====== 6.3 Viver ====== //STAROBINSKI, Jean. Montaigne en mouvement. Paris: Gallimard, 1982 (Coleção Bibliothèque des Idées).// **"CADA UM ESTÁ EM SUA OBRA"** **A OBRA-PRIMA DE VIVER** 1. Mas essa conciliação da captura e do abandono, da apreensão ativa e da passividade, esse consentimento refletido no que é preciso sofrer inevitavelmente encontra primeiro na vida o meio de se manifestar, na vida em que cada instante pode aclarar-se por essa duplicidade. 2. Nada mais fácil e também nada mais difícil do que viver, pois tudo está dado e não há nada para procurar, mas tudo está por fazer, e trata-se apenas de aceitar, de receber e de se abandonar, mas é preciso empreender viver bem e naturalmente essa vida e viver com acerto. 3. Não há nenhuma ciência tão árdua, pois ela constitui a mais admirável obra-prima do homem, e viver é então o que nos é concedido e o que precede em nós todas as razões de agir, e é também o ato e a obra por excelência, a finalidade projetada para além de todos os nossos atos e de todas as nossas outras obras. 4. É um estado de fato e é uma tarefa, pois nossa existência nos é atribuída e permanece um trabalho inacabável, e assim a consciência que se aplica em viver deve aceitar-se imediatamente ao mesmo passo em que se desprende de si para se construir a si mesma como uma obra-prima. 5. A própria ideia da vida implica a adesão a priori a si mesmo e o propósito alvo do viver com um fim distante, e distante e não exterior pois se trata de conquistar uma proximidade e uma plenitude sensível. 6. A cada instante a vida se oferece como já ali no surgimento instantâneo da consciência e do mundo que a cerca, e não resta senão a perfazer, e ora na medida em que progride a experiência de Montaigne o instante em que a vida se manifesta ganhará a qualidade de um último instante, momento de graça de sursis inesperado que coroa uma existência inteiramente despendida. 7. A vida está já ali porque já se passou, pois todas as cartas foram jogadas, e a preocupação com o futuro não o atinge mais, e nesse frágil instante final plenitude e vazio coexistem. 8. Tudo se reduz à mais tênue consciência de viver ainda, enquanto para trás tudo é pleno e tudo recebeu forma, o corpo que conheceu tantos prazeres e que logo não perceberá mais nada, a série doravante imóvel dos atos e das palavras transcorridos e a marca irreversível e frágil de uma existência. 9. Agora está feito, e meu bom homem está feito, e acabamento e perfeição na imperfeição, e Montaigne está ali com suas doenças, seus hábitos e seus defeitos, e aceitar a vida para ele é aceitar ter vivido e se receber tal como os anos o modelaram. 10. Está feito e é tarde demais, e que não lhe peçam que se emende, pois Montaigne sabe apenas contar-se tal como é, isto é, tal como sua vida o construiu e tal como a doença o destruiu. 11. Mas eis que se contar torna-se uma tarefa infinita a qual vai contradizer a aparente imobilização do está feito, e nada está estabilizado, pois contar-se é continuar na duração própria à linguagem a vida e o movimento que se acreditava parados. 12. Assim Montaigne se corrige e se transforma por incessantes acréscimos mesmo quando se declara incapaz de arrependimento, e no capítulo XIII do terceiro livro depois de tudo o que parecia imobilizar-se no está feito vem o convite de construir a vida como uma obra-prima em seguida à constatação de que assim me dissolvo e vou-me subtraindo a mim mesmo. 13. Isto é o apelo ao ato formador e a resignação ao escoamento perpétuo, e tudo está por fazer no momento mesmo em que tudo se desfaz, pois a vida é movimento desigual, irregular e de múltiplas formas. 14. O que há de mais maravilhoso do que a experiência dessa adesão e dessa fuga simultâneas, dessa impossibilidade de ser diferente de si e desse incansável distanciar-se, e cada um desses estados, adesão ou distância, aparece alternadamente como uma fraqueza ou como um fim desejável, como a prova ou de um poder ou de uma impotência da consciência viva. 15. Em geral Montaigne se dá por inteiro ao que faz e nenhum movimento se sonega à sua razão nem se executa senão por consenso de todas as partes de seu ser, e Montaigne proclama sua unidade e sua unanimidade interior mas a unidade tão logo afirmada se desdobra em um movimento e em uma razão. 16. Um movimento que se mostra com toda a evidência e uma razão que consente no movimento surgido diante dela, e o desdobramento e a unidade é preciso agora vê-los aprofundar-se em uma nova dimensão. 17. Na proximidade da morte movimento e razão revelam seu sentido último, pois o movimento é movimento para a morte e a razão reconheceu que a vida é perecível por sua condição, e o consentimento na morte é apenas a contrapartida necessária de uma conversão total à vida. 18. Quando a distância colocada pela consciência é a ruptura absoluta, isto é, a morte, então a intimidade que ela reencontra por inversão é a evidência calorosa da vida, e sem dúvida no caso distância e intimidade são apenas pensamentos alvos da consciência e a passagem para a morte não se realizou e a posse da vida permanece incompleta. 19. O olhar ao menos dirige-se a limites que não poderia ultrapassar, e a consciência pensa então a distância absoluta e a intimidade absoluta e as pensa inseparavelmente, e que possa reunir em si mesma esses dois pensamentos e fazer de maneira que a distância contribua para o advento da presença é talvez o verdadeiro triunfo da consciência sobre a morte, mas um triunfo sempre inacabado como é inacabável a conquista de si mesmo. 20. Aos ataques da doença e à ameaça da morte iminente Montaigne responde pelo elogio de nossa condição corporal, e doravante conhece melhor a felicidade de ter um corpo e o valor da saúde, esse fogo de artifício. 21. Verdade aparentemente banal e lugar-comum inesgotável, pois os infortúnios reavivam o sabor da felicidade finda, e os poetas latinos disseram-no de mil maneiras e Montaigne citou suas sentenças, mas não é uma felicidade passada que a doença e a morte iminente revelam agora a Montaigne, é uma ventura presente e uma felicidade atual. 22. Quando danco danco e quando durmo durmo, e adesão total a si, pois o gesto da dança e o repouso do sono são instantes de completa coincidência, e aqui a duplicação do verbo é fruto do desdobramento reflexivo mas o que é constatado pela consciência reflexionante é a repetição perfeita e a reafirmação pura e simples da ação em que Montaigne se empenhou. 23. A identidade especular dos verbos repetidos manifesta o acordo consigo mesmo sem segunda intenção nem reserva, e assim o escritor prova de sua própria plenitude, aparece para si mesmo tal como é, aprova-se instantaneamente e participa isso ao seu leitor. 24. Ora uma adesão tão feliz ao instante vivido só é possível porque a consciência reconheceu definitivamente que em tudo e por toda a parte a morte mistura-se à vida, e para encontrar a plenitude absoluta no instante fugidio terá sido preciso primeiro romper em pensamento com a vida, e para encontrar a riqueza terá sido preciso consentir em perder tudo, e é no momento em que todos os laços foram desatados que a preensão se afirma mais forte e o gozo mais saboroso. 25. Montaigne pensa somente em seu fim e desfaz-se de toda nova esperança bem como evita novos empreendimentos, e dá um adeus definitivo aos lugares que deixa e diariamente aliena algo do que possui, e está em regra com tudo e como que já disse adeus a todos salvo a si mesmo. 26. Nunca homem se apresentou mais bem preparado para deixar a vida no momento necessário e sem a menor dissimulação, e ninguém se desprendeu melhor e mais completamente da vida do que ele, e não se detém em viagem em nenhum lugar sem que se pergunte se poderia aí morrer tranquilamente. 27. O pensamento da morte opera um desprendimento total mas ao mesmo tempo redobra a atenção voltada para cada minuto e para cada objeto que a vida oferece ainda, e Montaigne ultrapassa a lição dos estóicos os quais aconselhavam viver cada instante como se fosse o último. 28. Para a consciência liberta a vida já teve fim e o mundo se afastou para sempre, e entretanto um sursis de pura graça adia a morte para mais tarde, e doravante todos os instantes podem ser saboreados como se fossem devolvidos depois da hora da morte. 29. São dados por acréscimo como resultado de um favor inapreciável que é o da vida simples uma vez que ela se despojou de todo desgosto do passado e de toda preocupação com o futuro, e estando já consumada a ruptura cada instante aparece como um dom imediato e gratuito, e o gozo não é obscurecido pela preocupação com a morte e a preensão e a apreensão se tornam mais ágeis. 30. Superabundância deleitável nascida do despojamento e do desapossamento, e presença que não teria sido tão substancial nem tão plena se não fosse dada a uma consciência cuja despedida já foi feita. 31. Os místicos que praticam essa espécie de adeus ao mundo já não se voltam para ele e desfrutam apenas de Deus, mas Montaigne dados os seus adeuses à vida redescobre a vida humana e o mundo terrestre sob uma nova luz, e degusta vivo um gozo póstumo. 32. A partir daí quantas contradições se esclarecem revelando cada um dos termos opostos sua necessidade e sua função complementar, e Montaigne nos dissera que de início empreendera escrever seu livro por um humor melancólico e que não há nada que sua imaginação vasculhe mais do que a ideia da morte e isso desde sempre mesmo no período de sua vida em que mais se dedicou aos prazeres. 33. Mas recebemos uma confidência não menos sincera quando descreve sua alma não somente isenta de preocupações mas ainda satisfeita e festiva o que é nele normal já porque assim quer a natureza já porque se esforça por não a perturbar, e terá sido preciso em primeiro lugar que a alma imagine sua morte como uma tempestade. 34. Montaigne se encolhe em si mesmo ante a tempestade que se desencadeou e aguarda que algum golpe de vento mais forte o arraste sem que o sinta, mas essa cegueira torna possível um novo olhar e a antecipação da tempestade converte-se no céu sereno que recompensa a razão. 35. De onde quer que dirija a vista depara com um céu sereno que nenhum desejo, temor ou dúvida perturba, e sempre pode sua imaginação representar-se sem sofrimento qualquer dificuldade passada, presente ou futura. 36. Assim para além da ideia do ser que nos falta e do parecer que nos engana, para além da ideia do nada do homem e da vaidade da vida, a simples existência que nos é restituída e o corpo perecível que é o nosso tornam-se o lugar onde se revela uma verdade, minha verdade humilde mas absoluta, única mas sustentada pela universal natureza, incomunicável mas cúmplice de todas as consciências humanas. 37. Perdemos o ser essencial mas o ser relativo e fenomênico nos foi devolvido, e empobrecemo-nos apenas para nos enriquecer. 38. O ser é ao mesmo tempo o que há de mais oculto e o que é imediatamente sensível, e nossos sentidos nos mentem quando nos falam do ser e eis que o ser vem habitar nossa vida e nossos sentidos, e revela-se incessantemente mas cada aparição o manifesta e o oculta imediatamente. 39. Ele é, ele parece e ele se esconde quase ao mesmo tempo, e precisamos consentir nesse cheio e nesse vazio que trazemos em nós e que descobrimos fora de nós, desposar o movimento que nos desagrega, nele mergulhar e redescobrir no gesto desse mergulho uma plenitude sensível, um corpo firme e feliz desperto para a ventura de sentir seu gesto. 40. Então a uma só vez tensos e displicentes, ativos e passivos, indestrutíveis e levados pela duração, apaixonados e indiferentes, confiamos no que nos é dado e nos contentamos com o pouco que podemos agarrar. 41. É uma presa magra em comparação com o que a filosofia pretendia possuir e conhecer, mas é tão mais, pois o que doravante possuímos é o instrumento pelo qual todas as coisas podem ser representadas ou negadas, afirmadas ou recusadas, aproximadas ou afastadas, nossa consciência, que nada possui mas conhece sua pobreza e assim se supera a si mesma. 42. Meu tema se volta para si mesmo, e a consciência é porque aparece para si, mas não pode aparecer para si sem fazer surgir um mundo no qual está indissoluvelmente interessada, e é-lhe necessário um espaço e em caso de necessidade ela o criará assegurando-se assim de que detém um livre poder de afastamento e de aproximação. 43. Ela se busca e foge de si mesma entre as coisas, está ali para constatar uma ruptura e para estabelecer laços, para padecer e para querer, para acusar sua própria leveza e para fazer-se plenitude de experiência. 44. Estabelece-se no afastamento de Deus no qual confia e na presença do mundo, no horizonte da morte e na intimidade da vida, e enfrenta seu fim e descobre em si mesma o poder de um incansável recomeço. {{tag>Starobinski Montaigne obra trabalho vida}}