====== 9 Hermenêutica, crítica ====== //VATTIMO, GIANNI. ESSERE E DINTORNI. Milano: LA NAVE DI TESEO, 2018.// **9. Hermenêutica, encruzilhada da crítica à globalização** 1. A recente onda de novo realismo filosófico, teoricamente vazia e movida sobretudo por razões de marketing midiático, teve ao menos o mérito de marcar a diferença entre o intento conservador e restaurador dos supostos novos realistas e o empenho hermenêutico em ler os sinais dos tempos em sentido progressista e emancipatório, levando a hermenêutica, por oposição ao culto daquilo que há, a reconhecer-se como a filosofia projetual e ligada à práxis que é desde suas origens heideggerianas, direção confirmada pelo debate em torno dos Cadernos negros, pois as mesmas razões que levaram Heidegger ao nazismo poderiam e deveriam tê-lo levado ao comunismo, e somente contingências históricas, como o antissemitismo da tradição cultural alemã e as aberrações do stalinismo, o fizeram escolher Hitler, decisão de engajamento político que autoriza hoje falar de um heideggerianismo de esquerda e de um comunismo hermenêutico. 2. A hermenêutica como crítica da globalização não se limita a reivindicar a pluralidade das culturas contra a neutralização do pensamento único e da fantasmagoria mundial das mercadorias, mas parte da materialidade que, como o principium individuationis da materia signata quantitate, faz fracassar o sonho de uma humanidade unificada, porque não há bens para todos e a escassez desperta as diferenças de indivíduos e grupos, não segundo o princípio de realidade pretensamente neutro dos novos realistas, mas porque a filosofia lida com interpretações e com a Wirklichkeit, a realidade que produz efeitos sobre sujeitos, de modo que a crítica hermenêutica nasce não de uma contradição teórica da globalização, mas de seus contraefeitos existencialmente intoleráveis, tal como em Ser e tempo a redução do ser ao ente exigia retomar a pergunta pelo ser por suas consequências insuportáveis para o Dasein, em sintonia com as vanguardas que recusavam a sociedade da organização total, recusa hoje ainda mais urgente porque a globalização representa uma fase mais avançada e menos reconhecível da dialética do esclarecimento de Adorno e Horkheimer, visível nas descargas humanas das periferias, na redução dos direitos e na intensificação do controle sobre quem ainda trabalha no Ocidente, na devastação dos mundos da vida, no desaparecimento de línguas e culturas e na predação dos mundos primitivos pelas grandes farmacêuticas, fenômenos diante dos quais, sem ceder ao obscurantismo antimoderno do Heidegger da Floresta Negra e do Blut und Boden, se recoloca a questão por ele vista e não resolvida da superação da metafísica, isto é, de uma sociedade em que o progresso material não equivalha à destruição da vida e da liberdade, programa que encontra expressão na fórmula leninista do comunismo como eletrificação mais sovietes. 3. A expressão comunismo hermenêutico, tão vaga quanto a definição de Lenin, designa uma posição teórica voltada a inverter as pretensões cientificistas do comunismo soviético e do marxismo que criticou as ideologias a partir de um realismo metafísico insustentável, ao qual remonta remotamente a responsabilidade pelos aspectos totalitários do comunismo real, pois é metafísica, e portanto autoritarismo, toda pretensão de legitimar-se pela descrição de como as coisas realmente são, pretensão a que a hermenêutica responde sempre perguntando quem o diz e convocando assim a responsabilidade do intérprete. 4. Falar de comunismo hermenêutico não significa apenas nomear uma posição teórica contraposta a outras declinações do comunismo, pois justamente por ser hermenêutico esse comunismo exige a referência teórico-prática aos sujeitos que dele falam e pretendem praticá-lo, em analogia com a condição de Heidegger na Alemanha de sua época. 5. A questão decisiva é saber se a hermenêutica tem vocação ao comunismo e se uma posição filosófica pode fundar uma opção política sem incorrer no erro fatal atribuído a Heidegger de sujar a teoria tornando-a escolha de partido contra a neutralidade da verdade universal, terreno escorregadio que, no entanto, não pode ser evitado, porque falar como hermenêutico exclui a posição cômoda do espectador neutro, assim como o theoros enviado pela cidade cumpria um mandato político e como a sentença nietzschiana de que não há fatos, só interpretações, inclui a cláusula de que também esta é uma interpretação, de modo que a verdade da hermenêutica não é a de uma teoria argumentativamente preferível, mas um modo não objetivo de praticar a filosofia no qual o intérprete está implicado no processo de que fala, sendo impossível fazer hermenêutica sem tomar partido, o que constitui não apenas uma mudança na posição do filósofo, mas uma virada ontológica em que a verdade deixa de ser espelhamento, o sujeito deixa de ser tela onde se desenham as realidades e o ser deixa de ser dado para tornar-se evento, Ereignis apropriador e expropriador. 6. A evocação do comunismo justifica-se porque a polêmica midiática dos neorealistas revelou a hermenêutica como posição também política, já que eles não descrevem os hermenêuticos, mas os atacam, e a inconsistência de seus argumentos, não exigidos por nenhum perigo iminente para o pensamento nem pela suposta ameaça de que a sentença de Nietzsche causasse caos nos transportes aéreos ou nas previsões meteorológicas, sugere como hipótese mais verossímil que seu trabalho serve para fazer a filosofia participar do retorno à ordem exigido pela lógica da globalização, como indica a gênese essencialmente midiática do neorealismo. 7. Evocar uma vocação comunista da hermenêutica significa apenas registrar esse estado de coisas em que é ainda o inimigo que a define, pois, embora nem toda oposição ao domínio da metafísica, isto é, da globalização técnico-científica do mundo, seja por si comunista, esse nome resume todas as razões da oposição a uma globalização que é pura eletrificação sem sovietes, sem envolvimento dos sujeitos, sem participação dos cidadãos nas decisões e sem responsabilidade dos intérpretes, o que não implica projetar uma sociedade de tipo soviético ou chinês com planos quinquenais e KGB, mas retomar um termo determinante no sonho de transformação das classes exploradas, cujo escândalo deriva de o ideal comunista ter-se deixado contaminar, também pela pressão capitalista, pela mentalidade cientificista da metafísica, que como objetivismo redutor do ente e do Dasein a objeto calculável e Bestand é essencialmente capitalismo, e de as razões que levaram Heidegger ao nazismo, depuradas de seus preconceitos culposos, permanecerem vivas como combate à lógica globalizante do capitalismo que se impôs tanto a Hitler quanto ao comunismo soviético, sufocando seus impulsos revolucionários originais na necessidade de copiar às pressas o taylorismo americano, de modo que Stalin foi corrompido pelo exemplo do capitalismo ocidental. 8. A questão da práxis e do papel dos intelectuais em termos gramscianos encontra resposta na prática sem vergonha de uma filosofia militante, que assume responsavelmente o próprio passado como Gewesen, o que foi e continua vivo, e não apenas como dado arqueológico. {{tag>Vattimo hermenêutica}}