ENTRE IMAGINAÇÃO E ABSTRAÇÃO

ALAG

Duas grandes teorias sobre as generalidades abstratas na Antiguidade tardia — o “abstracionismo” e o “projecionismo” — opõem-se quanto ao papel da imaginação no acesso ao inteligível, distinção que normalmente separa o peripatetismo do neoplatonismo, mas que não se aplica a Abelardo, em quem se identificam antes duas teorias sucessivas: uma fundada na imaginação e outra no intellectus e na conceptio animi.

Anselmo de Cantuária distingue, no Monologion, três maneiras de falar das coisas, sendo a terceira subdividida entre o acesso pela imagem corporal e o acesso pela noção racional, o que coloca ao leitor o problema de interpretar a expressão “rationis intellectu”.

A teoria de Anselmo é que a mente acede à própria coisa seja por sua imagem seja por sua definição, sendo esse segundo modo o que ele chama — com um termo agostiniano — de “o verbo mais próprio e principal da coisa”.

A expressão “contemplatio rationis”, no De Veritate de Anselmo, revela a dupla acepção do termo “ratio”: ao mesmo tempo faculdade mental — dentro do dispositivo de quatro termos introduzido por Boécio na Consolação da Filosofia — e “logos da essência”, de modo que o mesmo vocábulo designa tanto o que contempla quanto o que é contemplado.

Os dois modos de conhecimento claramente distinguidos em Anselmo — per corporis imaginem e per rationem, isto é, per definitionem — são exatamente os que se reencontram em Abelardo, e é na análise de sua natureza e de suas funções respectivas que se situa a evolução de Abelardo em psicologia.

Na Logica — especialmente no Super Porphyriam — coexistem duas teorias: uma fundada no papel central da imaginação, que analisa a intelecção como orientada para uma imagem mental (a similitudo, interpretada como “forma mental”, instar, ou “coisa imaginária”); e outra fundada na conceptio rationis anselmiana, entendida como intelecção de uma natureza per abstractionem.

A questão da cronologia e da evolução do pensamento de Abelardo impõe cautela diante de dois problemas: a presença do termo status no De intellectibus e a “segunda” teoria do conhecimento exposta nessa obra, que parece apontar para uma possível regressão ao platonismo.