====== HOMEM, O PODER SER (PM) ====== //SCHELLING, Friedrich Wilhelm Joseph von. Philosophie de la mythologie. Tradução: Alain Pernet. Grenoble: J. Millon, 1994. Extrato da Lição 7// O princípio, o ponto de partida da análise, é-nos fornecido pela explicação anterior. O homem (ou seja, o homem original) não é mais do que o poder-ser que, em toda a natureza, estava fora de si mesmo, mas que, reconduzido ao homem em si mesmo, é, portanto, dado a si mesmo, possui a si mesmo, o poder-ser senhor de si mesmo. Este poder-ser senhor de si mesmo (o homem) é, consequentemente, 1) o senhor (Mächtige) do poder-ser, mas 2) é precisamente por isso que ele tem em si mesmo o poder-ser como aquilo de que é senhor, de certa forma como ὕλη, como matéria do seu poder — . Ele é, por assim dizer, um duplo poder-ser: 1) aquele que é senhor do poder-ser, 2) aquele de quem o primeiro é senhor, e esse poder-ser é agora — atuante, efetivamente — o ser em si mesmo (e não mais fora de si mesmo), ora, somente nele é superada a efetividade, e não também a possibilidade do ser-fora-de-si-mesmo, e essa possibilidade inerente, inabalável — não propriamente colocada, mas também inegável — essa possibilidade do ser-outro inerente a ele, não exclusiva — essa dualidade insuperável e insuperável, é o começo — embora ainda exteriormente oculto e até agora apenas possível —, é o possível começo de um <8 (142)> novo movimento —; esse poder-ser que consiste no domínio sobre si mesmo pode se reverter novamente, essa possibilidade não lhe é retirada, ele é a natureza ambígua (natura anceps), τό περιφερές, do nome com que os pitagóricos chamavam esse princípio 2, o que pode se reverter e se tornar outro, de comum acordo, ele é a dualidade ou [a] Díade, como é δυάς ou dualidade, segundo sua natureza, todo princípio que é isto que é não o sendo, por exemplo, A: é, isto é, presentemente e na medida em que não se move, não é, isto é, não sem poder ainda se tornar o contrário. Ora, tomada isoladamente, a simples possibilidade não é nada, ela só é algo se atrair para si [revestir] a vontade, aquilo a que está destinada, se o que é senhor de si mesmo se aliar a ela, – se a quiser. Na medida em que essa possibilidade nada pode por si mesma e [permanece] estéril (não gera nada) se a vontade (o poder de ser senhor de si mesmo) não se alia a ela, essa possibilidade aparece como simples feminilidade, a vontade como masculinidade – isso já é uma expressão mitológica, e aí temos, já estabelecida, a base da dualidade genérica das divindades mitológicas, que vai crescendo e se ramificando. – Devemos notar, além disso, que podemos imaginar o momento absolutamente primeiro no fato de que essa possibilidade ainda não se mostra àquilo que a domina, estando este último ainda em uma feliz ignorância a seu respeito. Ora, o ser (Seyn) ainda na ignorância a seu respeito faz de todo o ser desse momento, do ser daquilo que o domina, um ser contingente, que também pode ser outro, portanto, ele próprio ainda equívoco. Essa ambiguidade não pode, de certa forma, persistir, ela precisa ser resolvida. Ela não pode persistir, digo eu, e com isso enuncio, em suma, uma lei que proíbe que nada persista na indecisão, uma lei que exige que nada permaneça oculto, mas que tudo se manifeste, que tudo seja claro, nítido e decidido, para que todo inimigo seja dominado e que possa ser estabelecido o ser perfeito, sereno. Essa é, de fato, a lei universal do mundo, sua lei suprema, suspensa acima de tudo. {{tag>Schelling mitologia}}