====== Agrippa (Walker) ====== //WALKER, Daniel Pickering. La magie spirituelle et angélique: de Ficin à Campanella. Marc Rolland. Paris: Albin Michel, 1988.// * A interpretação das posições de Agrippa acerca da magia revela-se intrinsecamente problemática, em virtude tanto da cronologia de suas obras quanto das ambiguidades internas de seu pensamento. * O De Occulta Philosophia, concluído por volta de 1510, só é publicado em 1533, após o De Vanitate scientiarum de 1530, que contém uma retratação explícita da obra anterior e críticas às diversas formas de magia. * Na reedição tardia do De Occulta Philosophia, Agrippa reinsere o tratado após o De Vanitate, acrescenta materiais novos e, no prefácio, recorre a Ficino para justificar a impressão de um livro que afirma relatar doutrinas que não aprova, introduzindo assim uma tensão não resolvida entre exposição e recusa. * A avaliação da retratação presente no De Vanitate exige cautela quanto ao seu alcance e intenção. * O De Vanitate assume a forma de uma declamatio invectiva, gênero retórico comum, o que relativiza o peso literal de suas afirmações céticas. * Embora contenha uma retratação formal do De Occulta Philosophia, esta se limita à magia demoníaca explícita, deixando espaço para uma defesa implícita da magia natural e da teurgia. * Persiste, portanto, um conflito interno entre a postura de um cristão evangélico crítico dos abusos supersticiosos e a permanência de uma convicção profunda no valor cognitivo e operativo da magia. * Agrippa ocupa uma posição singular na história do pensamento mágico renascentista. * Constitui o primeiro autor anterior a Campanella a oferecer uma exposição sistemática da magia astrológica de Ficino, incluindo a teoria da música planetária. * Essa exposição combina materiais retirados do De Triplici Vita, da Conclusio orphica de Pico e de hinos órficos, interpretados como invocações astrológicas. * O conjunto, contudo, encontra-se disperso ao longo de uma vasta investigação sobre música, o que o associa e contamina com outros tipos de magia substancialmente distintos. * O De Occulta Philosophia, apesar de sua ambição sistemática, apresenta uma pluralidade heterogênea de tendências mágicas. * A terminologia e o enquadramento metafísico são nitidamente neoplatônicos. * Ao mesmo tempo, o texto incorpora práticas e teorias mágicas sem uma ortodoxia rigorosa. * Não se manifesta qualquer prudência consistente em relação a anjos, demônios, talismãs ou encantamentos. * A reelaboração da magia espiritual de Ficino no contexto de Agrippa mostra-se particularmente reveladora. * Agrippa raramente cita autores modernos de forma explícita, mas utiliza extensivamente excertos, integrando-os de modo orgânico à sua argumentação. * Fragmentos de Ficino e Pico são incorporados de tal maneira que parecem constituir o próprio tecido conceitual da obra. * Muito cedo no tratado, Agrippa dedica um capítulo ao spiritus mundi, retomando diretamente Ficino. * As influências planetárias são transmitidas por esse espírito, concebido como análogo ao espírito humano. * Seguem-se capítulos que descrevem como objetos dotados de abundância de espírito e associados aos planetas podem ser usados para obter benefícios celestes. * Agrippa fornece instruções para a obtenção de benefícios não apenas celestes, mas também intelectuais e divinos. * Tais operações recorrem a objetos planetários, ervas, pedras, luzes, sons e imagens. * O objetivo é atrair anjos ou demônios para dentro de estátuas ou suportes rituais, em passagens que se mostram paralelas às descrições clássicas da atração de espíritos por meios obscenos. * Essas indicações são oferecidas sem advertências morais explícitas, o que acentua sua ambiguidade. * A integração da música planetária e dos hinos órficos constitui um ponto central da prática mágica descrita. * As incantações devem ser dirigidas aos numina dos planetas. * A música prepara o espírito do operador, tornando-o receptivo à influência astral. * O espírito humano é projetado no objeto encantado para constrangê-lo ou orientá-lo, convertendo-se num instrumento ativo de magia. * Embora inspirado por fontes neoplatônicas, Agrippa distingue-se radicalmente de Ficino. * Não se empenha em integrar suas teorias num quadro cristão coerente. * Diferentemente de outros sincretistas, não alerta o leitor contra possíveis heresias. * Magia e religião, cristã ou pagã, são tratadas como atividades da mesma natureza fundamental. * A noção de prisca theologia e de prisca magia é adotada de modo excepcionalmente liberal. * Todas as religiões seriam manifestações parciais de uma verdade originária. * Ritos e cerimônias religiosas variam segundo tempos e lugares, mas permanecem dirigidos ao mesmo Criador. * Mesmo práticas supersticiosas conteriam parcelas de verdade e poderiam produzir efeitos reais. * Agrippa não estabelece distinção clara entre religião verdadeira, superstição e magia. * Em capítulos tardios do Terceiro Livro, práticas cristãs são colocadas no mesmo plano que ritos pagãos ou mágicos. * A oração cristã é descrita segundo o mesmo esquema das invocações mágicas. * A eficácia das práticas depende da disposição afetiva da alma e de sua conformidade com determinados espíritos. * A eficácia de orações, purificações e ritos depende também de condições astrológicas. * Certos dias e horas são considerados mais favoráveis. * Cerimônias eclesiásticas como o batismo de sinos são reinterpretadas como incantações eficazes da Igreja primitiva. * No conjunto, a exposição de Agrippa contribui decisivamente para a difusão da magia espiritual de Ficino, ao mesmo tempo que revela seus perigos. * A magia é apresentada sem distinções morais rigorosas. * Religião pagã, cristianismo e magia são nivelados conceitualmente. * O resultado é a demonstração clara do potencial antinomiano e teologicamente perigoso do neoplatonismo mágico, especialmente do ponto de vista cristão. {{tag>Agrippa magia}}