====== 1 Impondo descrições ====== //VATTIMO, Gianni; ZABALA, Santiago. Hermeneutic communism: from Heidegger to Marx. New York: Columbia university press, 2011.// A tarefa do filósofo é formular o problema de maneira suficientemente precisa e expô-lo com o devido cuidado, de modo que ele se preste a uma resolução científica. (John Searle, Freedom and Neurobiology, 2007) 1. A concessão, em 17 de novembro de 2004, da Medalha Nacional de Humanidades por George W. Bush a John Searle, honrado por defender a razão e a objetividade, revela menos sobre a aceitação do prêmio do que sobre o tipo de filosofia endossado por um presidente que acabara de invadir um país contra a vontade da maioria da população mundial e de restringir os direitos civis fundamentais de seus próprios cidadãos, pois o prêmio é perfeitamente adequado a uma posição filosófica que representa a política das descrições como o mais recente desenvolvimento a serviço do poder. 2. A política das descrições não impõe o poder para dominar enquanto filosofia, mas é funcional à continuidade de uma sociedade de domínio que persegue a verdade sob a forma da imposição (violência), da conservação (realismo) e do triunfo (história), sustentando que a sociedade deve orientar-se pela verdade, isto é, pelo paradigma vigente, em favor dos fortes contra os fracos, já que apenas os fortes possuem os instrumentos para conhecê-la, praticá-la e impô-la, de modo que filósofos como Searle, Platão, Hegel ou Tarski, sem pretender que suas filosofias dominem, tornam-se servidores mais ou menos conscientes da classe política dominante, e o decisivo é que a necessidade de domínio frequentemente resulta em pensamento metafísico, sendo a metafísica aspecto e consequência do domínio, e não sua causa. 3. Os paradigmas impostos por legisladores, políticos e classes proprietárias não se sustentam sem o apoio da comunidade intelectual, e se as ciências empíricas ocupam papel central nas estruturas de poder não é por obterem melhores resultados, mas por representarem a máxima realização da essência da metafísica, que consiste em revelar o contexto verdadeiro último de seu objeto, de modo que a busca da verdade objetiva passou a condicionar até setores da cultura cujo progresso não deveria ser medido objetivamente, convertendo, como mostrou Richard Rorty, o cientista newtoniano em modelo de intelectual de quem se exigiam reformas sociais centradas num conhecimento objetivo da humanidade enquanto tal, e assim a busca da verdade universal tornou-se imposição sobre diferenças e identidades individuais. 4. A natureza metafísica da filosofia, como indicou Derrida na esteira de Nietzsche e Heidegger, estruturou o conhecimento em polaridades estabelecidas, como presença e ausência, verdade e erro, mente e matéria, bem e mal, homem e mulher, produzindo uma ordem hierárquica que sempre privilegia o primeiro termo, pois, ao determinar o Ser como presença, a filosofia ocidental tornou-se um conjunto de descrições do estado de coisas presente que privilegia a presença temporal, espacial e unificada, tomando o presente que se apresenta a si mesmo como medida de toda entidade, de modo que, das formas puras platônicas às condições transcendentais kantianas e ao movimento inevitável da história em Marx, o Ser foi sempre considerado objeto imóvel, a-histórico e geométrico, e a filosofia, por sua obsessão metafísica com a verdade, dissolveu-se nas ciências, isto é, na organização global de todos os entes numa estrutura previsível de causas e efeitos. 5. Desde o Iluminismo, quando as ciências empíricas receberam prioridade por seu acesso à Natureza, a filosofia converteu-se em empreendimento científico, a ponto de Quine declarar que a filosofia da ciência basta como filosofia e de Searle e outros pretenderem submetê-la ao caminho seguro da ciência, mas com isso as filosofias analítica e continental recaíram no realismo, isto é, na simples análise e conservação dos fatos, evadindo sua tarefa mais importante, a de sugerir possibilidades alternativas, pois a filosofia não é recepção neutra e contemplativa de objetos, mas prática de uma possibilidade interessada, projetada e ativa, e, ao neutralizar as diferenças, torna-se conservadora e serva do poder político mais forte, hoje as democracias de estilo norte-americano neoliberalmente enquadradas, como já percebia Heidegger no início dos anos 1930 ao notar que a essência liberal e o ideal de objetividade da ciência são não apenas compatíveis, mas indispensáveis à orientação político-nacional. 6. A crítica ao vínculo entre os objetivos objetivistas das ciências e o poder político vigente, ou seja, à fundação da política na verdade, não começou com Heidegger, Kuhn e Derrida, pois já Spengler em A decadência do Ocidente, Popper em A sociedade aberta e seus inimigos e Arendt em Origens do totalitarismo alertavam contra a racionalização do mundo, e Adorno e Horkheimer, na Dialética do esclarecimento, declararam explicitamente que o esclarecimento é totalitário, enraizando nele as guerras mundiais, sendo o traço decisivo desses alarmes não a acusação de que o objetivismo seria errôneo, mas de que é injusto, um ataque assassino à ética, à liberdade e à democracia, já que, segundo Marcuse, a subordinação total da razão à realidade metafísica prepara o caminho para a ideologia racista, e não por acaso esses textos surgiram junto com os estudos de Lévi-Strauss, quando o encontro com outras culturas iniciou a descentralização teórica da civilização europeia. 7. Os alarmes de Popper, Adorno e Benjamin contra o objetivismo científico e o realismo dirigiam-se também contra futuras inclinações metafísicas e revelam o sentido político autoritário do realismo em que recaíram filósofos como Searle, enquanto Heidegger, primeiro a exigir o retorno explícito à natureza ontológica da filosofia, não só criticava as imposições opressivas da busca da verdade como indicava o que a metafísica deixou de fora, o Ser esquecido, o que não exige uma busca científica mais profunda do objeto Ser, mas a rememoração da história oprimida da metafísica, as margens da filosofia de Derrida e a tradição dos oprimidos de Benjamin, onde se encontram as vítimas da política das descrições e talvez sua emancipação, não sendo acidental que Popper, Benjamin e Adorno tenham escrito em exílio, e se hoje é possível expor a história e a política dos fracos não é por ter-se encontrado a representação adequada da verdade, mas porque, após a desconstrução da metafísica por Heidegger e Derrida, já não é possível impor a verdade sem violência. 8. O exemplo paradigmático da política das descrições encontra-se tanto nos séculos de colonialismo opressivo quanto no fracasso recente do sistema capitalista norte-americano em escala mundial, e seus três traços teóricos essenciais são a violência da verdade, a natureza conservadora do realismo e a história do vencedor. {{tag>Vattimo política impostura Searle}}