====== 4.1.1 Essência da manifestação ====== //WUNENBURGER, Jean-Jacques. La Philosophie des images. Paris: PUF, 1997.// 1. A filosofia platônica comporta uma apologia do ser em si, realidade ideal e incorpórea acessível apenas à intuição que coroa a dialética, diante da qual toda figuração sensível constitui um modo de ser segundo e dependente, mas esse redobramento permanece sob a égide da semelhança, e a reprodução demiúrgica projeta as Formas no visível de modo que o mundo das imagens ganha sentido como cópia e, como espelho, permite remontar à verdade incondicionada, razão pela qual a lógica da duplicação não implica desvalorização unilateral da imagem, que recebe certa dignidade ontológica por sua filiação participativa com a essência, por sua orientação anagógica rumo à origem e por sua contribuição à própria vida do ser em si. **A / Participação e anagogia** 1. A inteligibilidade do mundo sensível supõe uma Forma essencial que é ao mesmo tempo núcleo de significação, modelo original e princípio causal, e como a dualidade hipostasiada entre Ideia e sensível, examinada no Parmênides, gera aporias que tornariam impossível a apropriação cognitiva de uma Forma inteiramente transcendente, impõe-se um vínculo efetivo e vivo entre a Ideia e suas imagens, a participação, que liga lógica e ontologicamente as representações particulares à sua forma universal e torna a Forma em si parcialmente presente em suas reproduções empíricas. 2. O neoplatonismo converte essa participação em emanação, pois para Plotino os mundos inteligível e sensível são irradiações graduadas do Uno, nas quais cada realidade sensível é imagem de um nível superior projetado numa ordem inferior e só existe e se conhece por conter em si a imagem da Forma inteligível de que provém, de modo que, apesar da hierarquia ontológica mais acentuada, a imagem permanece em continuidade com sua origem, como o rio com a fonte e o efeito com a causa. 3. A imagem, espaço de reprodução de formas, não sai do círculo do Ser, ainda que se situe em sua periferia, e conserva a marca que permite reencontrar o original e voltar-se para ele, atuando como imagem anagógica que reconduz ao anterior e superior, de onde a percepção douta como reminiscência e a concepção neoplatônica das imagens naturais e artísticas como mediadoras capazes de restaurar a visão das realidades noéticas, sem que, nas ontologias escalares que hierarquizam sem condenar, a imagem seja rejeitada como não ser, reservado à matéria, situando-se antes num circuito entre o ser invisível e o ente visível. 4. Já em Platão a distância ontológica da imagem, mesmo no mito ou na representação plástica, não exclui na experiência da recepção uma conversão anagógica rumo à fonte essencial do representado, pois a estrutura ilusória da imagem, como mostra a alegoria da caverna, deixa lugar à busca do modelo informante graças à marca que dispõe a alma para a verdade nela adormecida, razão pela qual o homem de ação deve fixar os olhos ao mesmo tempo no desenho que serve de modelo e nas formas realizadas que lhe servem de cópia. **B / O sentido da epifania** 1. Toda teoria metafísica da preexistência de um paradigma não condena necessariamente a imagem ao afastamento e à perda de ser, pois convém distinguir duas perspectivas que Platão tende a sobrepor: uma abordagem ontológica dos graus de ser, voltada a fundar um conhecimento puro sem imagens e que vê nestas um desvio rumo a aparências falaciosas, e uma abordagem estética da criação como manifestação figurativa do que está oculto num plano espiritual, que permite pensar a imagem como expressão e representação limitada e determinada do ser. 2. Nessa segunda perspectiva, a hermenêutica contemporânea inverte a ontologia platônica conservando a filiação entre imagem e essência, pois, como observa Fink, Platão pensa a geração mimética segundo a experiência especular, em que o reflexo existe fenomenalmente sem ser próprio, de modo que a crítica da poesia, regulada pelo modelo do espelho, faz do poeta um mero reprodutor de aparências na esfera nula das aparências, tal como na República os criadores são ironicamente comparados a manipuladores de espelhos e os pintores a produtores de aparência sem realidade. 3. Para Gadamer esse idealismo da essência admite outra interpretação, em que o espaço da figuração, no qual semelhança e dessemelhança jogam equivocamente, permite à imagem participar da manifestação do ser e alcançar um acréscimo de ser, sendo a aparência entendida como aparição e mostração do que, oculto aos sentidos, tornaria impossível a contemplação, e a imagem-quadro, distinta da imagem-cópia e da imagem-espelho, possui ser próprio e realidade autônoma, pela qual o modelo se representa a si mesmo e, num processo ontológico, recebe um acréscimo de ser, sendo o teor da imagem uma emanação do modelo. 4. Essa reinterpretação hermenêutica acarreta que a imagem se torna modo de manifestação pertencente à essência do ser, já que só pela imagem o modelo se torna propriamente original e figurável, que a mimese deixa de ser desconhecimento para tornar-se reconhecimento, pois imitação e representação não são simples repetição, mas extração que torna mais autêntica a presença do representado e dá a conhecer a essência, e que a imagem, enquanto ostensiva, não pode ser puramente semelhante, devendo omitir e acentuar traços, de modo que a dessemelhança participa da exposição sensível da forma e a distância se converte em espaço necessário ao advento visível do ser, que traduz sua superabundância, generosidade ou glória. {{tag>Wunenburger manifestação essência epifania participação anagogia}}