====== Ruído ====== //SCHOPENHAUER, Arthur. Parerga und Paralipomena: Kleine philosophische Schriften. 2 volumes. Berlin: A. W. Hayn, 1851.// //“On Noise.” In: Arthur Schopenhauer, Parerga and Paralipomena. Volume II. Translated by E. F. J. Payne. Oxford: Oxford University Press, 1974, pp. 642–645.// Kant escreveu um ensaio sobre as forças vivas; mas eu gostaria de escrever um canto fúnebre e um lamento sobre elas, pois seu uso excessivamente frequente em batidas, marteladas e estrondos tem sido, ao longo de toda a minha vida, um tormento diário para mim. Certamente há quem, na verdade em número considerável, sorria diante dessas coisas porque não é sensível ao ruído. No entanto, são justamente essas pessoas que também não são sensíveis a argumentos, ideias, poesia e obras de arte; em suma, a impressões mentais de todo tipo; pois isso se deve à dureza e à textura sólida da substância de seu cérebro. Por outro lado, nas biografias ou em outros relatos das declarações pessoais de quase todos os grandes autores, como Kant, Goethe, Lichtenberg e Jean Paul, encontro queixas sobre a tortura que os pensadores têm de suportar por causa do barulho. Se tais queixas não forem encontradas em alguns autores, isso se deve simplesmente ao fato de que o contexto não levou a elas. Explico a questão da seguinte maneira. Um grande diamante cortado em pedaços tem o mesmo valor que tantos outros pequenos; e um exército disperso e espalhado — ou seja, dividido em pequenos grupos — não é mais capaz de nada. Da mesma forma, uma grande mente não é mais capaz do que uma mente comum no momento em que é interrompida, perturbada e desviada. Pois sua superioridade depende de concentrar todas as suas forças — assim como um espelho côncavo concentra todos os seus raios — em um único ponto e objeto; e é precisamente nisso que ela é impedida por uma interrupção barulhenta. É por isso que mentes eminentes sempre detestaram profundamente todo tipo de perturbação, interrupção e distração, mas acima de tudo a perturbação violenta causada pelo alvoroço e pelo barulho. Outros, ao contrário, não se incomodam particularmente com tais coisas. A mais sensata e inteligente de todas as nações europeias chegou até a estabelecer um décimo primeiro mandamento: a regra “Nunca interrompa!”. O barulho é a mais impertinente de todas as formas de interrupção, pois interrompe — na verdade, perturba — até mesmo nossos próprios pensamentos. No entanto, onde não há nada para interromper, o barulho naturalmente não será sentido de forma significativa. Às vezes, sou atormentado e perturbado por um tempo por um ruído moderado e constante antes de tomar plena consciência dele, pois o sinto apenas como um aumento constante na dificuldade de pensar, como um peso amarrado ao meu pé, até que perceba do que se trata. Passando agora do gênero à espécie, devo denunciar como o ruído mais imperdoável e escandaloso o estalo verdadeiramente infernal dos chicotes nas ruas estreitas e ressonantes das cidades; pois ele rouba à vida toda a paz e a contemplação. Nada me dá uma ideia tão clara da apatia, da estupidez e da imprudência dos homens quanto a tolerância a esse estalo de chicotes. Esse estalo repentino e agudo, que paralisa o cérebro, rasga e rompe o fio da reflexão e assassina todos os pensamentos, deve ser dolorosamente sentido por qualquer um que carregue na cabeça algo que se assemelhe a uma ideia. Todos esses estalos devem, portanto, perturbar centenas de pessoas em sua atividade mental, por mais humilde que seja sua natureza; mas eles atravessam as meditações de um pensador de forma tão dolorosa e fatal quanto o machado do carrasco separa a cabeça do corpo. Nenhum som penetra no cérebro tão agudamente quanto esse maldito estalo do chicote; sente-se no próprio cérebro a própria picada do chicote, e isso afeta o cérebro da mesma forma que o toque na Mimosa pudica, e dura tanto tempo quanto ela. Com todo o respeito à mais sagrada doutrina da utilidade, realmente não vejo por que um sujeito, ao transportar uma carroça cheia de areia ou estrume, deveria, por isso, adquirir o privilégio de cortar pela raiz toda ideia que surge sucessivamente em dez mil cabeças (ao longo de meia hora de viagem pela cidade). O barulho de marteladas, o latido de cães e os gritos de crianças são terríveis, mas o verdadeiro assassino das ideias é apenas o estalo do chicote. Ele tem como objetivo esmagar cada bom momento de meditação que alguém possa ter de vez em quando. Se, para impelir os animais de tração, não existisse outro meio além desse ruído, o mais abominável de todos, haveria alguma desculpa para isso, mas o caso é exatamente o contrário. Esse maldito estalo do chicote não é apenas desnecessário, mas até mesmo inútil. Assim, o efeito psíquico pretendido sobre os cavalos é totalmente neutralizado e deixa de ocorrer porque, devido ao abuso constante do chicote, eles se acostumaram a ele. Os cavalos, consequentemente, não andam mais rápido; e isso também é observado especialmente no caso dos cocheiros que estão à procura de passageiros e estalam incessantemente seus chicotes enquanto dirigem no ritmo mais lento. O mais leve toque do chicote tem mais efeito. Mas, supondo que fosse absolutamente necessário lembrar constantemente aos cavalos da presença do chicote por meio do som, então um som cem vezes mais suave seria suficiente para esse fim. Pois é bem sabido que os animais percebem os sinais mais sutis, quase imperceptíveis, tanto auditivos quanto visuais, sendo os exemplos mais surpreendentes fornecidos por cães e canários treinados. Consequentemente, a questão revela-se um ato de puro capricho e, na verdade, um desrespeito insolente para com aqueles que trabalham com a cabeça por parte daqueles membros da comunidade que trabalham com as mãos. O fato de tal infâmia ser tolerada nas cidades é uma barbárie crua e uma iniquidade, tanto mais quanto poderia ser facilmente impedida por uma ordem policial determinando que cada cordão de chicote tivesse um nó na ponta. Não há mal algum em chamar a atenção dos proletários para o trabalho intelectual das classes acima deles, pois eles têm um medo mortal de todo esse tipo de trabalho. Um sujeito que percorre as ruas estreitas de uma cidade populosa montado em cavalos de correio gratuitos ou em um cavalo de carroça gratuito, ou mesmo acompanhando os animais a pé, e fica estalando com toda a força um chicote de vários metros de comprimento, merece ser derrubado imediatamente e receber cinco boas surras com um bastão. Todos os filantropos do mundo e todas as assembleias legislativas que, com bons motivos, aboliram todas as punições corporais, não me convencerão do contrário. Mas algo ainda pior pode ser visto com bastante frequência: a saber, um carroceiro que, sozinho e sem cavalos, caminha pelas ruas e estala incessantemente seu chicote. Esse sujeito se acostumou tanto ao estalo do chicote, graças a uma indulgência e tolerância imperdoáveis. Com toda essa ternura universal pelo corpo e todas as suas gratificações, será que a mente pensante é a única coisa que nunca recebe a menor consideração ou proteção, para não falar de respeito? Carroceiros, carregadores, mensageiros e similares são os animais de carga da comunidade humana; certamente devem ser tratados com humanidade, justiça, equidade, consideração e cuidado, mas não se deve permitir que eles frustrem os esforços mais elevados da raça humana ao fazerem barulho de forma arbitrária. Gostaria de saber quantos pensamentos grandiosos e nobres já foram arrancados do mundo por esses chicotes. Se eu tivesse que dar uma ordem, logo se estabeleceria na mente dos cocheiros uma associação indelével de ideias entre estalar o chicote e levar uma surra. Esperemos que as nações mais inteligentes e refinadas deem o primeiro passo nessa direção e que, a título de exemplo, os alemães sejam então levados a seguir o mesmo caminho. Enquanto isso, Thomas Hood diz: “Para um povo musical, eles são os mais barulhentos que já conheci.” O fato de serem assim, no entanto, não se deve a uma maior propensão a fazer barulho do que os outros, mas à apatia e à insensibilidade (que resultam em obtusidade) daqueles que têm de ouvir isso. Eles não são, por isso, perturbados em seus pensamentos ou na leitura, justamente porque não pensam, mas apenas fumam, sendo isso, para eles, um substituto para o pensamento. A tolerância universal ao barulho desnecessário, por exemplo, o bater de portas extremamente vulgar e mal-educado, é simplesmente um sinal de embotamento mental e de uma falta geral de reflexão. Na Alemanha, parece que haja até mesmo a intenção de que ninguém recupere o juízo por causa do barulho; bater em tambores sem sentido, por exemplo. Por fim, no que diz respeito à literatura que trata do tema deste capítulo, posso recomendar apenas uma obra, mas é excelente: trata-se de uma epístola poética em terze rime do famoso pintor Bronzino, intitulada “De’romori, a Messer Luca Martini”. Nela, é apresentada uma descrição detalhada e divertida, em estilo tragicômico, do tormento que se tem de suportar devido aos diversos ruídos de uma cidade italiana. {{tag>Schopenhauer som ruído sensibilidade}}