====== 2 Contradição ====== //VATTIMO, GIANNI. ESSERE E DINTORNI. Milano: LA NAVE DI TESEO, 2018.// **2. Filosofia e contradição** 1. A filosofia nunca tolerou as contradições e pode-se dizer que nasceu justamente para eliminá-las, recorrendo à ordem ultramundana das ideias platônicas ou ao princípio de não contradição da lógica e da metafísica aristotélicas, de modo que até a transformação do mundo invocada na décima primeira tese sobre Feuerbach se dirige fundamentalmente contra a natureza tradicionalmente conciliadora da filosofia, tendência que explica a superioridade definitiva de Hegel e a face conservadora de seu pensamento, enquanto Brecht, ao opor um teatro épico, não aristotélico, ao descrito e prescrito pela Poética, reivindicava a resistência das contradições à pretensa força da mediação racional. 2. Seria fortemente autocontraditório propor por razões teóricas a insuperabilidade das contradições, pois, na linguagem padrão da filosofia, uma teoria deve ser não contraditória e apresentar-se como superação de contradições pertence à sua própria natureza, já que desde seu nascimento grego a filosofia tem uma vocação pedagógica de oferecer-se como possibilidade de salvação para o ser humano, frequentemente nos termos do mito da caverna, em que quem vê as coisas verdadeiras fora dela se volta para os companheiros convidando-os a partilhar a visão, com a tentação constante de obrigá-los em nome de sua felicidade, caminho tradicional que segue também a proposta de refletir filosoficamente sobre a contradição, cujo único propósito seria criar as condições de sua conciliação, segundo o preceito spinoziano de não rir, não lamentar nem detestar as ações humanas, mas compreendê-las, conciliação fundada na visão de uma verdade objetiva independente dos interesses pessoais, a ser observada no sentido cognitivo e prático, isto é, respeitada como fonte da lei moral. 3. Recusar a via tradicional da conciliação metafísica das contradições e a atitude pedagógico-metafísica da filosofia implica modificar radicalmente a própria noção de filosofia, pois a decisão de refletir sobre as contradições, como sobre qualquer outro tema, não pode fundar-se em razões teóricas, como se fosse contraditório não fazê-lo ou como se a filosofia precisasse completar-se esclarecendo esse tema, e a alegação, sobretudo hegeliana, de sua atualidade deve ser questionada, perguntando-se se a condição geral do mundo, no sentido evocado pela Estética de Hegel, exige da filosofia um acordo especial para reduzir conflitos e contradições, já que, embora a pacificação seja urgente nos planos internacional e doméstico, a ênfase na conciliação sempre foi o tema privilegiado da filosofia, não havendo filosofia que exorte ao conflito ou às contradições insuperáveis, inserindo-se até a tese de Marx numa esperança escatológica na vitória final do proletariado, classe geral capaz de captar a verdade além do véu ideológico e sem interesses que distorcessem o conhecimento objetivo do sentido da história, de modo que aceitar como óbvio que a filosofia corresponde à necessidade de paz e reconciliação decorre de ela sempre se ter pensado como fator de pacificação, cabendo perguntar se é tão óbvio que hoje haja necessidade de pacificação e que a filosofia deva refletir sobre as contradições para superá-las rumo ao reino da verdade não distorcida, como no fim da história de Fukuyama, questão no fundo da qual está a oposição entre a hermenêutica e a crença epistemológica na objetividade da verdade científica, pois a hermenêutica, a partir de Heidegger, não é disciplina metódica para decifrar sentidos ocultos, mas filosofia da alteridade irredutível do outro, não necessariamente do conflito, mas certamente não da conciliação baseada numa verdade objetiva compartilhada, razão pela qual a tese de Marx está paradoxalmente mais próxima da hermenêutica do que do objetivismo científico, e o marxismo, se não quiser tornar-se stalinismo dogmático, não pode crer que mudar o mundo implique superar as interpretações em vista da objetividade. 4. Hoje não há necessidade de mais conciliação pela filosofia, nem de mais catarse pelo teatro aristotélico, mas antes do contrário, como mostra a crise da democracia e a perda de credibilidade das instituições representativas, já conhecida por Churchill e intensificada pelas maiores possibilidades de controle social, em que o povo não crê mais poder influenciar as políticas pelo voto, a participação eleitoral diminui e a discussão pública se limita à fofoca ou ao protesto contra os políticos, situação que não é multiplicação de conflitos, mas progressiva neutralização, segundo Schmitt, ou desaparecimento da emergência, segundo Heidegger, hoje chamada pensamento único, cujo equivalente político é o consenso de Washington, adversário radical da hermenêutica, a que censura o relativismo, enquanto o novo realismo de filósofos como John Searle, condecorado por George W. Bush, e uma união entre resíduos da fenomenologia e empirismo pós-analítico substituem a metafísica epistemológica de décadas atrás, fornecendo, às vezes independentemente das intenções dos autores, fundamento intelectual ao mundo neoliberal centrado no poder imperialista militar e econômico dos Estados Unidos e do capitalismo multinacional, ideologia que pretende purgar a filosofia do relativismo hermenêutico como ameaça à verdade oficial e científica, cujas conexões com o poder social e econômico são evidentes diante da força financeira pública, militar, e privada envolvida na empresa científica moderna. 5. A atual situação de desaparecimento da emergência remete à tese de Fukuyama sobre o fim da história, sem partilhar suas implicações ideológicas e apologéticas, segundo a qual o triunfo da democracia e do capitalismo liberal põe fim à história, isto é, ao conflito entre interpretações e entre armas, nada mais podendo acontecer, restando como única emergência o terrorismo internacional, tratado não como inimigo no sentido schmittiano, mas como criminoso, com a OTAN e até a ONU envolvidas em operações de polícia internacional e uma opinião pública que pede sobretudo segurança a qualquer custo de liberdade e privacidade, aura de aceitação de uma existência de baixo perfil a que pertence também o respeito humanitário pela vida como mera sobrevivência biológica, como na proibição da eutanásia mesmo em estado vegetativo e contra a decisão do indivíduo, determinada provavelmente pelo medo difundido pela mídia, do terrorismo, do desemprego, dos imigrantes, em suma, o triunfo do status quo na teoria e na prática. 6. Nem uma reflexão sobre a contradição nem uma teoria do conflito correspondem a uma exigência teórica interna à filosofia, podendo antes referir-se à condição geral do mundo, o que já implica adotar uma perspectiva hermenêutica e não científico-objetivista, sem que isso signifique adotar uma perspectiva realista, para a qual quem pretende responder a uma exigência histórica do mundo deveria conhecê-la de modo correto e verídico, já que os chamados fatos correspondem ao que se define como tal, resultado de uma experiência em sentido hegeliano mais do que empirista. 7. Há boas e razoáveis razões, filosoficamente motivadas embora não demonstradas, para defender mais conflito em vez de mais pacificação, pois a situação de neutralização pode ser lida como desejável fim da história ou como o perigo extremo do esquecimento do ser em favor dos entes, a ordem existente interpretada como única realidade possível, e, como escreveu Benjamin, há quem prefira a ordem existente a qualquer mudança, os vencedores da história, para os quais o mundo atual é o melhor possível, sem que haja demonstração lógica a favor de nenhuma das alternativas, podendo-se apenas oferecer experiências históricas ou psicológicas conscientemente ligadas à condição específica do desaparecimento da emergência e sem pretensão de valer para sempre, ao passo que também os defensores de uma ordem lógica e metafísica podem desejar mudança para repor nos eixos um mundo fora dos eixos, mas sempre em nome de uma estrutura metafísica destinada a eliminar os conflitos, como toda guerra que se apresenta como a última em vista da paz, e a restabelecer a essência, com o risco já mencionado do stalinismo, para o qual, terminada a revolução, resta voltar ao trabalho. 8. Os filósofos reunidos num congresso sobre contradições ficam profundamente insatisfeitos com uma teoria que não proponha, ao menos ao fundo, um ideal racional de vida reconciliada fundado numa verdade metafísica estável e objetiva, e até a revolução marxiana se inspira no ideal de uma eliminação final da alienação, ainda que remota, ao passo que a hermenêutica aceita o risco de propor uma dialética aberta, talvez semelhante ao dualismo freudiano entre Eros e Tânatos, que, representando-se apenas como resposta historicamente situada à situação presente na teoria e na prática política, não precisa construir um sistema completo, nem mesmo no sentido de um ideal de vida boa, já que, como propõe MacIntyre, a única vida boa é aquela em que cada um pode decidir o que vida boa significa para si. 9. As contradições insuperáveis são as que escapam a toda conciliação lógica, como o apelo à verdade objetiva para decidir quem tem razão, e introduzir a referência à interpretação já corrompe o quadro geral, pois não há metalinguagem capaz de garantir uma tradução radical, entrando em jogo o princípio de caridade, nem ponto de vista absoluto, neutro e independente dos interesses, sendo necessário um princípio de negociação ou, se não bastar, o conflito, já que até deter os conflitos por um processo constitucional exige frequentemente combater, de modo mais ou menos violento, a ordem ou desordem existente, contradições insuperáveis descritas por Rorty em A filosofia e o espelho da natureza como oposição entre hermenêutica e epistemologia, cabendo perguntar se um mundo em que todas as contradições se reduzissem a quebra-cabeças epistemológicos, no sentido de Kuhn, seria melhor do que o atual e se a filosofia deve colaborar para esse fim. 10. A hermenêutica não é propriamente uma ontologia da revolução, mas não está longe disso, pois a redução das contradições a quebra-cabeças epistemológicos implica uma ontologia parmenidiana de estruturas eternas, ainda que como leis estáveis do devir, em que a única mudança possível concerne ao conhecimento mais ou menos completo da verdade ou ao desenvolvimento de um projeto dado, e a metafísica, como fé na verdade como correspondência criticada por Heidegger desde Ser e tempo, nega todo evento possível, toda interpretação não funcional à correspondência entre intellectus e res e, por fim, a historicidade e a liberdade, e à objeção de que a metafísica contribuiu decisivamente para tantas revoluções, desde o iluminismo francês, permitindo revoltar-se contra o tirano em nome da lei natural e dos direitos humanos naturais, responde-se com o lema evangélico segundo o qual a verdade vos libertará, que relativistas e pragmatistas como Rorty levam realmente a sério, entendendo que a verdade é apenas aquilo que liberta e deve, portanto, ser historicamente eficaz, já que a ideia de direitos humanos ligados à verdadeira natureza humana, usada como instrumento revolucionário contra o direito divino dos monarcas, pode em outras situações reforçar a opressão, como na moral católica que justifica imperativos autoritários e absurdos, como a proibição do preservativo em tempos de aids, em nome de uma suposta lei natural. 11. Falar de ontologia da revolução é arriscado numa época em que o novo realismo dominante da escola Searle-Bush tenta reduzir a ontologia à descrição do que há, como fenomenologia e ontologia do significado cotidiano das palavras dotada de um suplemento apologético de alma, o de uma pretensa realidade, com o risco não só de ser considerado terrorista potencial, por equiparar-se o relativismo à desordem social, mas também de ser expulso da categoria dos filósofos, posição que se justifica pela ideia heideggeriana do ser como evento, Ereignis, ainda uma das alternativas mais razoáveis construídas pela filosofia contra a submissão da teoria e da prática à autoridade frequentemente violenta do que há, sendo a contradição insuperável, em muitos sentidos, o verdadeiro lugar em que o ser acontece e a verdade se põe em obra, vínculo profundo entre verdade, evento do ser e conflito constante no último Heidegger e talvez posto de lado por uma visão pacificada e irênica da hermenêutica em seu esforço de urbanização, cabendo fazer com que a reflexão filosófica sobre a contradição, mesmo inspirada pelo mesmo propósito conciliador, ajude contraditoriamente a recordar a necessidade ontológica do conflito. {{tag>Vattimo filosofia}}