Alain de Libera

LIBERA, Alain de. Penser au Moyen Âge. Paris: Editions du Seuil, 1991.

A palavra “intelectual” (intellectualis), aplicada ao homem, não tinha significação na Idade Média — como lembrou recentemente Mariateresa Beonio Brocchieri, é uma criação recente que remonta essencialmente ao século XIX e ao caso Dreyfus.

Desde a publicação do livro de Le Goff em 1957, os estudos sobre os intelectuais na Idade Média se desenvolveram consideravelmente — quase todos, porém, na mesma direção: a do ofício, da divisão do trabalho, da cidade e das instituições, numa perspectiva propriamente social que tende a privilegiar a questão do papel e da função dos intelectuais na sociedade.

Ao identificar a grosso modo os intelectuais aos magistri universitários, o historiador sociólogo deixa um problema redutável ao filósofo: se os intelectuais medievais afirmaram eles próprios sua diferença, é necessário expor os motivos e as razões que lhes permitiram pensar, dizer e até ousar essa diferença.

Os intelectuais universitários tomaram consciência de si como tipo antes de se descobrir como grupo — esforçando-se por definir o que deveria ser uma existência de filósofo.

A desprofissionalização da filosofia é, portanto, o que marca o verdadeiro momento do nascimento dos intelectuais — um episódio que supõe e reclama a cidade, e que não contradiz o que os historiadores chamaram de “revolução urbana”, pois foi nas cidades do vale do Reno que atingiu seu acme.