====== 5.1 Vontade como superação ====== //SCHUBACK, Marcia Sá Cavalcante. O Começo de Deus. A filosofia do devir no pensamento tardio de F.W.J. Schelling. Petrópolis: Editora Vozes, 2021.// **5.1. Vontade como superação de si mesma: tendência de não-vontade** * Na filosofia tardia de Schelling, a vontade é essencialmente superação de si mesma, razão pela qual o ser originário pode ser pensado como vontade apenas enquanto esta se ultrapassa e se transforma. * A relação entre vontade e devir não deve ser compreendida segundo a lógica dialética da superação, mas a partir da base ontológica pela qual a vontade moderna surge como força de oposição e transformação da substância. * A história moderna converteu essa força em voluntarismo ao tomar a vontade como sujeito e fundamento de si mesma. * Schelling distingue a vontade desse voluntarismo porque a verdadeira vontade inclui essencialmente a não-vontade como condição de sua própria superação. * O problema decisivo passa a ser, assim, se é possível querer o não-querer de modo suficientemente radical para acolher o próprio ser. * O longo silêncio anterior às preleções tardias de Schelling já manifesta filosoficamente essa vontade de não-vontade, embora tal expressão apresente um paradoxo difícil de formular conceitualmente. * A imagem da natureza de muitos nomes exprime a inapreensibilidade da vontade de não-vontade, cuja vitalidade consiste em nunca permanecer definitivamente idêntica a uma única determinação. * O silêncio correspondente a essa experiência não é ausência ou impotência, mas plenitude inexprimível, semelhante à figura de Polímnia, cujo encobrimento preserva a possibilidade de múltiplos nomes. * Esse silêncio exige uma transformação da própria filosofia, pois pensar a vontade da não-vontade significa repensar simultaneamente a essência do filosofar e do acolhimento do ser. * As Preleções de Erlangen articulam por isso a investigação da vontade com a determinação da filosofia como saber da totalidade. * A interpretação da filosofia schellinguiana somente pode partir do mesmo acolhimento originário do ser que sustenta sua concepção, e não de categorias externas previamente estabelecidas. * Natureza e fundamento coincidem na vitalidade constitutiva que jamais se fixa inteiramente em algo determinado, pois o fundamento se retrai em toda existência para conservar aberta a possibilidade de novo devir. * Existência e fundamento distinguem-se sem separar-se, mediante um entre-emergente no qual a possibilidade permanece ativa. * A doutrina das potências pretende justamente pensar essa possibilidade como força que se potencializa ao retrair-se diante de cada realização. * A diferença entre fundamento da existência e existência manifesta a identidade entre ser e devir como abertura da possibilidade, de modo que o “ser é” exprime um começo que nunca se esgota naquilo que efetivamente existe. * A possibilidade permanece possibilidade precisamente porque nenhuma realização a consome por completo. * O eterno começo só é livre porque pode começar e também não começar, não estando submetido a nenhuma necessidade anterior. * A eterna liberdade não consiste no que necessariamente deve ser, mas no poder-ser que inclui integralmente a possibilidade de não-ser. * A liberdade originária é poder sem objeto e vontade sem finalidade determinada, anterior tanto ao querer alguma coisa quanto ao não querer, permanecendo numa indiferença que inclui a possibilidade de toda diferenciação posterior. * Poder-ser podendo não-ser define a possibilidade em sua forma mais radical, pois toda determinação concreta já introduz limitação e necessidade; o poder originário é, portanto, sem intenção e anterior a qualquer visão previamente determinada. * A possibilidade manifesta-se como tensão entre expansão e retração, exteriorização e retorno, sem possuir ainda um objeto ou finalidade determinada. * Essa tensão não se dirige para algo exterior previamente estabelecido, mas constitui a própria tendência originária do ser. * A intenção só aparece quando essa tendência já assumiu determinada configuração existencial. * A tradição moderna passou a designar essa tendência pelo termo vontade, mas progressivamente submeteu a possibilidade à intenção e ao propósito, convertendo a potência livre do devir em poder de determinação e domínio. * A consolidação moderna da vontade como propósito antecipado transforma o futuro em princípio regulador do começo e obscurece a liberdade originária da possibilidade. * A vontade integral schellinguiana, ao contrário, não é vontade de algo nem vontade de nada, mas pura tensão do possível. * Antes de realizar-se como querer determinado, essa vontade permanece serena e em repouso. * A vontade asserenada, [[lx>termos:g:gelassenheit|Gelassenheit]], deixa ser a possibilidade e abandona a compulsão de querer algo determinado, constituindo por isso a forma propriamente filosófica de uma vontade da não-vontade. * Essa concepção antecipa a proximidade posterior entre Schelling e Heidegger na tematização da serenidade. {{tag>Schelling Schuback vontade começo}}