====== WELTALTER ====== //Clara oder über den Zusammenhang der Natur mit der Geisterwelt: Ein Gespräch. 1861// **Introdução** 1. O passado é sabido, o presente é conhecido, o futuro é pressentido, sendo o sabido objeto de relato, o conhecido objeto de exposição e o pressentido objeto de profecia. 2. Contrapõe-se à representação corrente da ciência como mera sequência e desenvolvimento de conceitos e pensamentos próprios a concepção de que ela é antes o desenvolvimento de um ser vivo e efetivo que nela se expõe. 3. Reconhece-se como vantagem da época ter restituído o ser à ciência de modo definitivamente adquirido, não sendo excessivo afirmar que, desperto o espírito dinâmico, toda filosofia que não extraia dele sua força não pode ser considerada senão puro abuso do nobre dom da palavra e do pensamento. 4. O que há de vivo na ciência mais alta só pode ser o vivo das origens, o ser a que nenhum outro precede, portanto o mais antigo de todos os seres. 5. Não havendo nada antes dele nem fora dele de que pudesse receber determinação, esse vivo originário só pode desenvolver-se, na medida em que se desenvolve, livremente, por impulso e vontade próprios, puramente a partir de si mesmo, mas, precisamente por isso, não sem lei, e sim conforme sua própria lei, não havendo nele nada de arbitrário, sendo antes natureza no sentido pleno e eminente da palavra, tal como o ser humano, sem prejuízo da liberdade, e mesmo por causa dela, é natureza. 6. Tendo alcançado a objetividade quanto à matéria, a ciência buscou em seguida essa mesma objetividade quanto à forma, o que parece consequência natural. 7. Questiona-se por que isso se revelou, ou ao menos se revela até agora, impossível, por que o que é sabido pela ciência mais alta não pode narrar-se de modo tão simples e óbvio quanto o que é sabido por outras vias, e o que retém aquela idade de ouro pressentida em que a verdade volta a ser fábula e a fábula verdade. 8. Deve-se reconhecer no ser humano um princípio exterior ao mundo e superior a ele, pois de outro modo não poderia, único entre todas as criaturas, refazer em sentido inverso o longo caminho dos desenvolvimentos que separam o presente da noite dos tempos, nem remontar sozinho ao começo dos tempos se não houvesse nele um princípio anterior a esse começo, tendo a alma humana, criada e haurida na fonte das coisas e semelhante a essa fonte, uma consciência conjunta da criação, residindo nela a mais alta clareza de todas as coisas, sendo menos sabedora do que ela mesma ciência. 9. Esse princípio superior ao mundo, porém, não é livre no ser humano nem se encontra nele em sua pureza originária, estando antes ligado a outro princípio menor, ele próprio produto do devir e, por natureza, não sabedor e obscuro, obscurecendo necessariamente por sua obscuridade o princípio superior a que está ligado. * o princípio superior guarda a lembrança de todas as coisas, de suas relações originais, de seu devir e significação, mas essa imagem originária, esse protótipo das coisas, dorme na alma como imagem obscurecida e esquecida, senão de todo extinta * talvez jamais recuperasse sua vivacidade não houvesse no princípio obscuro mesmo um pressentimento e uma nostalgia do conhecimento, sendo o princípio superior, constantemente chamado por este a enobrecê-lo, levado a notar que o inferior não lhe está unido para entravá-lo, mas para que disponha de um outro em que possa contemplar-se, expor-se e alcançar a própria compreensão * pois em si mesmo tudo é indiferenciado e simultâneo, sendo ele um, ao passo que no outro pode diferenciar, exprimir e dissociar o que nele é uno, aspirando por isso ambos igualmente à separação, um para ser reconduzido à sua liberdade originária e tornar-se a si mesmo manifesto, o outro para poder ser fecundado por ele e tornar-se também, ainda que de outro modo, sabedor 10. Essa separação, esse desdobramento de nós mesmos, esse comércio secreto entre dois seres dos quais um pergunta e o outro responde, um que sabe ou antes é a própria ciência e outro que não sabe e luta pela clareza, constitui esse diálogo íntimo que é o verdadeiro segredo do filósofo, do qual o diálogo exterior, chamado por isso dialética, é apenas a réplica, tornando-se, onde esta se faz puramente formal, mera aparência e sombra dele. 11. Assim, tudo o que é sabido é por natureza objeto de relato, não sendo porém o sabido algo já pronto desde o início, mas algo que sempre ressurge da interioridade, devendo a luz da ciência necessariamente erguer-se por separação e libertação interiores antes de poder tornar-se exterior, sendo o que se chama ciência a princípio apenas um esforço de retomada de consciência, portanto antes uma aspiração à ciência do que a ciência mesma, razão pela qual aquele grande homem da Antiguidade lhe deu o nome de filosofia, traindo certa estreiteza a opinião ocasional de que a filosofia poderia, graças à dialética, transformar-se enfim em ciência efetiva, pois a própria existência e necessidade da dialética atestam justamente que a filosofia ainda não é de modo algum ciência efetiva. 12. Nesse aspecto, o filósofo encontra-se numa situação que no fundo não difere da de qualquer outro historiador, pois este também precisa exercer antes de tudo uma arte consumada de discernimento, ou crítica, para separar o verdadeiro do falso e o justo do errôneo nos documentos transmitidos e conservados, precisando o filósofo, no mais alto grau, exercer em si mesmo essa arte da separação, à qual pertence o dito costumeiro de que deve buscar libertar-se dos conceitos e das particularidades de seu tempo, entre outras exigências que seria longo desenvolver aqui. 13. Tudo, absolutamente tudo, mesmo o que por natureza é exterior, deve primeiro ter-nos tornado interior para que sejamos capazes de expô-lo de modo exterior e objetivo, pois, se a época remota que o historiador se propõe descrever não ressuscita nele, jamais a exporá de forma eloquente, verdadeira e viva, sendo todo o saber do historiador vão sem o auxílio de um sentido interno, tal como ocorre com muitos que conhecem bem, no essencial, tudo o que se passou, mas nada entendem da história propriamente dita, não sendo os acontecimentos humanos os únicos a ter seus monumentos, pois também a história da natureza tem os seus, jamais deixando ela uma etapa de seu caminho criador sem neles deixar marca de sua passagem, encontrando-se a maioria desses monumentos naturais diante de nossos olhos, já explorados e alguns até decifrados, permanecendo porém letra morta enquanto essa sequência de ações e produções não tiver sido interiorizada pelo ser humano, pois é pela interiorização que começa todo saber e toda apreensão conceitual. 14. Afirmaram alguns ser possível deixar de lado esse elemento subordinado e suprimir em nós toda dualidade, de modo a sermos por assim dizer apenas interiores, vivendo inteiramente no supramundano, não se podendo negar a possibilidade de tal transposição do ser humano ao seu princípio supramundano e da consequente elevação de todas as forças de seu ânimo ao estado de pura contemplação, necessitando todo aquilo que forma um todo, físico ou moral, de ser reduzido de tempos em tempos ao seu começo mais íntimo para conservar-se. * o ser humano sempre rejuvenesce e ressuscita pelo sentimento da unidade de seu ser, sentimento do qual em especial o pesquisador extrai continuamente forças novas, não sendo apenas o poeta mas também o filósofo conhecedor de tais arrebatamentos, necessários para que o sentimento da indescritível realidade dessas representações o preserve dos conceitos forçados de uma dialética vazia e sem vida * isso não equivale, porém, a exigir a permanência desse estado contemplativo, o que iria contra a natureza e contra o que determina a vida presente, pois, de qualquer modo que se considerem suas relações com a vida que a precedeu, constata-se sempre que o que ali estava unido de modo indissociável encontra-se, nesta vida, desdobrado e em parte dissociado, não vivendo nós na contemplação, não sendo nosso saber de uma só peça mas devendo engendrar-se fragmentariamente, por seções e etapas, o que não pode dar-se sem reflexão 15. Por isso o fim não pode ser alcançado na simples contemplação, pois nela como tal está ausente o entendimento, vendo todos mais ou menos a mesma coisa no mundo exterior sem que todos sejam capazes de exprimir o que veem, percorrendo cada coisa certos momentos até seu cumprimento, numa série de processos em que o posterior se encaixa no anterior e o leva à maturidade. * esse percurso, na planta por exemplo, o camponês o vê tão bem quanto o sábio, sem contudo propriamente conhecê-lo, por ser incapaz de dissociar seus momentos, separá-los e considerá-los em sua oposição recíproca, podendo do mesmo modo o ser humano percorrer em si mesmo e por assim dizer experimentar imediatamente essa sequência de processos pela qual a maior simplicidade do ser engendra, ao fim do percurso, uma diversidade infinita, devendo fazer essa experiência em si mesmo em sua consecução * sendo porém toda experiência, sentimento e contemplação por si mesmos mudos, exigindo a mediação de um órgão para exprimir-se, faltando esse órgão a quem contempla, ou sendo por ele intencionalmente recusado a fim de falar apenas a partir da contemplação sem outro intermediário, perderá o contemplador a medida que lhe é necessária, confundindo-se então com o objeto aos olhos de terceiros, não sendo senhor de seus pensamentos e perdendo toda segurança em seus esforços vãos para exprimir o inexprimível, podendo até acertar por vezes sem disso ter certeza, por sua incapacidade de erguer firmemente diante de si e contemplar em seu entendimento, como num espelho, aquilo em que toca 16. Não se deve, portanto, a preço algum renunciar a esse princípio exterior, devendo tudo primeiro ser objeto de reflexão efetiva para poder ser exposto do modo mais alto, passando exatamente aqui a linha divisória entre a teosofia e a filosofia, que todo amigo da ciência deve empenhar-se em manter com toda a nitidez. * a teosofia supera a filosofia em profundidade, plenitude e vivacidade de conteúdo tanto quanto o objeto real supera a imagem que se lhe confronta, ou a natureza sua exposição, chegando a diferença a impedir toda comparação quando a filosofia tomada como termo de comparação busca o ser em formas e conceitos, isto é, quando é filosofia morta * explica-se assim a predileção das almas interiores pela teosofia, tão compreensível quanto a predileção pela natureza em oposição à arte, tendo os sistemas teosóficos, sobre todos os demais até hoje correntes, a insigne vantagem de ao menos haver neles lugar para uma natureza, ainda que não senhora de si mesma, ao contrário dos outros sistemas onde só há gritante ausência de natureza e puro artifício * não sendo porém a plenitude e a profundidade de vida menos acessíveis a uma ciência bem compreendida do que a natureza à arte bem compreendida, alcançando a ciência essa plenitude e profundidade apenas pouco a pouco, mediatamente e por progressão gradual, permanecendo sempre distinto de seu objeto quem sabe, e este por sua vez separado, tornando-se objeto de uma contemplação serena que goza tranquilamente do que contempla 17. Toda ciência deve, portanto, passar pela dialética, questionando-se porém se não há um momento em que ela se torna livre e viva, como o é para o historiador a imagem de uma época diante da qual esquece suas pesquisas, podendo a lembrança do princípio absoluto das coisas tornar-se de novo tão viva que a ciência, que por seu objeto, e como seu nome indica, é história, o seja também segundo sua forma exterior, podendo o filósofo, semelhante nisso ao divino Platão, dialético ao longo de suas obras mas tornado histórico em seu ápice, na sua transfiguração última, retornar também ele à simplicidade da história. 18. Parece ter sido reservado à época presente abrir para sempre o caminho a essa objetividade da ciência, faltando a esta, enquanto permanece limitada ao domínio interior, o meio natural de uma exposição exterior, tendo-se agora reavivado, após muitos extravios, a lembrança da natureza e do tempo em que com ela formava uma só coisa. * não se ficou porém nisso: mal dados os primeiros passos rumo à reunião da filosofia com a natureza, foi preciso reconhecer a alta antiguidade do físico, reconhecendo que, longe de ser o último, é antes o primeiro em data, sendo por ele que começa todo desenvolvimento, inclusive o da vida divina * desde então a ciência já não começa mais no afastamento dos conceitos abstratos para depois descer deles ao natural, começando ao contrário pela existência inconsciente do eterno, elevando-a à mais alta transfiguração numa consciência divina, recebendo agora os pensamentos suprassensíveis força e vida física, e tornando-se inversamente a natureza cada vez mais a expressão visível dos conceitos supremos * verá-se em breve desaparecer o desprezo e a condescendência com que apenas os ignorantes ainda consideram tudo o que é físico, verificando-se mais uma vez a parábola da pedra rejeitada pelos construtores que se tornou pedra angular, vindo então por si mesma a popularidade tantas vezes buscada em vão, não subsistindo mais diferença alguma entre o mundo do pensamento e o da realidade efetiva, restando apenas um mundo, e anunciando-se a paz da idade de ouro primeiro na ligação harmoniosa de todas as ciências 19. Nessas perspectivas, que o presente escrito se esforçará em muitos aspectos por justificar, é lícito ousar uma tentativa muitas vezes meditada, que constitui uma espécie de treino para essa futura exposição objetiva da ciência, talvez ainda por vir aquele cantor do maior poema heroico, capaz de abraçar em seu espírito, como se atribuía aos videntes da alta Antiguidade, o que foi, o que é e o que será, não tendo porém ainda chegado esse tempo. * não devemos desconhecer nossa época: como arautos desse tempo vindouro, não queremos colher seu fruto antes de maduro, nem tampouco desconhecer o nosso, sendo nossa época ainda a da luta, não estando ainda alcançado o fim da investigação, devendo a ciência ainda ser conduzida e acompanhada pela dialética, como a palavra pelo ritmo, não podendo ser narradores mas apenas pesquisadores, pesando o prós e contras de todas as opiniões até que a opinião justa se firme indubitável e para sempre enraizada {{tag>Schelling Weltalter}}