Axelos2023
O ser humano acessa o mundo por meio de grandes poderes mediadores, poderes fundamentais que estabelecem a relação entre o ser humano e o mundo e a administram por meio de instituições. Fundamentalmente ativados pelas forças elementares — linguagem e pensamento, trabalho e luta, amor e morte, brincadeira — das quais constituem elaborações que nos edificam desde o início da peça, esses poderes são chamados:
Elas nos abrem para o mundo e o abrem para nós, o constituem para nós e nos formam para ele. Pode ser que se manifestem simultaneamente, procedendo da mesma fonte – qual? –, como é o caso das grandes épocas da história mundial. Também acontece que uma ou muitas delas estejam ausentes, recuando, por assim dizer, diante do poder crescente e sufocante da outra ou de outras forças. Mas nenhuma delas, por si só, esgota o ser em devir da totalidade – não mais do que seu conjunto o esgota. Nenhuma é, separadamente, o primeiro fundamento e nenhuma é serva da outra. Sem serem autônomas ou separadas, embora específicas, cada uma referindo-se a todas as outras, impregnando-as, implicando-as mais ou menos explicitamente, mas sem simetrias artificiais, os grandes poderes – dimensões, aberturas e caminhos – todos emergem do mesmo centro problemático. Seu dizer e seu fazer são penetrados pelo ser de tudo o que é; eles fazem que seja e o chamam. Totalidades particulares e totais no coração da totalidade, cada uma é um aspecto total da totalidade do mundo, um constituinte da totalidade. Não são elementos isolados de um todo, partes simples de um conjunto. Elas se comunicam entre si, interpenetram-se, lutam e se fertilizam mutuamente, conectam-se, mas não por meio de relações de causa e efeito. Pois “objetos” específicos ou modos “subjetivos” de uma abordagem não lhes correspondem. Cada uma delas aborda especificamente e expressa fragmentariamente a totalidade do que é e do que é feito, imprimindo nela sua marca.
Os grandes poderes do mundo, nascidos da violência original do logos arquitetônico e da práxis poética, emanando de um centro comum – uma totalidade em ação composta não de níveis, mas de domínios –, são carregados e sustentados a cada vez por grandes seres humanos e grandes povos e dão a medida do tempo histórico. Nem sempre estão todos presentes. Para que o sagrado se torne religião, para que a fala se torne poesia, para que os fenômenos se tornem arte, para que a comunidade se torne política, para que o pensamento se torne filosofia e ciência, deve haver a disputa decisiva dos grandes poderes. Uma vez constituídos – eles não se formam simultaneamente –, todos estão em ação, mas às vezes um adormece, às vezes o outro desperta. Quando um ou mais deles não se manifestam, outros assumem o controle. Durante épocas muito grandiosas, todos estão presentes, procedendo de sua fonte inominável e única. Muitas vezes, porém, movimentos mais vagos e originais substituem os grandes poderes formativos e formados: pois o que inspira a religião, a poesia e a arte, a política, a filosofia e as ciências nem sempre se manifesta como religião, poesia, arte, política, filosofia, ciência. Às vezes, podemos até chegar a suspeitar que a divindade, a poeticidade, a plasticidade, a organização da comunidade, o pensamento e a pesquisa estejam se retirando.
Se todos os grandes poderes derivam do mesmo centro, o que é e onde está esse centro? É mais fácil delineá-lo negativamente do que positivamente. Esse centro não é o espírito de uma época, de um povo, de uma sociedade ou de um tempo, pois de onde surgiria esse espírito? Ele não reside na história econômica e política, no desenvolvimento das forças produtivas e estruturantes, pois onde residiria a fonte desse movimento dialético? Não é a ideia, nem o espírito absoluto ou histórico, nem a matéria cósmica ou o material do trabalho humano, sem ser, por isso, a junção de espírito e matéria, ideia e realidade. O único foco, a partir do qual se desenvolvem os múltiplos grandes poderes, esconde-se, por assim dizer, por trás e dentro deles, embora os torne visíveis e eles o tornem “visível”, mas inevitável. Se a religião, a arte, a política, a filosofia e as ciências têm uma estrutura comum para a totalidade de uma época e de uma sociedade das quais são atualizações de um certo registro, de onde vem então a chamada estrutura global que faz com que correspondências surjam ou se reúnam? Privilegiar uma ou outra dessas forças, vê-la como determinante — ora de maneira geral, ora de acordo com os casos — pode acontecer e acontece, afirmando-se e invalidando-se. Isso, porém, não resolve o problema, nem mesmo o coloca, e permanece demasiado unilateral. Mais uma vez: de onde vem o “espírito da época”, sobre o qual ninguém pode saltar? E mesmo que todos ou cada um dos poderes expressem a época, como a época se imprime?
Os grandes poderes formam uma totalidade em progresso, sem centro ou foco, origem ou motor, fonte ou núcleo, fundamento ou princípio que limitasse o jogo de sua estrutura. Esse não-centro – inexistente ou não revelável, se a questão seguir essa formulação – não é uma falta ou uma perda, mas o próprio jogo que também se joga na busca pelo centro.