é feito à imagem de Deus; e (2) que a Sophia Celestial faz com que isso seja assim.