====== 2 Ontologia do declínio ====== //Al di là del soggetto: Nietzsche, Heidegger e l’ermeneutica (Milan: Feltrinelli, 1981)// **Rumo a uma Ontologia do Declínio** 1. O nome Ocidente, Abendland, designa não apenas o lugar geográfico de nossa civilização, mas a denomina ontologicamente como terra do ocaso do ser, e só é possível falar de uma ontologia do declínio, cujos primeiros elementos se preparam nos textos de Heidegger, se a tese for reformulada como "o Ocidente é a terra do ocaso e, portanto, do ser", assim como "a metafísica como história do ser" deve ser lida no sentido de que fora da metafísica não há outra história do ser, de modo que o Ocidente não é a terra onde o ser se põe enquanto alhures brilha em pleno meio-dia, mas a terra do ser precisamente por ser, inseparavelmente, a terra de seu ocaso. 2. Essa reformulação se distancia das interpretações correntes de Heidegger, que privilegiam ora o termo ser, lendo-o como pensador que prepara um retorno do ser ou ao ser numa perspectiva religiosa ou ontoteológica, ora o termo ocaso, lendo-o como convite a constatar que a metafísica acabou e com ela toda história do ser, sendo o próprio embate entre os dois campos sinal de que ambos os elementos estão problematicamente ligados no texto heideggeriano, e é justamente essa conexão que explica a suposta ambiguidade de Heidegger diante da história da metafísica, cuja pietas não equivale à justificação dialética do real como racional, mas ao reconhecimento de que a metafísica é destino do ser também no sentido de que ao ser convém o ocaso. 3. Disso decorre que no texto heideggeriano se encontram as premissas de uma concepção positiva do ser, e não apenas a descrição de uma condição de ausência que só se definiria em relação nostálgica, expectante ou liquidatória com a presença do ser e seus atributos tradicionalmente fortes, atributos fortes em sentido mais que metafórico, dada a estreita relação entre a enérgeia aristotélica, a enárgeia como evidência luminosa do que se impõe como verdadeiro, a energia e a força real, de modo que a metafísica como tentativa de dominar o real pela força, descrita por Nietzsche, revela sua própria essência já nas primeiras páginas da Metafísica de Aristóteles, onde o saber se define pela posse dos primeiros princípios. 4. Os intérpretes e seguidores de Heidegger não desenvolveram sequer os elementos básicos de uma ontologia do declínio, salvo talvez a hermenêutica de Gadamer com a tese de que o ser que pode ser compreendido é linguagem, embora mesmo aí a relação linguagem-ser seja considerada do lado da linguagem e não de suas consequências ontológicas, lacuna que se explica por continuar a pensar-se a meditação heideggeriana sobre o ser em termos de fundamento, apesar da advertência de deixar o ser como fundamento, ainda que em Ser e tempo haja uma tentativa de fundação em sentido amplo, desde o início, porém, orientada para uma condição histórica, de modo que a condição de possibilidade kantiana se revela inescapavelmente ligada à condição entendida como estado de coisas. 5. Em Ser e tempo não se buscam as condições transcendentais de possibilidade da experiência dos entes, mas se percebem meditativamente as condições factuais sob as quais apenas essa experiência pode dar-se, o que, sem abandonar totalmente o plano transcendental, contraria os retornos kantianos de Apel e Habermas e confere ao fundamento uma fisionomia peculiar, pois a passagem imediata da questão do ser à analítica da existência impede que qualquer resposta se configure como fundação, seja como atribuição de um Grund, seja como posição a partir da qual o pensamento dispusesse do ente a ser fundado, de modo que o ser se vislumbra como fraco e despotencializado, e o sentido do ser aparece como direção na qual Dasein e ser, à semelhança do homem pós-copernicano que rola do centro para um X, se encontram despossuídos e descentrados, num movimento de despossessão e desfundamento. 6. Mesmo contra a letra dos textos heideggerianos, nos quais niilismo significa o achatamento do ser no ente e sua redução a valor posto pelo sujeito, a pesquisa iniciada em Ser e tempo não conduz à superação do niilismo, mas à experiência do niilismo como único caminho possível da ontologia, porque a força e a função fundacionais que se esperava recuperar pertencem elas mesmas ao horizonte niilista, sendo o ser como Grund apenas um momento anterior no desenvolvimento linear que leva ao ser como valor, de modo que a conexão entre fundação e desfundamento não permite alcançar uma posição forte, mas apenas assumir o niilismo como o movimento pelo qual o Dasein rola do centro para o X. 7. O nexo fundação-desfundamento atravessa todo Ser e tempo e emerge em pontos particulares, como a inclusão da situação emotiva, a Befindlichkeit, entre os existenciais que substituem os transcendentais kantianos, ou a descrição do círculo hermenêutico, em que a verdade se liga à interpretação como elaboração da pré-compreensão na qual o ser-aí está sempre já lançado, tornando-se especialmente visível na função constitutiva que o ser-para-a-morte exerce sobre a historicidade do ser-aí. 8. O ser-para-a-morte, tema que mais resistiu à elaboração teórica, é exemplar do modo como Ser e tempo, partindo da busca de um fundamento ainda metafísico, termina em resultados niilistas, pois a questão eminentemente metafísica da totalidade das estruturas do Dasein leva a perceber que o ser-aí se constitui como totalidade e se funda apenas na medida em que antecipa a própria morte, a qual, como possibilidade permanente da impossibilidade de todas as outras possibilidades, impede que estas se cristalizem numa possibilidade-realidade exclusiva e permite que se constituam como tecido-texto, de modo que o ser-aí está verdadeiramente aí, como totalidade histórica contínua, até mesmo na existência inautêntica do "morre-se". 9. O ser-aí existe e serve de lugar para a iluminação da verdade do ser somente enquanto se constitui como possibilidade de não-ser-mais-aí, e embora essa relação com a morte não deva ser lida em sentido puramente ôntico ou biológico, a distinção permanece ambígua, já que o ser-aí é histórico não só como discurso contínuo dotado de sentidos possíveis, mas também por nascer e morrer biologicamente, relacionar-se com gerações passadas e futuras e pertencer a uma época pelo estar-lançado que qualifica o projeto, e esse duplo sentido da historicidade manifesta de modo explícito, embora problemático, o nexo fundação-desfundamento, que constitui talvez o próprio sentido de Ser e tempo. 10. O ser de que fala Heidegger já não pode ser pensado em termos metafísicos, nem mesmo como oculto ou ausente, sendo falso supor que sua ontologia seja uma teoria do ser como força e luminosidade obscurecida que prepara o retorno do ser fundante, pois o niilismo, no sentido desfundante vivido também por Nietzsche, é um fio presente mas não dominante na tradição metafísica, mais inclinada à lógica do Grund, da substância e do valor, e reconhecê-lo implica excluir tanto as leituras de teologia negativa que veem em Heidegger o pensador do tempo indigente à espera da presença forte do ser quanto as que entendem o fim da metafísica como liberação para uma experiência organizada independentemente do ser. 11. O resultado do pensamento heideggeriano não é constatar que o fundamento garantido do ser metafísico já não ou ainda não pode ser dado, devendo o pensamento lamentá-lo ou preparar seu retorno, nem constatar que tal fundamento se tornou finalmente vão e que cabe construir uma humanidade não ontológica dedicada apenas aos entes e às técnicas de organização e planejamento, posição que, carecendo de crítica à concepção forte do ser, acaba atribuindo aos entes a mesma autoridade peremptória antes conferida ao ser metafísico. 12. Como exercício terapêutico, é preciso repensar continuamente o nexo fundação-desfundamento anunciado em Ser e tempo e presente em toda a obra posterior, que alude a uma relação não transcendental e metafisicamente não forte entre fato e direito e revela uma concepção inteiramente nova de fundamento, pois a condição de possibilidade da experiência se mostra também condição histórico-finita do Dasein como projeto lançado, condicionado por pré-compreensões enraizadas na situação emotiva, de modo que o fundamento não é alcançado como ponto fixo, mas apenas se delineia, podendo ser chamado, com um oxímoro, fundamento hermenêutico, que carrega o ser de uma conotação alheia à tradição metafísica e corresponde à ontologia do declínio. 13. A ideia de fundamento hermenêutico já se encontra em Nietzsche, não por acaso, já que ambos os pensadores se movem no horizonte do niilismo, como mostra o aforismo 82 de O andarilho e sua sombra, intitulado "Saudações afetadas". 14. Para libertar-se de um partido ou de uma religião não é necessário refutá-los, ideal demasiado elevado, mas apenas compreender com clareza quais ganchos prendiam a eles e agora se soltaram e quais motivações impeliram numa ou noutra direção, pois assim como não se tomaram armas por eles para conhecê-los, também não se deve fingi-lo ao despedir-se deles. 15. O sentido do aforismo só se apreende inteiramente em relação ao anúncio da morte de Deus, que é ao mesmo tempo a verdade que funda o pensamento do desfundamento e o reconhecimento de que essa verdade só pode ser uma constatação de fato, sem que isso equivalha a uma profissão de fé historicista, que permaneceria no horizonte metafísico de um ser que, presente alhures ou simplesmente ausente, desvaloriza tudo o que não é fundado em sentido forte, pois radicalizar a historicidade do projeto lançado põe em questão as pretensões de um fundamento historicista e reabre o problema das épocas no plano do destino do ser, o que ocorre com a Kehre dos anos trinta, cujo sentido é que pensar significa fundar, mas que fundar só pode ter sentido hermenêutico, como mostra o recurso ao instrumento arbitrário da etimologia e o fato de que o "quem lança" do projeto lançado não é a vida biológica, a sociedade, a língua ou a cultura, mas o próprio ser, cuja paradoxal positividade consiste em não ser nenhum desses horizontes supostamente fundantes e em colocá-los em oscilação indefinida, remetendo sempre a conexões ulteriores. 16. Esse remontar hermenêutico ao infinito é o sentido do ser buscado em Ser e tempo, inteiramente diverso da noção de ser transmitida pela metafísica, e antes de Heidegger e Nietzsche o único exemplo decisivo de fundamento hermenêutico na história do pensamento é a dedução kantiana dos juízos de gosto na Crítica da faculdade de julgar, onde a universalidade peculiar do juízo sobre o belo remete a uma copertença problemática e sempre por acontecer entre sujeito e humanidade, tão problemática quanto a humanidade que partilha o sensus communis. 17. A meditação heideggeriana sobre a essência da técnica e sobre o Ge-stell constitui o documento mais importante para pensar o fundamento hermenêutico de modo articulado, pois a tese de Identidade e diferença segundo a qual no Ge-stell se vislumbra um primeiro e opressivo lampejo do Ereignis equivale, em estilo e conteúdo, ao anúncio nietzschiano da morte de Deus, como anúncio de um evento fundante-desfundante, fundante porque determina e afina as condições do vir dos entes ao ser, e desfundante porque essa condição se define justamente como privada de qualquer fundamento. 18. O Ge-stell, a imposição que designa a técnica moderna como totalidade do pôr técnico que determina o horizonte do Dasein, é ao mesmo tempo condição de possibilidade pela qual os entes vêm ao ser nesta época e lampejo do Er-eignis, o evento em que cada ente é apropriado e aparece como o que é enquanto implicado num movimento de transapropriação que concerne antes de tudo ao homem e ao ser, porque o Ge-stell não é apenas planejamento e redução de tudo ao Grund, mas também provocação contínua da natureza e dos homens a tarefas sempre novas, ciranda vertiginosa e abalo em que se perdem as determinações metafísicas de sujeito e objeto, de liberdade espiritual e necessidade mecânica, as coisas perdem sua rigidez e o homem se torna também objeto manipulável, de modo que a manipulabilidade universal suprime sobretudo a estabilidade do ser, e o salto que abandona o ser como Grund não encontra base onde deter-se, mas apenas o Ge-stell como lugar em que o caráter eventual do ser se deixa experimentar como horizonte de oscilação, sendo o ser não um dos polos da oscilação, mas a própria oscilação, e o Ge-stell, embora máximo perigo por consumar a cristalização metafísica da relação sujeito-objeto, constitui a própria possibilidade de experimentar o ser para além de todas as categorias metafísicas, a começar pela estabilidade. 19. A experiência do Ge-stell configura-se como exemplo de fundamento hermenêutico porque nela reaparecem os dois elementos que constituem o "Deus está morto" nietzschiano. 20. O Ge-stell não é um conceito, mas uma constelação de pertencimento, um evento que determina todas as experiências possíveis do mundo, e funciona como fundamento porque, como no anúncio da morte de Deus, recebe-se seu anúncio. 21. O pertencimento ao Ge-stell funciona como fundamento apenas na medida em que dá acesso não a um Grund absoluto e inabalável, mas a um horizonte de oscilação no qual todo pertencimento e todo dar-se de algo como algo está ligado a um movimento de transapropriação. 22. O caráter hermenêutico do fundamento parece ligar-se sobretudo ao primeiro aspecto, ao reconhecimento de que as condições de possibilidade da experiência do mundo são uma condição histórico-finita e uma pré-compreensão historicamente situada, mas, isolado do segundo, esse fundamento seria apenas uma distorção do transcendentalismo kantiano em historicismo, sendo o segundo aspecto, enésima metamorfose do círculo hermenêutico de Ser e tempo, o que garante seu caráter genuinamente hermenêutico. 23. O acesso ao Er-eignis como horizonte de oscilação não é possibilitado pela técnica, mas pela escuta de seu Wesen, entendido como vigência e modo de doar-se, o que exige o passo atrás que confronta a história da metafísica em sua totalidade sem representá-la dialeticamente, lacuna que se preenche com O princípio de razão, onde o salto do Grund ao Abgrund de nossa condição mortal ocorre na medida em que se confia na vinculação libertadora à herança do pensamento rememorando-a, de modo que responder ao apelo do Ge-stell implica uma relação libertadora com a Überlieferung, jogo de transmissão de mensagens que constitui a única unidade possível da história do ser, e mesmo a a-historicidade do mundo técnico, que reduz tudo ao Grund e perde o Boden, tem valor positivo ao destituir a história de sua auctoritas, tornando-a não explicação-justificação dialética do presente nem desvalorização relativista, mas lugar de uma cogência limitada, de uma universalidade problemática como a do juízo de gosto kantiano. 24. A meditação heideggeriana sobre o Ge-stell desponta assim como primeira indicação, ainda embrionária, de uma ontologia do declínio, articulada em três linhas que a sintetizam. 25. O Ge-stell deixa lampejar o Er-eignis como lugar de oscilação e dispõe assim a recuperar o ser não em seus traços metafísicos, mas em sua constituição fraca, oscilante ao infinito. 26. Aceder ao ser nesse sentido fraco é o único fundamento que o pensamento pode alcançar, fundamento hermenêutico tanto por considerar o horizonte em que os entes vêm ao ser, antigo transcendental kantiano, como projeto lançado histórico-finito, quanto por desdobrar-se a oscilação como suspensão da cogência do presente em relação à tradição, num remontar que não se detém em nenhuma suposta origem. 27. O remontar ao infinito e a oscilação são acessíveis por um salto que é ao mesmo tempo salto no Abgrund da constituição mortal do ser-aí, de modo que o diálogo libertador com a Überlieferung é o verdadeiro ato pelo qual o ser-aí decide por sua própria morte, a passagem à autenticidade de Ser e tempo, pois como mortais se pode entrar e despedir-se do jogo de transmissão de mensagens que as gerações lançam umas às outras e que oferece a única imagem disponível do ser. 28. Esses três momentos compõem provisoriamente a ontologia do declínio e são essenciais à herança heideggeriana porque indicam uma teoria positiva do ser fraco em relação ao ser forte da metafísica, como remontar interminável em relação ao Grund, o fundamento hermenêutico como modo de pensar correspondente a essa caracterização não metafísica do ser e a conexão peculiar desse modo não metafísico do Wesen do ser com a mortalidade constitutiva do ser-aí. 29. Como Ser e tempo partira da necessidade de uma noção de ser capaz de pensar não só os objetos da ciência em sua eternidade idealizada, mas também a existência humana historicamente estendida entre nascimento e morte, é precisamente uma ontologia do declínio que corresponde ao plano de 1927, resumindo-se o pensamento heideggeriano na substituição do ser como eternidade, estabilidade e força pelo ser como vida, maturação, nascimento e morte, de modo que o que é não é o que permanece, mas o que, em sentido eminente, vem a ser, nasce e morre, e a assunção desse niilismo peculiar é a verdadeira realização do programa indicado pelo título Ser e tempo. {{tag>Vattimo declínio ontologia}}