====== Dasein ====== //VATTIMO, Gianni. Introduzione a Heidegger. 20. ed ed. Roma [Rom] Bari: Laterza, 2013.// 1. A análise preparatória do ser do homem que abre Ser e tempo deve tomá-lo em sua acepção mais geral e abrangente, para evitar que um aspecto se apresente sub-repticiamente como essencial, como o conhecimento, sem ter sido previamente problematizado, escrúpulo de imparcialidade herdado da fenomenologia que conduz a partir da cotidianidade ou medianidade, isto é, do modo de dar-se do homem ao mesmo tempo mais comum e mais geral, a qual não privilegia uma estrutura em detrimento de outras, mas designa o conjunto inicialmente confuso e indeterminado dos modos de ser reais ou possíveis do homem, como uma espécie de média estatística das maneiras pelas quais os indivíduos se determinam no mundo. 2. A decisão de partir da medianidade já implica certa ideia do ser do homem, que não é um suposto do qual a análise deveria libertar-se, pois toda compreensão contém essencialmente uma pré-compreensão, um horizonte preliminar aberto e acessível que, longe de limitar sua liberdade, a torna possível, devendo os supostos ser assumidos explicitamente e ter suas implicações esclarecidas, e o suposto aqui implicado consiste em reconhecer que o ser do homem se caracteriza por encontrar-se diante de um complexo de possibilidades nem todas necessariamente realizadas, razão pela qual o problema da análise é não isolar uma delas em detrimento das outras, já que o homem se relaciona com seu ser como com sua possibilidade mais própria, ideia do homem como poder-ser que guia substancialmente todo o desenvolvimento de Ser e tempo. 3. O poder-ser é o próprio sentido do conceito de existência, pois descobrir que o homem é o ente que só é enquanto pode ser, relacionando-se com seu ser como com sua possibilidade própria, significa descobrir que sua natureza ou essência é existir, mas essas noções centrais da filosofia mostram-se carregadas de equívocos, já que, se a natureza de um ente designa tradicionalmente o conjunto de caracteres constitutivos sem os quais ele não é o que é, dizer que a natureza do homem é poder-ser equivale a dizer que ela consiste em não ter natureza nem essência, e, se existente costuma significar algo real e simplesmente presente, o homem, cujo modo de ser é a possibilidade e não a realidade, não existe no sentido da Vorhandenheit nem como algo dado, devendo existência ser entendida, no seu caso, no sentido etimológico de exsistere, estar fora, ultrapassar a realidade simplesmente presente em direção à possibilidade, sentido reservado apenas ao homem, enquanto a existência da ontologia tradicional, inaplicável a ele, é a simples presença. 4. Os caracteres revelados pela análise do ser do homem não podem ser entendidos como propriedades que determinam sua realidade, mas apenas como maneiras possíveis de ser, de modo que, chamando-se categorias, com a tradição, os modos mais gerais em que se determina o ser das coisas simplesmente presentes, os modos possíveis de ser do homem trazidos à luz pela analítica existencial chamam-se existenciais. 5. A diferença radical entre o modo de ser do homem e o das coisas é apenas o ponto de partida, no qual os filósofos sempre se detiveram, caracterizando negativamente o ser do homem como o não objeto, ao passo que importa elaborar uma definição positiva da existência e desenvolver até o fim as implicações desses primeiros resultados, desenvolvimento no qual a noção de simples presença se revela não só insuficiente para descrever o modo de ser próprio do homem, mas também inadequada para definir o ser das coisas diferentes dele. 6. Para além do primeiro conceito formal de existência como poder-ser, encontra-se a noção de ser-no-mundo, pois o relacionar-se do homem com possibilidades efetua-se não num colóquio abstrato consigo mesmo, mas como existir concreto num mundo de coisas e de outras pessoas, apresentando-se o modo de ser médio e cotidiano antes de tudo como ser-no-mundo, o que o termo Dasein, ser ou estar aí, exprime bem ao indicar que o ultrapassamento em direção à possibilidade é sempre ultrapassamento de algo, situado, aqui, de modo que existência, Dasein e ser-no-mundo são sinônimos que designam o homem situado dinamicamente, no modo do poder-ser ou do projeto, razão pela qual o homem pode ser chamado simplesmente Dasein, no sentido de existência ou transcendência situada no mundo, sentido a ser ulteriormente precisado e aprofundado. 7. Definindo-se o Dasein como ser-no-mundo, é preciso determinar com mais precisão a noção de mundo, e só depois de desembaraçado o campo dos equívocos nascidos de uma elaboração imprecisa desse conceito pode-se abordar uma determinação positiva das estruturas existenciais do Dasein. {{tag>Vattimo Dasein}}