====== 3.5 Desejo ====== //STAROBINSKI, Jean. Montaigne en mouvement. Paris: Gallimard, 1982 (Coleção Bibliothèque des Idées).// **"A RELAÇÃO COM OUTREM"** **O DESEJO E O MUNDO ABERTO** 1. Plenitude e falta estão profundamente ligadas por sua oposição, e Montaigne terá precisado prender-se para se saber e se querer diferente e terá precisado afastar-se para compreender o sentido da intimidade. 2. Essa descoberta é aquela mesma da lei do desejo, pois uma sabedoria imemorial acusa o homem de desejar o que não está em seu poder, e as mulheres com as quais não privamos parecem-nos sempre desejáveis. 3. A falta dirige nosso olhar ao longe e reciprocamente o distante nos faz experimentar nossa indigência, e a glória ou a ciência são desejáveis porque ausentes ou ausentes porque desejadas. 4. Montaigne conheceu a sedução do que nos atrai enquanto se furta e repreendeu-se repetindo as lições clássicas da moral, pois o inacessível que nos parece precioso e que nos faz deplorar nossa pobreza nos decepcionará tão logo possuído, e então nos voltaremos para outras ausências e não cessaremos de acreditar-nos pobres. 5. Penúria inteiramente imaginária pela qual nossa imaginação doente é a primeira responsável, e bastaria resistir à sedução do irreal para reencontraríamos nossos verdadeiros bens inalienáveis sempre ao nosso alcance. 6. Mas Montaigne em um paradoxo que ultrapassa os conselhos do bom senso está pronto a fazer justiça à loucura do desejo e consente em confessar sua privação quanto ao que lhe falta, e que cantem as sereias e cintilem as tentações imaginárias. 7. Apraz-lhe sentir sua separação e sua indigência mas sem querer preencher a falta pela posse, e o espaço se abre e se esvazia porque o desejo aí manifesta seu impulso, e Montaigne mantém o desejo vivo impondo-lhe uma suspensão indefinida, pois a saciedade não é seu objetivo. 8. Já existe felicidade em conhecer o desejo como desejo, a busca, e assim o intervalo criado pelo apelo do prazer ausente se torna o espaço transparente em que podem atuar livremente as potências da inteligência e do julgamento. 9. O desejo exige a presença mas procura-a apenas nos objetos proibidos ou estranhos, e substituindo a obra do desejo a consciência reflexiva mantém a distância e dela tira proveito para sua felicidade própria, e nada possuir para ela é tudo poder considerar com igual paixão e com igual desprendimento. 10. Tendo provocado o sentimento da existência desprovida mas tendo igualmente renunciado à sua saciedade, o desejo oferece à consciência o espetáculo de um mundo aberto em que nada poderia ser indiferente. 11. A consciência tentada foge de si mesma na direção de todas as coisas mas também tem o poder de se recobrar para formular sobre todas as coisas o julgamento pelo qual afirma sua autonomia, e a distância oriunda do desejo adquire então um sentido novo e se torna o afastamento engendrado pelo poder de desprendimento e de recolhimento que reconduz o espírito às suas posições íntimas. 12. O espírito não conhece os objetos senão na medida em que se descobre distinto deles, recuando em sua diferença essencial para provar das formas e dos sabores estranhos, e o espaço vivido é então definido por uma dupla vertigem. 13. O mais longe possível se encontra o Ser inacessível e o Bem supremamente desejável, o mais perto possível se encontra o mundo sensível, e a ausência de Deus vai tornar-se o correlativo necessário da presença para si precária e preciosa. 14. A consciência descobre-se tão separada de Deus que não lhe resta mais que aceitar a plenitude da experiência sensível e da vida mundana, aí reconhecendo a própria expressão da vontade de Deus que relega o homem a não ser senão o que é, plenitude sem garantia metafísica mas sustentada pela verdade da separação. 15. A intimidade e a plenitude feliz que são a recompensa da sabedoria só são obtidas se consentimos na distância e na fraqueza de nossa apreensão, e a separação é o caminho secreto para a presença, ainda que o apelo das distâncias jamais deixe de distrair-nos. 16. Transportamo-nos em espírito para onde não estamos e não ocupamos senão levemente nosso presente, e isso se chama pisar com cuidado no mundo, e é bom que seja assim. 17. Pensar em outra coisa é alternadamente ou simultaneamente uma impaciência de abandonar a si mesmo e a própria condição de um retorno a si, e aqui é o lugar de nosso aprisionamento e se torna a área de nossa expansão. 18. A distância é ambígua e o imediato não o é menos, e alieno-me ao desejar mas não tenho identidade senão com a condição de ter aceito essa alienação, e minha tarefa é a uma só vez de me separar e de me reunir. 19. Essa oscilação não termina e Montaigne não deseja que tenha fim por alguma reconciliação final, pois se há um assentimento a si em Montaigne não é para fazer triunfar uma sabedoria conclusiva mas é um consentimento na imperfeição. 20. Estou sempre imperfeitamente aqui e imperfeitamente em outra parte, e seria vão querer superar a imperfeição pois ela entra na própria definição da vida, sendo a vida um movimento essencialmente desregrado e imperfeito que Montaigne procura orientar segundo suas aspirações. 21. A cumplicidade que Montaigne requer de seus leitores chega a constituir uma solidariedade feliz na consciência do comum despojamento, pois privados de todo saber e de todo papel privilegiado no universo os homens são apenas consciências estreitamente limitadas mas capazes de encontrar-se e de discutir. 22. Existe aí uma nova autoridade que deve fazer-nos renunciar de coração alegre a essas essências e a essas causas cuja apreensão nos é vedada, e assim o eu descobre sua dimensão subjetiva e intersubjetiva ao termo de um movimento de crítica que de início tendia a desacreditar a condição humana. 23. Ser apenas uma consciência confinada no relativo e por isso mesmo na rede de suas relações é redescobrir-se rico de tudo que pode uma consciência religada a outras consciências, e o movimento pelo qual eu me limito me faz conceber também o ilimitado que não sou e que me é proibido mas cujo pensamento terei de sustentar continuamente. 24. Minha consciência contenta-se com seu próprio testemunho, não o de uma consciência de anjo ou de animal mas o de uma consciência humana, e o que digo provém de alguém que não sabe e procura. 25. O nada da ignorância e a inesgotável possibilidade da indagação estão ligados um ao outro no eu falo, e se a consciência não fosse desprovida e ignorante não poderia ser essa infinita pergunta para si mesma nem esse questionamento de todas as coisas. 26. Aí está sua riqueza, que tem por corolário um extraordinário enriquecimento da ideia de mundo, e a Apologia de Raimond Sebond seria um texto de pouco interesse se se limitasse a desqualificar a ciência e a denunciar a fraqueza da razão. 27. Mas ao reduzir o homem a não ser senão o pouco que é e ao contê-lo nos limites de seu domínio exíguo o texto de Montaigne não lhe opõe apenas a incompreensível onipotência de Deus, opõe-lhe igualmente a infinita riqueza do mundo e da natureza. 28. Enquanto o homem é reconduzido à sua consciência nua o universo finito da cosmologia tradicional vê seus limites dissolverem-se e torna-se um universo ilimitado que seria vão querer inventariar, e o espaço assim aberto, o pulular das formas vivas e das qualidades sensíveis e a fecundidade da natureza se oferecem e se recusam inesgotavelmente ao nosso olhar. 29. Revelam-se como aquilo sobre o qual nenhuma revelação total jamais nos será comunicada, e diante do mundo o homem sabe que é uma criatura finita em um infinito físico, e o saber que possui é nulo mas o horizonte do possível que se estende diante dele é mais vasto do que jamais foi. 30. O que reconforta o homem não é ver-se incluído e compreendido nessa generosa natureza que ele não compreende nem é a esperança de que se elevará ao se deixar erguer e elevar-se unicamente pelos meios que lhe vêm do céu, mas é sentir que diante da imensidão do universo sua consciência possui o recurso de uma liberdade frágil e ao mesmo tempo invencível. 31. Só pode ver com seus olhos e apreender com seus próprios meios, e assim restam-lhe tantos objetos para ver e apreender, e ao infinito do universo corresponde na consciência livre um infinito de iniciativa, a possibilidade jamais esgotada de uma retomada e de um conhecimento de si no caminho que se abre à palavra. 32. Quem não vê que enquanto houver papel e tinta seguirá sem parar o caminho que adotou, e essa caminhada infinita não é uma caminhada solitária, pois escrever é falar no papel, e falar no papel toma por modelo a palavra que dirige ao primeiro indivíduo que encontra. 33. Montaigne conhece em sua fórmula mais aguda a lei que rege a comunicação verbal, pois metade da palavra pertence a quem fala e metade a quem escuta. {{tag>Starobinski Montaigne desejo}}