====== Straus ====== **Erwin Straus (1891–1975)** Médico neurologista, psiquiatra, fenomenólogo e ensaísta germano-americano, Erwin Walter Maximilian Straus é uma das figuras seminais da antropologia fenomenológica e da psiquiatria fenomenológico-existencial do século XX. Formado em medicina pelas universidades de Berlim, Zurique, Munique e Gotinga, atuou na clínica psiquiátrica da Charité em Berlim sob a direção de Karl Bonhoeffer e manteve estreita interlocução com a fenomenologia nascente de Edmund Husserl e Max Scheler. Perseguido pelo regime nacional-socialista em virtude de sua ascendência judaica, emigrou para os Estados Unidos em 1938, lecionando no Black Mountain College e assumindo posteriormente a direção do serviço de pesquisa neuropsiquiátrica do Veterans Administration Hospital em Lexington, Kentucky. Straus notabilizou-se pela crítica demolidora ao mecanicismo reflexológico pavloviano e ao behaviorismo, pela separação fenomenológica estrita entre o "sentir" (//Empfinden//) e o "perceber" (//Wahrnehmen//), e pela célebre elucidação da "postura ereta" (//the upright posture//) como matriz ontológica, corporal e espacial da condição humana. **1. Obras Monográficas e Tratados Teóricos Fundamentais (Edições Originais)** * STRAUS, Erwin. Wesen und Vorgang der Suggestion. Berlin: S. Karger, 1925. * Foco: Primeira investigação clínica e epistemológica; crítica às teorias mecanicistas e associacionistas da sugestão e da hipnose, demonstrando que a relação sugestiva não é a imposição causal de uma ideia sobre um cérebro passivo, mas uma alteração global da estrutura intersubjetiva e da confiança comunicativa entre sujeitos corporificados. * STRAUS, Erwin. Geschehnis und Erlebnis: Denktraditionen und Literaturtendenzen in der Psychiatrie. Berlin: Julius Springer, 1930. * Foco: Monografia epistemológica sobre a psicopatologia; distinção metodológica rigorosa entre o "acontecimento" objetivo exterior (//Geschehnis//, a série temporal causal dos fatos físicos e biológicos) e a "vivência" subjetiva interior (//Erlebnis//, a apreensão significativa e histórica do tempo pela consciência). Straus acusa a psiquiatria de sua época de cometer uma confusão categorial permanente ao tentar reduzir as vivências a meros acontecimentos neuronais. * STRAUS, Erwin. Vom Sinn der Sinne: Ein Beitrag zur Grundlegung der Psychologie. Berlin: Julius Springer, 1935. (2ª ed. amplamente revista e expandida: Berlin/Göttingen/Heidelberg: Springer-Verlag, 1956; tradução para o inglês: The Primary World of Senses: A Vindication of Sensory Experience. New York: Free Press of Glencoe, 1963). * Foco: Obra magna e tratado monumental de fenomenologia da sensibilidade; desmonte da teoria reflexológica de Ivan Pavlov e do mecanicismo causal de Descartes a John B. Watson. Straus deduz a prioridade ontológica do "mundo primário dos sentidos" contra a sua redução a dados atômicos quantitativos, fundando a distinção fundamental entre o sentir patético imediato e a percepção gnóstica objetivante. * STRAUS, Erwin. Psychologie der menschlichen Welt: Gesammelte Schriften. Berlin/Göttingen/Heidelberg: Springer-Verlag, 1960. * Foco: Coletânea monumental que reúne seus mais célebres ensaios monográficos, conferências e artigos teóricos redigidos entre 1930 e 1960, incluindo o ensaio magistral sobre a postura ereta, as formas do espaço, a fenomenologia do sono e do despertar, o problema da dança e a crítica à metapsicologia freudiana. * STRAUS, Erwin. Phenomenological Psychology: Selected Papers. Translated in part by Erling Eng. New York: Basic Books, 1966. * Foco: Edição em língua inglesa que reorganizou o corpus teórico para o meio acadêmico anglo-saxônico, incorporando introduções epistemológicas ao método da antropologia fenomenológica e ao estatuto do corpo vivido (//Leib//). **2. Artigos Canônicos e Ensaios Estruturais Destacados** * STRAUS, Erwin. "Die Formen des Räumlichen: Ihre Bedeutung für die Motorik und die Wahrnehmung". In: //Der Nervenarzt//, Berlin, v. 3, 1930. * Foco: Ensaio clássico de fenomenologia da espacialidade; distinção conceitual pioneira entre o "espaço geográfico" ou acústico-ótico (o espaço homogêneo, métrico, mensurável e geométrico da ciência física) e o "espaço da paisagem" (//Landschaftsraum//, o espaço pré-reflexivo, sensorial, envolvente, afetivo e vivido no qual o animal e o homem primitivo se movimentam). * STRAUS, Erwin. "The Upright Posture". In: //Psychiatric Quarterly//, v. 26, n. 4, 1952. (Publicado em alemão como "Die aufrechte Haltung" em //Kybernetik//, 1953). * Foco: Considerado um dos mais brilhantes ensaios de antropologia física e filosófica do século XX; exame da postura bípede ereta não como mera mutação anatômica adaptativa esquelética, mas como uma conquista existencial contínua contra a gravidade. A verticalidade erige a separação entre o homem e o solo, libera as mãos do solo para o toque instrumental desinteressado, estabelece a distância do olhar no horizonte e funda a dignidade e a vulnerabilidade da condição humana. * STRAUS, Erwin. "Aesthesiology and Hallucinations". In: MAY, Rollo; ANGEL, Ernest; ELLENBERGER, Henri F. (Orgs.). //Existence: A New Dimension in Psychiatry and Psychology//. New York: Basic Books, 1958. * Foco: Reavaliação fenomenológica das alucinações psicóticas a partir de sua teoria estética do sentir; refutação da tese de que a alucinação seria uma simples "falsa percepção cognitiva de um objeto inexistente", caracterizando-a como a desagregação da comunicação sensorial do sujeito com o horizonte da paisagem comum. **3. Organização de Conferências Internacionais e Diálogo Interdisciplinar** * A Série das Conferências de Lexington sobre Fenomenologia Pura e Aplicada: * Na direção de pesquisa em Lexington, Straus organizou colóquios interdisciplinares históricos congregando os maiores nomes da fenomenologia, da psiquiatria e da teoria da ciência internacionais (Maurice Merleau-Ponty, Paul Ricœur, Aron Gurwitsch, Roman Ingarden e Helmut Plessner): * STRAUS, Erwin (Org.). //Phenomenology: Pure and Applied//. Pittsburgh: Duquesne University Press, 1964. * STRAUS, Erwin (Org.). //Phenomenology of Will and Action//. Pittsburgh: Duquesne University Press, 1967. * STRAUS, Erwin; GRIFFITH, Richard M. (Orgs.). //Aisthesis and Aesthetics: The Fourth Lexington Conference on Pure and Applied Phenomenology//. Pittsburgh: Duquesne University Press, 1970. **4. Recepção e Circulação Acadêmica no Espaço Lusófono** * Presença na Filosofia do Corpo e Psiquiatria Fenomenológica: * Embora seu tratado magna //Vom Sinn der Sinne// permaneça sem tradução integral em volume comercial avulso no Brasil e em Portugal, os textos de Erwin Straus circulam amplamente nos departamentos de Filosofia e nas faculdades de Medicina/Psicologia (notadamente na USP, UERJ, UFRJ, PUCPR e Universidade de Coimbra). * O ensaio sobre a postura ereta e a distinção entre os espaços da paisagem e geográfico são eixos estruturantes adotados nas cátedras de antropologia fenomenológica e de psicopatologia compreensiva, servindo de elo entre a fenomenologia de Edmund Husserl, a hermenêutica de Martin Heidegger e a ontologia da carne de Maurice Merleau-Ponty (que citou Straus de modo elogioso e direto em sua //Phénoménologie de la perception//). * Traduções e Edições em Espanhol de Ampla Circulação Universitária: * Pela proximidade linguística e ausência de edição comercial brasileira, a exegese no espaço lusófono apoia-se historicamente nas rigorosas traduções da escola psiquiátrica espanhola e latino-americana: * STRAUS, Erwin. //El sentido de los sentidos: Contribución al fundamento de la psicología//. Tradução da 2ª edição alemã. Madri/Buenos Aires: Espasa-Calpe. * STRAUS, Erwin. //Psicología y mundo humano//. Tradução de ensaios escolhidos. Buenos Aires: Paidós. **5. Eixos Metodológicos e Arquitetura Teórica** * A Ruptura com o Paradigma Pavloviano e a Refutação do Reflexo Condicionado: O ponto de partida crítico de Straus assenta-se na demolição das premissas epistemológicas da reflexologia e do behaviorismo mecânico. Pavlov concebeu o reflexo como a unidade atômica elementar do comportamento: um estímulo físico exterior isolado atinge um receptor passivo, gerando mecanicamente uma resposta motora através de arcos reflexos no sistema nervoso central. Straus demonstra que o "reflexo isolado" é uma ficção artificial de laboratório: nenhum animal vivo no seu meio natural responde a estímulos isolados atômicos, mas a uma totalidade fisionômica significativa do ambiente. Ao isolar o cérebro das condições ecológicas e corporais do vivente, a fisiologia clássica desfigurou o ser vivo, transformando um sujeito dotado de movimento intencional em um autômato passivo regido por colisões físicas cegas. * A Distinção Estrutural entre o "Sentir" (Empfinden) e o "Perceber" (Wahrnehmen): No cerne de //Vom Sinn der Sinne//, Straus formula a sua mais decisiva contribuição fenomenológica: a cisão entre a dimensão estética originária e a dimensão cognitiva representacional. O **sentir** (//Empfinden//) não é o degrau inicial imperfeito de um processo que culminaria na percepção objetiva, mas uma modalidade ontológica autônoma e irredutível: * 1. O Sentir (Modo Patético): É a relação imediata, afetiva, fisionômica e corporal do ser vivo com o mundo; nele não há separação rígida entre sujeito e objeto. O sentir opera na modalidade do "como" (//Wie//), na vivência de proximidade, tensão, ritmo e tonalidade afetiva (como na experiência do som, da temperatura, da dor ou da música). Seu horizonte é o "espaço da paisagem", um espaço sem coordenadas fixas no qual a individuação do vivente desdobra-se em simbiose com o meio ambiente; * 2. O Perceber (Modo Gnóstico): É a identificação categorial de um "o quê" (//Was//), a apreensão de um objeto delimitado, estável, idêntico a si mesmo e destacável de seu fundo contextual (como na visão geométrica de uma mesa ou na medição científica de um corpo físico). Seu horizonte é o "espaço geográfico", homogêneo, vazio e métrico. A ciência moderna absolutizou o modo gnóstico, esquecendo que toda percepção objetiva abstrata apoia-se e nutre-se permanentemente da raiz patética do sentir corporal originário. * A Fenomenologia da Postura Ereta (The Upright Posture): Straus afasta as explicações puramente evolucionistas que enxergam a verticalidade como simples resultado mecânico da reorganização da pelve ou da coluna vertebral. Ficar ereto é uma postura conquistada ativamente pelo homem contra a atração universal da gravidade terrestre — um repouso em equilíbrio dinâmico e tenso que cessa no sono e na morte. Ao erguer-se sobre dois pés, o ser humano opera uma cesura ontológica no cosmos: * 1. A separação do solo: Os quadrúpedes mantêm a boca e o focinho voltados diretamente para o chão, subordinados à busca imediata de alimento e ao contato táctil-olfativo contíguo; o homem ereto afasta a cabeça do solo, conquistando o horizonte visual distante; * 2. A liberação da mão: A pata animal é órgão locomotor de sustentação do peso; a mão humana emancipada da marcha liberta-se para a preensão sutil, para o gesto significante, para a fabricação da ferramenta técnica e para a carícia interpessoal desinteressada; * 3. A dialética da vulnerabilidade e da distância: A postura ereta expõe as regiões ventrais moles e a garganta à agressão do mundo, trocando a estabilidade biológica quadrúpede pela liberdade perigosa. O homem ereto não está mais fundido à natureza imediata: ele experimenta a "distância", a capacidade de olhar para a terra de cima para baixo, fundando simultaneamente a dignidade reflexiva, a vergonha moral e a solidão metafísica de sua finitude. * A Fenomenologia da Dança e a Espacialidade Acústica: Ao investigar a motricidade humana, Straus confronta o caminhar utilitário e a dança para evidenciar as duas formas de relação com o espaço. O **caminhar** ordinário é orientado teologicamente pelo modo gnóstico no espaço geográfico: o sujeito desloca-se de um ponto A até uma meta objetiva B para cumprir um propósito instrumental, transformando o espaço intermediário em pura distância a ser superada e anulada. A **dança**, por outro lado, rompe a tirania da meta geográfica: ela não visa alcançar um local exterior nem sair de onde está. Apoiada na primazia do sentido auditivo e rítmico, a dança suspende as direções fixas do mundo geométrico para desdobrar um puro "espaço do presente vivido" (//Präsenzraum//). Na dança, o corpo não usa o movimento para um fim alheio a si mesmo: o corpo torna-se o próprio movimento estético expressivo em comunhão viva com as forças fisionômicas da paisagem sonora. {{tag>Straus psicologia psicanálise}}