====== 1 Entidade atual ====== //WHITEHEAD, Alfred North; SHERBURNE, Donald W. A key to Whitehead’s Process and reality. University of Chicago Press ed ed. Chicago: University of Chicago Press, 1981.// 1. A entidade atual é o conceito central do atomismo orgânico de Whitehead, para o qual o mundo se compõe de unidades microscópicas que crescem, amadurecem e perecem, distinguindo-se assim dos átomos materialmente inertes de Demócrito. 2. A análise microscópica das entidades atuais individuais nos três primeiros capítulos fornece as categorias com que os quatro seguintes examinam os nexos e as sociedades de entidades atuais na escala da experiência comum, em relação com os problemas filosóficos tradicionais, a ciência moderna e as intuições religiosas. **I. A entidade atual** 1. As entidades atuais, também chamadas ocasiões atuais, constituem as realidades últimas de que o mundo se compõe, desde Deus até a manifestação mais ínfima de existência no espaço remoto, e nelas se fundamentam o devir, o ser e as relações. 2. A filosofia do organismo reúne Deus e a mais ínfima ocasião atual em um único gênero, no qual as diferenças de natureza específica, função e importância coexistem com os mesmos princípios de atualidade, comuns a todas essas gotas complexas e interdependentes de experiência. 3. A atualidade corresponde à existência em sentido pleno, designada por Descartes como res vera, e abrange Deus no mesmo gênero das demais entidades atuais, com a particularidade de que sua existência é primordial. 4. A concrescência é o processo pelo qual a multiplicidade do universo se integra em uma unidade individual nova, de modo que a posição determinada de cada elemento nessa unidade compõe a própria constituição interna real da ocasião atual. 5. Enquanto as mônadas de Leibniz mudam, as da filosofia do organismo vêm a ser como ocasiões atuais, cada qual produzida pelo processo criador ao acolher o mundo em uma unidade determinada de sentimento complexo. 6. Cada entidade atual é um ato de experiência que nasce da objetivação de outras ocasiões e, por meio de sentimentos, converte a multiplicidade objetiva dos dados na unidade subjetiva de uma satisfação individual. 7. O sentimento é a operação pela qual uma ocasião em concrescência se apropria de elementos do universo e os transforma em componentes de sua constituição interna, integrando-os em uma configuração emocional que exprime a subjetividade da ocasião. 8. Na concepção celular da atualidade, a preensão designa a atividade essencial pela qual cada entidade se constitui ao se apropriar dos elementos do universo de que procede. 9. Cada entidade atual mantém com todos os elementos do universo um vínculo determinado de preensão, positivo quando o elemento contribui para sua constituição interna como dado de um sentimento e negativo quando essa contribuição é excluída, sendo necessariamente sentidas, ainda que de modo vago, as entidades que compõem seu mundo atual. 10. A unidade de um sentimento depende da entidade atual que o sente, pois seus elementos são múltiplos quando considerados separadamente do sujeito de cuja constituição o sentimento é um aspecto. **II. Preensões** 1. A constituição da entidade atual por suas preensões exige distinguir o dado que se oferece à apreensão e a forma subjetiva pela qual ele é apreendido. 2. A entidade atual se constitui pela concrescência das preensões surgidas em seu devir, cada uma composta pelo sujeito que preende, pelo dado preendido e pela forma subjetiva segundo a qual o sujeito preende esse dado. **1. Dado** 1. No sentimento físico simples, o dado inicial é uma única entidade atual distinta do sujeito que sente, e o dado objetivo é um sentimento da própria entidade tomada como dado inicial. 2. Na figura, a entidade B em concrescência preende a entidade anterior A pelo sentimento vetorial X, que incorpora N como a preensão pela qual A se objetiva para B, enquanto as preensões negativas Y e Z excluem os demais aspectos da constituição de A. 3. No sentimento físico simples X, a entidade anterior A constitui o dado inicial para o sujeito B, e a preensão N torna-se o dado objetivo que apresenta A sob uma perspectiva determinada, relegando os demais componentes de sua constituição a uma importância subordinada ou nula. 4. A apropriação dos dados iniciais por um sentimento passa pelas preensões negativas, cuja função de eliminação faz do dado objetivo a perspectiva sob a qual esses dados são sentidos e integrados à constituição interna do sujeito. 5. A eliminação operada pelas preensões negativas faz dos componentes do dado objetivo objetos que intervêm na formação do sujeito, conferindo ao sentimento o caráter vetorial pelo qual elementos de outras entidades são incorporados à sua concrescência. 6. No ato causal elementar, a entidade que fornece o dado inicial é a causa, o sentimento físico simples é o efeito e o sujeito que o experimenta é a entidade condicionada, de modo que o poder da causa consiste em sua objetivação na constituição desse sujeito e as ações causais complexas se compõem de atos desse tipo. 7. O sentimento físico simples é conformal porque transmite ao novo sujeito um sentimento da causa, preservado em sua subjetividade originária, de modo que a conformação do presente imediato ao passado manifesta tanto o caráter reprodutivo da natureza quanto a imortalidade objetiva do passado. **2. Forma subjetiva** 1. O sentimento é uma preensão positiva que contribui para a concrescência mediante a relação entre o sujeito, os dados iniciais, a eliminação por preensões negativas, o dado objetivo e a forma subjetiva, na qual se exprimem as reações do sujeito, como emoções, valorações, propósitos e aversões. 2. A novidade essencial de um sentimento reside na forma subjetiva, pois a maneira peculiar como o sujeito sente o dado objetivo pertence àquela concrescência singular, ainda que os dados iniciais e o próprio dado objetivo possam integrar outros sentimentos. 3. Na gênese de um sentimento, as preensões negativas transformam a multiplicidade dos dados iniciais em um dado objetivo complexo, ao passo que a forma subjetiva exprime o propósito que orientou o processo, os obstáculos encontrados e as indeterminações resolvidas pelas decisões do sujeito. 4. Na forma mais primitiva de eficácia causal, a ocasião B recebe da ocasião anterior A tanto o dado sensível quanto a forma emocional com que A o sentiu, em uma transmissão vetorial que, em termos físicos, corresponde à transmissão de uma forma de energia. 5. A forma subjetiva de um sentimento físico reproduz o padrão do sentimento que lhe serve de dado objetivo, mas a história de sua formação introduz inibições, acréscimos, atenuações ou intensificações pelas quais o novo sujeito faz seu o sentimento recebido. 6. A causa integra objetivamente a constituição do efeito como sujeito do sentimento que este reproduz com uma forma subjetiva parcialmente equivalente, pois o sentimento originário permanece inseparável da entidade que o sentiu. **III. Satisfação, superjeito e imortalidade objetiva** 1. A satisfação encerra a concrescência ao integrar em um único sentimento complexo os sentimentos inicialmente derivados das ocasiões do passado causal, conferindo à entidade o caráter de superjeito pelo qual ela subsiste objetivamente como dado inicial para ocasiões posteriores. 2. A entidade atual termina seu devir na satisfação, unidade operativa completa em que um único sentimento complexo reúne os vínculos plenamente determinados de preensão positiva ou negativa com cada elemento do universo. 3. Sob a direção das formas subjetivas, os sentimentos de cada fase integram-se a sentimentos mais complexos na fase seguinte, até que a satisfação resolva as indeterminações e atribua a cada elemento, inclusive aos surgidos na própria concrescência, seu papel em um fato plenamente determinado. 4. A determinação singular que orienta o processo como sua causa final encerra o devir da entidade quando é alcançada e lhe confere imortalidade objetiva como nova condição para as determinações de entidades futuras. 5. O aspecto formal da entidade atual é o processo de concrescência que lhe é imanente, enquanto seu aspecto objetivo consiste nas consequências que sua satisfação produz ao ser sentida em outros processos. 6. A satisfação exprime os poderes da entidade atual como fato determinado que, uma vez consumado seu processo interno, intervém como objeto em outras concrescências, e essa capacidade de intervenção constitui a solidariedade do universo. 7. Toda entidade atual é sujeito ao preender o universo de que nasce e superjeito ao exercer sua imortalidade objetiva, pois, uma vez constituída como ser, torna-se uma potencialidade para novos devires. 8. A entidade atual é simultaneamente o sujeito de sua experiência e o superjeito que dela resulta, de modo que o termo “sujeito”, mesmo quando se refere à constituição interna da entidade, designa um aspecto dessa unidade de sujeito e superjeito. 9. A unidade do sujeito emerge dos sentimentos dos dados como a finalidade interna que os orienta, e são esses mesmos sentimentos que determinam o que o sujeito se torna e como ele condiciona a criatividade ulterior, relação que se manifesta na responsabilidade moral pelo próprio ser e por suas consequências. 10. A estrutura sujeito-predicado obscurece a finalidade imanente do sentimento, cuja unidade decorre de tender ao próprio sujeito que se constitui ao sentir dessa maneira e é, nesse sentido espinosano, causa de si mesmo. 11. A entidade atual é uma res vera no sentido cartesiano, mas a primazia das relações sobre as qualidades situa o avanço criador do mundo na sucessão de devires e perecimentos pela qual as entidades que perderam sua imediatez se tornam, graças à imortalidade objetiva, componentes reais de novas concrescências. 12. Cada entidade atual realiza-se como indivíduo em uma decisão cujos efeitos ultrapassam sua própria existência imediata, de modo que o perecimento de sua individualidade absoluta coincide com a aquisição da imortalidade objetiva. 13. A satisfação é o fato individual último obtido ao se considerar o resultado da concrescência separadamente do processo, e, como superjeito, encerra a entidade e acrescenta à criatividade um caráter determinado que passa a integrar o devir de entidades posteriores. **IV. O princípio ontológico** 1. O princípio ontológico exprime a posição fundamental da entidade atual na filosofia do organismo. 2. Toda condição de um devir tem sua razão no caráter de alguma entidade atual do mundo em que se dá a concrescência ou no caráter do próprio sujeito em formação, de modo que buscar uma razão é buscar uma ou mais entidades atuais. 3. A noção lockiana de poder das substâncias se amplia no princípio segundo o qual toda razão se encontra na natureza de entidades atuais determinadas, em Deus quando se trata das razões de maior alcance absoluto e nas entidades temporais quando se trata de um ambiente particular. 4. O mundo atual é constituído de ocasiões de experiência das quais os demais modos de existência derivam por abstração, e a atualidade de cada nova entidade consiste no próprio ingresso no concreto pelo qual uma multiplicidade adquire unidade individual na concrescência. 5. A exigência cartesiana de uma substância para cada atributo aproxima-se do princípio ontológico, embora a noção de ocasião atual evite tanto a vinculação à estrutura sujeito-predicado quanto as dificuldades da concepção cartesiana e lockiana de uma substância que muda de qualidades. 6. O caráter dado de algo pressupõe uma decisão que delimita o que será dado para determinada ocasião, e essa operação de delimitação, que pode ocorrer sem juízo consciente, remete sempre a uma ou mais entidades atuais. 7. A decisão é constitutiva da atualidade porque cada entidade surge de decisões que a condicionam e, ao determinar progressivamente sua própria constituição interna, converte possibilidades em um fato que condiciona a criatividade das entidades que a sucedem. {{tag>Whitehead Sherburne}}