====== Presença do hermetismo nos romances do Graal ====== //SANSONETTI, Paul-Georges. Graal et alchimie. Paris: Berg, 1982.// Já abordamos o tema da presença do hermetismo nos romances do Graal, especialmente em Perceval, de Chrétien de Troyes, durante a redação de nosso Doutorado em Letras, intitulado //O Corpo de Luz na Literatura Arturiana// ((Sob a direção de G. Durand, S. Vierne e J. Ribard, defendido em 7 de março de 1980 na Universidade de Grenoble III)). Na época, ainda não conhecíamos o impressionante trabalho de P. Duval, //O Pensamento Alquímico e o Conto do Graal// ((Paris, 1979)). Na nossa visão, o autor tem o grande mérito de direcionar sua pesquisa não apenas para o hermetismo—nesse aspecto, só se pode louvar a excelência de sua demonstração—mas também para o xamanismo. Seguindo a linha de nosso doutorado, pareceu-nos indispensável aproximar certos temas arturianos das tradições do norte da Europa (//celtas// e //germânicas//), anteriores ao cristianismo. Da mesma forma, é um tema bem conhecido que as catedrais foram erguidas sobre antigos locais de culto pagão. A literatura do Graal, como já estabeleceram renomados pesquisadores, está repleta de reminiscências celtas… mas também germânicas, podemos acrescentar. As duas civilizações eram tão semelhantes! E foi G. Dumézil quem demonstrou brilhantemente a proximidade dos temas mitológicos entre esses dois ramos indo-europeus. Assim, no presente relato, não será surpresa ver surgir, no início e, sobretudo, no final—em um momento solene—, a imagem de um imenso pilar, no qual foram cravados pregos de ouro. Trata-se, certamente, do //Eixo do Mundo//, mas como não pensar no //Irminsul// ou na //Coluna do Céu//, evocada por Rodolphe de Fulda, especialmente porque os //pregos de ouro// estão presentes na religião escandinava sob o nome de //Reginnaglar// (literalmente, //pregos dos Poderes//). Dito isso, Jacques Ribard, já em 1972, nos ofereceu um estudo valioso e exemplar, //O Cavaleiro da Carreta//, cujo subtítulo, //Ensaio de Interpretação Simbólica//, esclarece seu propósito. Exemplar, de fato, e isso por sua rigorosa abordagem, sem ser árida, pois a //senefiança*—para usar um termo querido pelo autor—de cada imagem-chave do romance de Chrétien é delineada com tanta precisão que se destaca como uma iluminura. Também devemos mencionar a obra abrangente de Paule Le Rider, *O Cavaleiro no Conto do Graal// ((Paris, 1978)), assim como outro trabalho frequentemente citado em nossa pesquisa atual: o de P. Gallais, //Perceval e a Iniciação// ((Paris, 1972)). Desde já, afirmamos que não é nosso propósito declarar categoricamente ou demonstrar, com provas, que o (pseudo) //Wauchier de Denain// introduziu deliberadamente em seu relato toda uma simbologia anterior ao cristianismo, ou que se trata de um tratado de hermetismo. No entanto, pareceu-nos essencial descobrir que "ressonância" simbólica e alquímica emanava dessas aventuras de //Perceval//. Convém esclarecer que esse relato (assim como outros romances arturianos) impõe-se como um reflexo do clima simbólico da época: a arte românica, seguida da arte gótica, a ciência heráldica, os escritos de //Herrade de Landsberg//, //Hildegarda de Bingen// e //Alain de Lille// (para citar apenas esses três autores preocupados com a relação entre o //Homem// e o //Cosmos//) revelam uma unidade de concepção no nível das imagens simbólicas. Descobrir a época de //Chrétien de Troyes// e de seus continuadores é perceber a //onipresença do símbolo//. Para um pensamento dessa época, assim como para qualquer civilização tradicional, o mundo só é coerente se for //significativo//, repleto de //signos//. O relato de //Wauchier// não deixa de multiplicá-los. Por isso, optamos por deixar que esses sinais, ou melhor, o que eles expressam, nos falem e convoquem outros símbolos. Estabelecem-se paralelos com o universo dos hermetistas, mas também com toda uma simbologia proveniente de tempos esquecidos ou desconhecidos na era de //Wauchier//: silhuetas da //Idade do Bronze// e da //Idade do Ferro// se justapõem aos personagens do relato; figuras do paganismo emergem entre duas evocações dos evangelhos. Nada disso é contraditório ou caótico—muito pelo contrário!—pois esses dois //fluxos// são constantemente reconciliados pela //mensagem do hermetismo//, que, mais uma vez, não afirmamos estar presente diretamente no relato de //Wauchier//, mas sim em paralelo a ele. Esses signos podem ser definidos como Forças que tomam Forma... //Força//, //Forma//: escreveremos essas palavras com maiúscula para destacá-las da banalização imposta pela linguagem contemporânea. Outros termos também merecem essa distinção, como //Presença//, por designar uma entidade urânica, e //Via//, pois conduz ao Graal, isto é, à radiância divina. Assim, como imagem introdutória para nosso estudo, escolhemos este trecho do //Peredur//, a história de //Perceval//, mas apresentada como um conto bárdico galês. A ação se passa no castelo do Graal, onde o senhor do lugar, //"um homem de cabelos brancos, majestoso"//, mostra ao herói um objeto: //"No chão da sala, havia fixado um grande grampo de ferro, que a mão de um guerreiro mal poderia deslocar."// "Pegue essa espada", diz o velho a //Peredur//, //"e golpeie o anel de ferro."// Peredur se levantou e golpeou o anel, que se partiu em dois pedaços—assim como a espada. //"Junte as duas partes e una-as."// Peredur as colocou juntas, e elas se fundiram como antes. Mais uma vez, o herói quebrou e recompôs o anel e a espada. Ele tentou uma terceira vez, mas então //"os pedaços do anel e da espada já não puderam ser reunidos."// "Muito bem, jovem", disse o velho, //"isso basta... Você é o maior espadachim de todo o reino. No entanto, possui apenas dois terços de sua Força, e ainda lhe resta adquirir a terceira parte..."// ((Les Mabinogion, contos bárdicos galeses, Paris, 1979, p. 202)). A capacidade do herói de ressoldar misteriosamente o anel e a espada prova que essa Força não deriva de um mero potencial muscular: uma Força sobrenatural está em ação—destruindo e recriando duas vezes, afetando a estrutura molecular do metal. Essa Força teria sido completa se tivesse atuado por três vezes. Como símbolo, o anel está presente em diversas tradições—particularmente no hermetismo—sempre com o significado de uma Força fechada sobre si mesma, que deve ser rompida ou reconstituída, conforme o objetivo seja quebrar um confinamento ou restaurar uma totalidade. A alquimia falará de //Solve// e //Coagula//. Quanto à espada quebrada e ressoldada, ela representa, de fato, uma mesma Força de duplo efeito, aplicada não ao princípio de uma totalidade, mas ao de uma axialidade. O anel, a espada e o número três—um autêntico ritual—reaparecerão no relato de //Wauchier//. Outro exemplo poderia ser o //Lia Fail//, ou Pedra da Soberania, que na tradição irlandesa solta um grito quando o rei legítimo coloca seu pé sobre ela. Aqui, mais uma vez, trata-se de uma Força sobrenatural, que para se manifestar, toma Forma. Essas diferentes noções, complementares entre si e indispensáveis para a leitura simbólica da //Segunda Continuação//, serão desenvolvidas sob o título geral de "Forças e Formas" na primeira parte. Depois disso, restará apenas seguir Perceval em sua jornada iniciática. {{tag>graal hermetismo}}