====== 3 O fim da filosofia ====== //Addio alla verità. 2009// **Pensamentos sobre a ética** 1. Quem busca a ética nutre a esperança comum de que ela forneça princípios vinculantes, assumindo a pergunta espontaneamente a forma do que se deve fazer e girando em torno da palavra dever, que pareceria vazia sem um princípio do qual a resposta decorresse como consequência lógica de premissas, de modo que descumpri-lo equivaleria a rebelar-se contra a razão prática, distinção pouco nítida em relação à teórica, e, do ponto de vista intelectualista dominante, a recusa de agir racionalmente só se explicaria pelas paixões e interesses, o concupiscível que a escolástica associava à parte menos nobre do ser humano, o corpo, perecível, em oposição à alma, pertencente ao reino intemporal da razão por ter essência semelhante à das ideias eternas. 2. Tais premissas raramente aparecem hoje na literatura filosófica, porque o raciocínio baseado em princípios, fundamentos últimos estabelecidos e intuídos dos quais se deduzem implicações lógicas e práticas, esgotou-se como fato evidente e não por princípio, e a crise da ética, tida por componente principal do rebaixamento da moralidade pública e privada, é o descrédito desse raciocínio fundado em bases de validade universal, já que universalidade e ultimidade dos princípios coincidem, pois um fundamento último, sem condições ulteriores, é incondicionado e só pode apresentar-se como verdade absoluta irrecusável, pretensão que desmorona quando, nos séculos XIX e XX, os primeiros princípios passam a ser vistos como condicionados pelos mecanismos ideológicos da falsa consciência, pela vontade de potência ou pela repressão inconsciente, descrédito que não é refutação probatória, mas mudança geral de tendência, contingente e cheia de exceções, ligada ao pluralismo cultural acentuado pela descolonização, que revelou a parcialidade do que a filosofia europeia tomou por essência da humanitas, à crítica marxista da ideologia, à descoberta freudiana do inconsciente e à desmistificação nietzschiana da moral, da metafísica e do próprio ideal de verdade, escolas da suspeita que acompanharam profundas transformações sociais, de modo que sua validade só pode ser defendida aludindo a essas circunstâncias e mostrando que uma filosofia sem primeiros princípios, nascida do acerto de contas com a falta de fundamento do pensamento, é a resposta mais adequada e verossímil à época do pluralismo moderno tardio. 3. Corresponder à época é também uma forma de compromisso responsável, de modo que a aura perdida do dever permanece como vestígio, permitindo falar de racionalidade e de ética como compromisso de derivar consequências lógicas e imperativos práticos de certos princípios entendidos apenas como pontos de partida, o que repete o esquema da ética metafísica, mas retomado e distorcido segundo a lógica que Heidegger chamou Verwindung, que repete a lógica metafísica alterando radicalmente seu sentido. 4. A ética metafísica sucumbe fatalmente à lei de Hume, que proíbe passar sem justificação explícita da descrição de como as coisas são à formulação de um princípio moral, como quando a ordem de ser homem não manda ser o que naturalmente se é, mas recomenda virtudes que supostamente definiriam a masculinidade essencial, ao passo que uma ética responsável perante a época e não fundada em primeiros princípios é praticamente imune a essa lei, porque o como as coisas são a que procura corresponder não existe objetivamente, sendo o múltiplo conjunto da herança cultural, representável apenas por um ato responsável de interpretação que não produz imperativos incontroversos. 5. A filosofia só pode ainda falar racionalmente de ética, isto é, de modo responsável perante a época, a herança histórica e a proveniência, assumindo como ponto de partida explícito, e não como fundamento, a condição de falta de fundamento em que se encontra lançada, cujos traços dominantes são justamente a dissolução dos primeiros princípios e a irrupção de uma pluralidade não unificável, dissolução que, mais do que mero fato, se torna, por ser o cenário em que os fundamentos chegaram ao fim, o único fundamento, muito sui generis e verwunden, disponível para discutir ética, pois a metafísica não deixou órfãos absolutos, já que sua dissolução, dramatizada por Nietzsche na morte de Deus, é um processo dotado de lógica própria do qual se podem extrair elementos de reconstrução, o niilismo, que não é apenas dissolução de todos os princípios e valores, mas também niilismo ativo, possibilidade de iniciar outra história. 6. O primeiro traço de uma ética extraída do reconhecimento interpretativo de pertencer a uma tradição caracterizada pela dissolução dos princípios é um passo atrás, um distanciamento das escolhas concretas que a situação parece ditar a curto prazo, diferença decisiva entre uma ética pós-metafísica e o puro relativismo, pois a evaporação da credibilidade dos primeiros princípios não se traduz na assunção da condição histórica e da pertença a uma comunidade como único absoluto, já que, segundo Nietzsche, quando o mundo verdadeiro se torna fábula, também a fábula é destruída e não pode ser absolutizada. 7. A situação a que antes de tudo se pertence e perante a qual se é responsável nas escolhas éticas é a da dissolução dos princípios, o niilismo, de modo que tomar como referências últimas vínculos mais específicos, como raça, etnia, família ou classe social, limita a perspectiva desde o início e repete o jogo metafísico dos primeiros princípios, absolutizando ideologicamente uma fábula particular como mundo verdadeiro, repetição contra a qual não se pode invocar nenhum imperativo absoluto, mas apenas propor uma ampliação de horizontes, convidando quem aceita a proveniência como referência ética a não desviar o olhar da multiplicidade de coisas que ela compreende. 8. Tampouco se trata de levar tudo em conta, como se fosse possível inventariar completamente a proveniência perante a qual se é responsável, pois caracterizá-la como dissolução dos princípios nunca leva à definição de um novo princípio mais válido, fornecendo apenas a base de uma postura crítica diante de tudo o que pretende apresentar-se como princípio último e universal, postura que tampouco se pensa universalmente válida, mas adequada a uma condição determinada, a época em que, segundo Heidegger, a metafísica termina sem desaparecer e em que, segundo Nietzsche, a notícia da morte de Deus ainda não chegou aos ouvidos de muitos e suas consequências levarão séculos para desdobrar-se. 9. A tradição filosófica moderna oferece apoios significativos a essa tese, além da lei de Hume, sobretudo o formalismo ético kantiano, com seu imperativo de adotar apenas máximas que possam valer como normas universais, em que a universalidade não é atribuída positivamente a conteúdos fixos, mas funciona como advertência para não tomar como princípios últimos conteúdos específicos que parecem cogentes em circunstâncias particulares, como inclinações e interesses. 10. Retorna assim a pergunta inicial sobre o que se pode extrair, em termos de máximas de ação e hierarquias de valores, da assunção de responsabilidade perante a dissolução dos princípios. 11. O risco do passo atrás é dar origem a uma metafísica relativista, pois só de um ponto de vista universal solidamente situado se poderia contemplar a multiplicidade como multiplicidade, sendo o relativismo a rigidificação metafísica, autocontraditória e impraticável, da finitude, de modo que apenas Deus poderia ser um relativista autêntico, e o passo atrás só tem sentido porque é a própria situação, interpretada sem fechamento metafísico apressado e em seu caráter compósito e aberto, que exige distanciar-se das alternativas falsamente últimas que apresenta. 12. Só elaborando esse complicado nó de conceitos uma filosofia responsável pode tratar hoje da ética, e a objeção de que tal postura seria remota e abstrata em relação à experiência cotidiana responde-se lembrando que a sensação de estranheza diante das alternativas concretas em que se está lançado já é traço constitutivo dessa experiência, merecendo ser reconhecida como mal-estar da civilização e não descartada como mero fato psicológico individual. 13. Está em jogo a assunção da dissolução dos princípios como ponto de partida para uma ética não metafísica que não pretenda, nem sub-repticiamente, ser aplicação prática de uma certeza teórica sobre fundamentos últimos, e até o relativismo que converte o passo atrás em simples suspensão do assentimento e justificação de um desengajamento intelectual blasé, frequente na filosofia atual de origem fenomenológica e semelhante à epoché husserliana, recai na metafísica dos princípios por pretender situar-se num ponto de vista universal e completamente estável. 14. Corresponder à dissolução dos princípios exige uma ética explicitamente construída em torno da finitude, entendida nem como compulsão a saltar no vazio, à maneira do pensamento religioso do século XX para o qual o reconhecimento da finitude prepara o salto da fé, nem como assunção definitiva das alternativas concretas da situação, mas como fidelidade à descoberta da situação sempre insuperavelmente finita da própria proveniência, sem esquecer suas implicações pluralistas, como diz o provérbio italiano segundo o qual na igreja se está com os santos e na taverna com os companheiros, não havendo poleiro estável de visão abrangente, já que até o discurso filosófico é apenas outra condição, a do filósofo, ensaísta ou crítico, com seus compromissos, e nunca a do Homem Universal, consciência rara mesmo na filosofia desencantada atual, voltada à fenomenologia ou às ciências cognitivas. 15. Dessa consciência decorrem antes de tudo máximas de reserva crítica, como a de não crer em quem anuncia o Messias, presente sobretudo como ideal crítico negativo, o passo atrás e a colaboração no trabalho já em curso do niilismo, removendo em todos os campos, sobretudo na política, a floresta de absolutos metafísicos antigos e invasores, como as leis do mercado, e depois uma atenção sempre renovada aos conteúdos da herança e da proveniência, que inclui a voz do outro contemporâneo perante quem se é responsável, escuta que implica escolhas filológicas, como na edição crítica de um texto, sobre o que incluir ou expurgar do núcleo de ideias, valores e princípios de que se é herdeiro, tarefa não exclusiva dos intelectuais profissionais, já que a mídia difunde por toda parte a cultura ocidental e de outras culturas, de modo que, em termos nietzschianos, quem não se torna hoje super-homem, isto é, capaz de interpretar por si, está destinado a perecer como indivíduo livre, e a ilusão de um saber próprio do homem natural acessível ao bom senso já quase não pode ser sustentada de boa-fé, embora as Igrejas se apeguem a uma metafísica natural acessível ao intelecto sadio sob a orientação autoritária de papas e padres, talvez por ceticismo quanto à possibilidade de todos se tornarem intérpretes, ceticismo que é também o principal obstáculo a essa possibilidade. 16. A escuta da herança não leva apenas à desvalorização de todos os valores, mas também à retomada e continuação de certos conteúdos, pois muitas regras do jogo social, que a metafísica ou o autoritarismo eclesiástico apresentaram como normas naturais, não serão suspensas numa ética da finitude, podendo valer, vistas como herança cultural e não como naturezas e essências, com outra cogência, como normas racionais reconhecidas por um discurso que reconstrói sua autoconstituição e libertadas da violência dos princípios últimos e de seus guardiães, decidindo-se o que vale ou não, sob a orientação do niilismo, pelo critério da redução da violência e em nome de uma racionalidade entendida como diálogo entre posições finitas que se reconhecem como tais e não se sentem tentadas a sobrepor-se às outras com a legitimidade de um primeiro princípio. 17. O sentido geral dessa ética da finitude é a exclusão da violência que se julga legítima e o fim de todo silenciamento autoritário das perguntas do interlocutor em nome de primeiros princípios, herdando do kantismo a fórmula do imperativo categórico como respeito ao outro, tratando a humanidade sempre como fim e nunca como mero meio, mas despojada dos resíduos dogmáticos ainda presentes em Habermas e Apel, pois o respeito ao outro não se funda na premissa de que ele porta uma razão humana igual em todos, premissa da qual decorre a implicação pedagógico-autoritária de ouvir as razões do outro apenas se não tiverem sido manipuladas, sendo antes reconhecimento da finitude de cada um, que exclui o apagamento definitivo da opacidade que cada qual traz em si, respeito indefinido e sem razões positivas, já que justificativas como a igualdade essencial, a descendência de Adão ou a dependência recíproca revelam, ao serem enunciadas, sua vagueza e insustentabilidade, reduzindo-se a preconceito familiar, egoísmo especista ou simples egoísmo. 18. Reconhecendo, ao assumir o destino niilista da época, que não se dispõe de nenhum fundamento último, desaparece toda possível legitimação da prevaricação e da violência contra os outros, que pode continuar sendo tentação como em qualquer perspectiva ética, mas aqui despojada de qualquer aparência de legitimidade, ao contrário do que ocorre nas éticas essencialistas, mesmo disfarçadas, incluída a ética comunicativa habermasiana. 19. Sendo a orientação pela dissolução dos princípios e pela redução da violência não demonstrada, mas assumida interpretativamente com argumentos sempre retóricos e verossímeis, essa ética da finitude não se reduz a mera exortação, pois até Aristóteles reconhecia que a cogência da demonstração matemática difere da persuasão dos discursos éticos, e, se a lei de Hume vale em algum sentido, a ética não pode falar em termos demonstrativos, sendo essa lei a própria condição da ética, que só pode comandar, exortar e julgar se aquilo que deve ser feito não é um fato. {{tag>Vattimo filosofia Hegel dialética}}