====== Winner ====== ~~NOCACHE~~ Langdon Winner //Resumo Prefácio da segunda edição de WINNER, Langdon. The whale and the reactor : a search for limits in an age of high technology. Second edition. Chicago : University of Chicago Press, 2020// Os artefatos materiais possuem dimensão política, questão que, apesar de inicialmente rejeitada, tornou-se central nos debates contemporâneos sobre tecnologia e democracia. * Cientistas sociais inicialmente descartaram a pergunta "os artefatos têm política?" como um equívoco absurdo e destrutivo. * As preocupações políticas consideradas mais urgentes eram: dinâmica da luta de classes, disputas entre partidos, eleições, qualidades da liderança e processos de elaboração de políticas públicas. * O tema ressurge hoje em debates sobre o poder dos algoritmos em plataformas de internet, sobre robótica, inteligência artificial e o futuro do trabalho, e sobre os perigos da desinformação para o funcionamento da democracia. A questão da política dos artefatos não é nova, tendo sido formulada por pensadores e reformadores sociais ao longo dos séculos. * Historiadores da Antiguidade ao presente chamaram atenção para a significação política dos objetos materiais e de suas configurações específicas. * No século XIX e XX, utopistas, socialistas, anarquistas, teóricos sociais, urbanistas e historiadores da industrialização debateram se os novos instrumentos técnicos apoiariam melhores modos de vida humana. * Robert Owen, Karl Marx, Peter Kropotkin, Lewis Mumford, Jane Jacobs, Herbert Marcuse, Jacques Ellul, E. F. Schumacher, Ivan Illich, David F. Noble e Richard Sclove formularam questões sobre a relação entre tecnologia e política. Já no século V a.C., um artefato político encontrava-se no centro das disputas entre Atenas e Esparta — os longos muros de pedra que protegiam Atenas e a ligavam ao porto de Pireu. * Os espartanos opuseram-se veementemente a essas estruturas e exigiram sua demolição, argumentando que elas ameaçavam romper o equilíbrio de poder em favor de Atenas em caso de conflito armado. * Os muros tinham também significado simbólico: sinalizavam que Atenas estava disposta a agir por conta própria, sem depender da solidariedade defensiva das comunidades gregas. * Tucídides discute esse episódio no início de sua História da Guerra do Peloponeso, interpretando os muros como artefato político provocador que ilumina os conflitos desastrosos narrados ao longo da obra. As pontes de Robert Moses sobre a Long Island Expressway tornaram-se um exemplo emblemático de artefato com intenção política dissimulada. * Segundo Lee Koppelman, associado de Moses e citado no estudo definitivo de Robert Caro, The Power Broker, Moses projetou deliberadamente as pontes com altura reduzida para impedir a passagem de ônibus urbanos. * A intenção era obstruir o acesso de moradores pobres das áreas centrais ao Jones Beach — parque projetado por Moses como refúgio para brancos de classe média com automóvel. * As evidências do comprometimento de Moses com a segregação social e racial — expressa em estradas, pontes, parques, loteamentos suburbanos, piscinas e outras obras públicas — são hoje amplamente reconhecidas. * O que fascina nessas pontes é que as restrições ao trânsito social que impunham eram insidiosamente dissimuladas, inspirando a busca de outros exemplos de artefatos políticos em outros contextos. O objetivo central não é apenas constatar que objetos materiais podem refletir ideias e relações políticas, mas reconhecer os artefatos como fenômenos constitucionais — entrelaçamento de dispositivos úteis, sistemas técnicos, ideais filosóficos, arranjos institucionais e práticas cívicas. * Artefatos materiais são concebidos como combinações intrincadas de technē e politeia. * A questão proposta ao leitor diante de qualquer tecnologia nova e "aprimorada" é: o que estamos fabricando aqui? Nossas "coisas" técnicas expressam nossos melhores impulsos e compromissos, ou algo inteiramente diferente? A introdução de qualquer tecnologia poderosa e amplamente disponível poderia — mas raramente o fez — conduzir a uma reinvenção frutífera da sociedade. * As esperanças consistentes, frequentemente frustradas, residem na possibilidade de que novas tecnologias melhorem as relações humanas e as instituições, promovam distribuição mais igualitária de renda, abram novos caminhos para a participação cidadã, reforcem a vida comunitária e eliminem padrões arraigados de injustiça social. * Nos dois últimos séculos, novas tecnologias nos transportes, nas comunicações, na produção industrial e na computação visaram predominantemente a expandir a riqueza e o poder de poucos, com pouco ou nenhum cuidado com o bem comum. * As esperanças de criação de novas instituições públicas capazes de identificar e neutralizar esses problemas foram sistematicamente frustradas. * Inovação tecnológica e oligarquia política emergiram, em medida crescente, como gêmeos fraternos.