====== Thoreau ====== ~~NOCACHE~~ Henry David Thoreau (1817-1862) VIDE: [[cavell:walden-sentencas|Sentenças]]; [[cavell:walden-palavras|Palavras]] //CAVELL, Stanley. The senses of Walden. Expanded edition ed. Chicago: the University of Chicago press, 1992.// Walden surgiu e me atraiu através de uma sucessão de revelações. Foi escrito num momento, por assim dizer, pré-filosófico de sua cultura, um momento ainda primitivo no que diz respeito à sofisticação ou profissionalização da filosofia, quando a filosofia, a literatura e a teologia (assim como a política e a economia) ainda não se isolavam umas das outras, mas quando essas separações já podiam ser sentidas como iminentes, para o bem ou para o mal. Esse momento pré-filosófico, medido no tempo americano, ocorreu antes que as tradições filosóficas alemã e inglesa começassem a se afastar uma da outra, e eu esperava que, se conseguisse mostrar Walden atravessando meu próprio campo filosófico, pudesse, assim, reencenar uma antiga troca entre essas tradições. (Presumo a rima de alguns dos conceitos que enfatizo — por exemplo, os do estranho, do professor, do cotidiano, do amanhecer, do clarear e da resolução — com conceitos em jogo em Nietzsche e em Heidegger.) Perguntaram-me, a respeito da minha abordagem da dissociação entre a escrita e a fala, que relação proponho entre o que disse e o que está implícito na ideia de literatura como écriture, tal como é abordada nos escritos de Jacques Derrida e Levi-Strauss. Por um tempo, pensei que deveria dizer algo sobre isso neste livro, mas finalmente concluí que a tentativa seria equivocada neste contexto, por várias razões: (1) O que eu tinha a dizer sobre a declaração de Walden a respeito da escrita como tal foi formulado antes de eu conhecer as visões pertinentes desses autores; assim, pareceu-me que seria irrelevante ou presunçoso envolver-me em uma disputa filosófica sobre uma questão que Walden apenas ilustraria, e não inspiraria. (2) Ainda não conheço nem compreendo as visões pertinentes desses autores suficientemente bem para contestá-las ou concordar com elas. Se, por exemplo, elas sugerem que a palavra escrita (em oposição à falada) é retrógrada como veículo de expressão cultural (em oposição a culta), então não concordo, e certamente o autor de Walden também não concorda. Ambas as correntes de expressão haviam se tornado, em sua opinião, igualmente retrógradas e voltadas para o futuro. Sua insistência na escrita como tal não tinha o objetivo de mistificar seu pensamento e, assim, protegê-lo do vulgar; tinha, ao contrário, o objetivo de demonstrar o temível esoterismo da linguagem de sua cultura tal como era, para preservar suas palavras contra seu desejo insano de prejudicá-las e negá-las — como se seu público não fosse analfabeto, mas disfásico. (3) Minhas observações sobre a escrita como tal não pretendem ser generalizações relativas a toda a literatura, mas sim reconhecimentos específicos da intenção deste escritor neste livro, em particular duas fases dessa intenção: basear sua conquista da condição da escrita como tal especificamente em sua conquista de uma Escritura genuína; e alarmar sua cultura recusando-lhe sua voz, ou seja, negando seu consentimento tanto à chamada sociedade quanto ao que chamo de “conspirações” de silêncio desesperado que impedem que essa sociedade seja sua, ou de qualquer um. Essa recusa não é, de fato, embora o seja na representação, uma retirada; é um confronto, um retorno, um constante voltar-se para seus vizinhos. Isso significa, em primeiro lugar, que ele teve de se estabelecer como vizinho; o que significa, em seguida, estabelecer-se como estranho; o que, por sua vez, significa estabelecer o conceito e o reconhecimento de vizinhos e estranhos; isso significará estabelecer seu leitor como seu estranho.