====== MAPAS FILOSÓFICOS ====== //SCHUMACHER, E. F. A Guide for the Perplexed. New York: Perennial, 1977.// ====== SEÇÃO I — SOBRE MAPAS FILOSÓFICOS ====== * A exposição inicia-se com a metáfora do mapa como instrumento de orientação existencial e cognitiva, introduzida por meio da experiência concreta da consulta a um mapa urbano incapaz de representar elementos visivelmente presentes, o que evidencia desde o início a distinção entre a realidade vivida e sua representação conceitual. * A omissão deliberada das igrejas vivas no mapa revela que toda cartografia pressupõe critérios seletivos prévios, os quais não são neutros, mas dependem de decisões ideológicas sobre o que merece ou não ser mostrado. * A distinção entre igreja viva e museu explicita a redução do significado espiritual a uma função meramente histórica ou estética, indicando que aquilo que possui vida efetiva é precisamente o que se torna invisível. * A experiência concreta funciona como analogia fundamental para o problema filosófico dos mapas do conhecimento transmitidos pela educação moderna. * A reflexão desloca-se do episódio particular para uma crítica geral aos mapas intelectuais recebidos ao longo da formação escolar e universitária. * Esses mapas do saber omitem sistematicamente aquilo que mais importa para a orientação da vida, apesar de tais elementos serem dados imediatos da experiência humana. * A perplexidade existencial prolongada decorre da confiança inicial nesses mapas, que leva à suspeita da sanidade da própria percepção em vez da confiabilidade dos esquemas conceituais herdados. * A libertação intelectual ocorre quando se inverte essa suspeita, passando-se a questionar a validade dos mapas e não a realidade percebida. * Os mapas dominantes descrevem a tradição humana como um vasto erro coletivo, no qual crenças religiosas, práticas ascéticas e investimentos espirituais são reduzidos a ilusões irracionais. * A totalidade da história anterior é reinterpretada como uma sucessão de equívocos motivados pela ignorância, pela superstição e pela incapacidade científica. * Mesmo figuras centrais da ciência moderna inicial são retratadas como intelectualmente confusas por se dedicarem a objetos considerados inexistentes. * O passado é rebaixado à condição de curiosidade museológica, destituído de qualquer autoridade normativa ou valor orientador para o presente. * Essa interpretação não é apresentada de forma explícita, mas insinuada por meio de um discurso pedagógico que combina condescendência e desqualificação. * Reconhece-se um esforço honesto nos antepassados, mas atribui-se sua orientação religiosa a um estágio infantil da humanidade. * A permanência residual da linguagem religiosa é tolerada apenas como convenção cultural, sem qualquer correspondência ontológica real. * A explicação evolutiva substitui a criação, apresentando a origem de todas as coisas como produto do acaso e da seleção natural. * O princípio orientador desses mapas filosóficos pode ser formulado como a exclusão sistemática de tudo aquilo que não possa ser demonstrado segundo critérios estritos de prova. * Apenas o que é considerado comprovável recebe estatuto de realidade efetiva. * O duvidoso é excluído ou relegado ao domínio do museu, isto é, do irrelevante para a vida presente. * Surge então o problema decisivo da definição de prova, cuja complexidade torna esse critério profundamente questionável. * Propõe-se a inversão desse princípio excludente, defendendo que aquilo que é incerto deve ser mostrado com destaque, e não eliminado. * O que é absolutamente certo é, em certo sentido, morto, pois não interpela nem desafia o espírito vivo. * Aceitar qualquer verdade implica risco, mas a eliminação do risco implica a perda do que há de mais elevado na experiência humana. * O conhecimento dos níveis superiores da realidade é necessariamente mais frágil, mas também mais valioso. * Introduz-se a distinção entre conhecimento certo e conhecimento elevado, afirmando que o valor de um conhecimento não se mede apenas por sua certeza. * O conhecimento mais sutil pode ser menos seguro, mas mais significativo. * Limitar o saber ao indubitável implica amputar a possibilidade de acesso às realidades mais altas. * A recusa do incerto conduz a uma mutilação do horizonte humano. * Os mapas modernos não apenas excluem a dimensão religiosa, mas também vastos campos heterodoxos do saber e da prática. * Abordagens não convencionais na medicina, agricultura, psicologia e ciências sociais são sistematicamente omitidas. * Fenômenos artísticos, espirituais ou paranormais são desqualificados como sinais de deficiência mental. * A arte é reduzida à autoexpressão subjetiva ou à fuga da realidade, perdendo qualquer dimensão ontológica. * A totalidade do mapa é desenhada segundo critérios utilitaristas, nos quais apenas o funcional, o rentável ou o adaptativo é reconhecido como real. * A beleza é explicada exclusivamente por sua utilidade biológica. * A natureza é destituída de significado simbólico ou expressivo. * O mundo torna-se um campo de sobrevivência, desprovido de profundidade qualitativa. * A interiorização progressiva desses mapas produz perplexidade, infelicidade e cinismo. * A familiaridade com os detalhes do mapa reforça a aceitação de suas omissões. * A ausência do que realmente importa deixa o indivíduo desorientado diante da vida. * A experiência relatada por Nicoll exemplifica o momento de ruptura em que se reconhece que a autoridade dominante nada sabe sobre o essencial. * A crítica dirige-se então ao cientificismo materialista, que não apenas deixa sem resposta as questões fundamentais, mas nega sua legitimidade. * Valores e significados são reduzidos a mecanismos psicológicos defensivos. * O ser humano é descrito como máquina bioquímica sem liberdade nem responsabilidade. * Juízos de valor são interpretados como ilusões motivadas pelo desejo de felicidade. * Essa redução gera uma situação de desespero espiritual, pois às perguntas últimas são dadas respostas que as anulam. * Quem busca sentido recebe negação. * Quem busca orientação moral recebe determinismo. * Quem busca salvação recebe diagnóstico patológico. * A especialização científica transforma-se em generalização ilegítima, convertendo métodos parciais em visões totais da realidade. * O problema não é a especialização, mas a pretensão de totalidade. * O reducionismo converte fenômenos humanos em epifenômenos. * O niilismo contemporâneo apresenta-se disfarçado de explicação científica. * A condição humana é descrita como radicalmente exposta, exigindo decisões antes da plena compreensão. * A vida não permite suspensão até a obtenção de clareza completa. * O ser humano é estruturalmente mal programado, comparado aos animais. * A incerteza fundamental recai não apenas sobre os meios, mas sobretudo sobre os fins. * As questões decisivas da vida dizem respeito aos fins últimos, e não podem receber respostas técnicas. * Perguntas sobre salvação, felicidade e sentido não se resolvem por instruções operacionais. * A ignorância sobre o que se deseja é mais radical do que a ignorância sobre como alcançar um objetivo. * Conceitos como sabedoria e verdade libertadora exigem orientação filosófica. * Introduz-se a tarefa do livro como tentativa de contemplar o mundo como um todo. * Filosofar é definido como busca da sabedoria. * O espanto é apresentado como origem do pensamento filosófico. * A ignorância autossatisfeita é identificada como obstáculo fundamental ao saber. * Retoma-se a metáfora do mapa como instrumento de orientação global. * Um mapa não representa tudo, mas aquilo que é decisivo para não se perder. * A ausência dos marcos fundamentais conduz à perplexidade total. * A qualidade do início determina o sucesso de toda investigação subsequente. * A cartografia filosófica é apresentada como arte empírica e abstrata, mas radicalmente fiel à realidade. * Nada que exista ou seja significativo pode ser excluído. * O princípio orientador é aceitar tudo e rejeitar nada. * O mapa não é a totalidade da filosofia, mas seu ponto de partida indispensável. * Introduzem-se quatro Grandes Verdades como marcos universais de orientação. * Elas são visíveis a partir de qualquer posição existencial. * O desconhecimento dessas verdades implica desorientação completa. * O guia proposto trata de como o ser humano vive no mundo. * Delineia-se o campo de investigação em quatro eixos fundamentais. * O mundo. * O ser humano enquanto equipado para enfrentá-lo. * O modo humano de conhecer. * O significado de viver. * Apresenta-se a primeira Grande Verdade: o mundo possui uma estrutura hierárquica de níveis de ser. * A segunda Grande Verdade: a adequação entre sujeito e objeto do conhecimento. * A terceira Grande Verdade: os quatro campos do conhecimento. * A quarta Grande Verdade: a distinção entre problemas convergentes e divergentes. * O mapa não resolve problemas nem explica mistérios, mas permite identificá-los corretamente. * A responsabilidade final é individual. * A tarefa da vida exige diligência. * A filosofia, a meditação e a arte de viver são apresentadas como instrumentos indispensáveis para o caminho humano. {{tag>Schumacher}}