====== MUNDO POSSÍVEL (BROWN) ====== //BROWN, Robert F. The later philosophy of Schelling: the influence of Boehme on the works of 1809-1815. Lewisburg [Pa] London: Bucknell university press Associated university presses, 1977.// Resumos: {{topic>Brown}} ---- * A separação das três potências no ser realizado de Deus torna possível a coexistência simultânea delas como totalidade, mas essa unidade orgânica ainda não se exprime de modo decisivo enquanto cada potência não se diferencia internamente em uma série de níveis. * A constituição de um todo vivo exige que cada potência se desdobre em hierarquia própria, tornando visível como cada uma contém, a seu modo, as três forças em si mesma. * O desdobramento hierárquico é movido pela força de atração, pela qual elementos com maior afinidade se aproximam de níveis superiores e elementos com menor afinidade ocupam posições inferiores. * A estrutura exemplar desse desdobramento aparece quando a terceira força no interior da primeira potência é atraída para o que lhe é superior e, por isso, é aproximada da segunda potência, enquanto a segunda força da primeira potência assume posição intermediária e a primeira força assume posição inferior. * O resultado é que cada uma das duas primeiras potências se organiza como hierarquia de formas, ao passo que a terceira potência permanece caso especial, pois não corresponde a um mundo próprio. * A diferenciação exaustiva das potências produz o mundo eterno das ideias no intelecto divino, situado fora do ser próprio de Deus e, contudo, não constituindo um mundo real separado. * Esse mundo eterno de ideias é apenas a visão do mundo possível que poderia ser criado por um querer livre, não sendo ainda mundo efetivo. * O exame do mundo possível inicia-se pela primeira potência, na medida em que ela estabelece as formas da natureza. * A natureza contém em si a substância divina inteira, porém sob predominância da força de contração, e por isso suas formas são determinadas pelo regime de limitação e corporificação. * O aspecto mais interior e oculto da natureza é a terceira força, aparentada à alma do mundo, que surge na natureza na crise em que as potências são separadas. * A terceira força em natureza fornece o vínculo da natureza inteira com seu poder superior, a segunda potência ou mundo do espírito, porque é precisamente essa essência interior, semelhante à alma, que torna possível uma relação imediata do inferior com o superior. * A relação imediata entre inferior e superior é descrita como atração quase irresistível quando o inferior oferece ao superior aquilo que, no inferior, é celeste e semelhante ao superior, instaurando mistura interior e vínculo direto. * Na primeira potência domina a força de contração, de modo que a terceira força em natureza não anula essa dominação, mas a confirma, e por isso a superação do extremo de negatividade só pode ocorrer gradualmente. * A essência interior em natureza só desperta lentamente a força de expansão, e apenas ao fim se manifesta como a verdadeira essência escondida na natureza. * As formas de natureza possível surgem como série ascendente, em que cada forma exprime algum grau de manifestação da essência total, isto é, de todas as três potências presentes de modo próprio em cada nível. * Apesar da ascensão, todas as formas retêm forma definida e corporificação, conforme convém a um domínio governado pela primeira potência. * O termo superior da série natural é a natureza humana, destinada, na criação efetiva, a funcionar como mediadora entre natureza e mundo do espírito. * A diferenciação da natureza ocorre na presença do mundo do espírito, e essa presença altera dinamicamente as relações de atração e objetificação entre os níveis. * O que é prototípico no superior torna-se real e ectípico no subordinado, e o que é real no subordinado corresponde ao protótipo no nível imediatamente superior. * O protótipo inclina-se naturalmente e de modo irresistível para seu ectipo, e por isso o superior é atraído pelo inferior em proporção determinada. * Ao ser atraído para a natureza, o superior afasta-se proporcionalmente de seu próprio superior, isto é, afasta-se da terceira potência, e nesse afastamento o superior pela primeira vez discerne no termo médio o sujeito imediato que lhe serve de base ou substrato. * Aquilo que se afasta torna-se projeção ou objetificação na qual o superior pode contemplar-se e obter visão de si, antecipando a função especular que atravessa todo o mundo possível. * As formas eternas do mundo possível aparecem a Deus em visão, como num olhar que se dá até mesmo sob a figura de um espelho, mas essas formas, por si mesmas, não possuem realidade. * A ausência de realidade própria decorre do fato de que a natureza, de que as formas procedem, retornou à potência diante da deidade, que é a única que verdadeiramente é, e permanece voluntariamente na condição do que relativamente não é. * A vida interna das formas não é absolutamente vazia, mas, em comparação com a deidade, equivale a quase nada, a um jogo que não reivindica realidade. * Deus contempla as formas sem as querer, e não está sob nenhuma compulsão de conceder-lhes existência, de modo que a existência de um mundo efetivo depende de um querer específico que lhes dê ser. * Retomando a essência espiritual oculta na matéria, o desenvolvimento das formas naturais é orientado pela meta de alcançar uma essência espiritual-corpórea perfeita, na qual a limitação corpórea serve apenas para dar figura definida ao espiritual sem reprimi-lo. * Na natureza efetiva persiste um indício desse estado ideal e primordial, e essa presença indicial é coerente com a tese de que as forças subjacentes à matéria são elas mesmas incorpóreas. * A matéria orgânica aparece mais claramente como manifestação dessa essência espiritual, e sem tal princípio mediador a transição do inorgânico ao orgânico não seria possível. * A apreensão do ser interior dos objetos naturais envolve reconhecer uma essência espiritual que os anima sob a aparência material, e essa essência é simultaneamente a mais evidente e a mais oculta. * A evidência paradoxal da essência espiritual decorre de sua aparição em mutabilidade contínua, que atrai atenção como vislumbre do real escondido em todas as coisas e que aguarda libertação. * A alquimia, apesar de suas expressões grosseiras, é apresentada como tentativa de descobrir a essência interior da matéria e os meios de controlá-la para liberar a pureza interna do invólucro grosseiro, enquanto a filosofia moderna insistiu numa separação radical entre físico e espiritual. * A separação moderna baniu as categorias mediadoras indispensáveis para explicar a interação entre corpo e espírito e para dar conta dos fenômenos da vida orgânica. * A doutrina das potências é retomada como tentativa contínua de desfazer o dualismo cartesiano, ao reinscrever corpo e espírito numa arquitetura de mediações dinâmicas. * Quando a natureza atrai o mundo do espírito, desperta nele o desejo de atrair a terceira potência, e por isso também o mundo do espírito desdobra o panorama de suas formas, segundo uma dinâmica própria distinta da natureza. * No mundo do espírito, o desenvolvimento ocorre pela liberação gradual do poder negativo da sujeição em que a força expansiva dominante o mantém. * O poder negativo emerge pouco a pouco e cresce em intensidade conforme se elevam as formas superiores do espírito, e embora a expansão permaneça dominante, as formas em que o negativo se exprime mais intensamente são qualificadas como mais divinas. * Assim como o mundo do espírito é arquétipo da natureza, a alma universal relaciona-se ao mundo do espírito de maneira análoga, sustentando a reciprocidade estrutural entre os níveis. * O sistema de relações entre as potências, a força de atração e o desdobramento consequente é designado como magia universal, e é por essa mediação que o jogo de formas se transmite a Deus pela terceira potência. * A terceira potência torna-se repositório das ideias divinas, isto é, de todas as formas das duas primeiras potências, porque nela Deus vê o que poderia tornar-se atual como natureza e mundo do espírito se fosse criado. * O termo grego idea é equiparado ao alemão Gesicht como visão que inclui tanto o ver quanto o visto, e por isso as ideias não devem ser concebidas abstratamente. * As ideias são protótipos em movimento, momentos necessários do grande desenvolvimento da vida, não formas vazias, nem conceitos de classe, nem figuras prontas e estáticas. * As ideias são eternamente em devir, em movimento incessante e em geração contínua, de modo que sua estrutura própria é processual e vital. * As ideias divinas são interdependentes, assim como no mundo efetivo cada estágio de desenvolvimento compreende os anteriores e tende aos seguintes, e essa interdependência é descrita por um encadeamento que liga cada vida à eternidade. * Cada nova vida inaugura um tempo novo e autossubsistente que se liga imediatamente à eternidade, e por isso uma eternidade precede imediatamente cada vida. * O externo é apenas elo de uma cadeia que se estende até o mais alto, reiterando que o mundo possível não é coleção de formas isoladas, mas rede encadeada de níveis de vida. * Ao lado da interdependência das potências, afirma-se a liberdade recíproca entre elas, e essa liberdade explica como as potências podem atrair-se, afastar-se e espelhar-se sem perder sua identidade própria. * A liberdade da primeira potência permite que ela atraia a segunda e se diferencie na presença dela, constituindo sua hierarquia de formas naturais. * A liberdade da segunda permite que ela se retire da terceira e se desenvolva como objetificação da terceira, formando um domínio ideal em que se espelha algo superior. * A liberdade da terceira de penetrar o conjunto das formas sem dissolver-se nelas, e também de manter-se apartada de Deus eterno, permite que ela seja o espelho em que Deus vê o conjunto das formas do mundo possível. * A interação das potências encontra reflexo em estados espirituais extraordinários da consciência humana, e a crise eterna que separa as potências possui contrapartida em estados vinculados ao hipnotismo e ao sono. * A hipótese associa o sono ordinário a uma forma atenuada de hipnose, em que o vínculo que conecta as diversas potências na vigília pode afrouxar-se. * O afrouxamento permite que potências individuais expressem-se com maior independência, ou que estabeleçam relações espontâneas entre si. * O sinal desse fenômeno no sono ordinário manifesta-se em certos sonhos de grande interioridade, difíceis de recordar ao despertar. * O hipnotismo é descrito como alteração das relações ordinárias entre dimensões do ser humano, frequentemente com efeitos benéficos, e são distinguidos três níveis, dos quais dois são caracterizados e o terceiro é recusado à especulação. * O nível inferior, o mais comum, liberta a primeira potência corpórea para assumir a relação adequada com a segunda potência espiritual, corrigindo distorções produzidas por doença que ou acentuam demais a independência do corpo ou a apagam diante do superior. * A cura ocorre pela restauração do controle do superior sobre o inferior na medida exata, sem esmagar a autonomia relativa requerida. * O segundo nível estabelece relação mais livre da segunda potência com a terceira, suspendendo sensações físicas e fazendo o espírito funcionar como espelho que revela o caráter da alma, inclusive dimensões futuras e eternas do ser. * O terceiro nível, por transcender excessivamente os estados humanos ordinários e parecer não ter sido atingido, é deixado sem desenvolvimento. * Ao concluir a seção sobre as potências na natureza humana, são propostos dois desdobramentos que retomam o tema da libertação interior e o ligam à criação espiritual e artística. * A possibilidade de liberar novamente o interior de coisas corpóreas é sugerida por analogia com a hipnose, e isso significaria trazer à luz as naturezas verdadeiras das coisas de modo que as experiências químicas não alcançam. * A exaltação extática recomendada pelos ensinamentos superiores é apresentada como promessa de alcançar todas as coisas, porque realiza em quem a experimenta a mesma separação de potências que torna possível o regime de liberdade e criação. * A liberdade interior e a independência das potências mentais condicionam toda criação espiritual, e a participação na criação depende de preservar a dualidade divina na unidade e a unidade na dualidade, pois criação requer simultaneamente jogo e segurança, liberdade e deleite recíprocos. * A figura do artista criador é retomada como paradigma daquele que exibe as ideias divinas em forma concreta, e essa função é articulada com a terceira potência como sabedoria divina e repositório das ideias. * A terceira potência é identificada como sabedoria divina, que contém as ideias pelas quais as duas primeiras potências existem como possibilidades de mundo. * A sabedoria é apresentada como brilho externo de Deus e imagem eterna de seu ser eterno, recebendo frequentemente nome feminino e sendo concebida como natureza passiva mais do que como poder ativo. * O primeiro exterior de Deus é descrito como unidade meramente passiva, não expressa e sem vontade, e por isso o gerar de imagens é apenas jogo ou deleite. * A sabedoria perpassa natureza e espírito e, ao mesmo tempo, os transcende, e enquanto ponto mais alto da vida e unidade do todo ela é preenchida de anseio para que as formas que abarca encontrem expressão como seres atuais. * O anseio da sabedoria dirige-se ao superior, isto é, ao próprio Deus, pedindo que lhe conceda ser atual e a reconheça como sua, por meio de objetificação e revelação ulterior que se cumpriria pela criação de um mundo. * Ainda que a sabedoria se ofereça como meio de revelação, não se segue que a deidade seja induzida ou compelida a manifestar-se ou a atrair ser para si, pois a ausência de compulsão preserva a liberdade eterna. * O ponto decisivo do ensaio é alcançado quando a decisão de Deus de atualizar o mundo possível é declarada radicalmente livre, sem fundamento ou causa além do próprio fato de que Deus o quer. * A intenção é tornar a doutrina voluntarista em sentido estrito, afastando a ambiguidade entre ato livre e ato necessário na criação que se reconhece nas formulações anteriores. * A atualização do possível não deriva de tendência inevitável de ser revelar-se, mas se fixa como decisão sem outro motivo senão o querer divino, preservando a liberdade como princípio supremo do ato criador. {{tag>Schelling Brown}}