Desde que Deus se entenda como não onipotente, todas as dificuldades desaparecem qual por encanto; e as antinomias de Kant logo logo se resolvem. Nem Deus é indiferente à nossa dor nem a sua maldade possível nos alucina. Ele não goza duma plena felicidade egoísta; também ele sofre, da diminuição do espírito puro e do mal da criatura, espírito alterado, ascendendo na sua convergência de regressão.[^]
A cisão permite, à maneira pré-socrática, explicar a passagem do uno ao múltiplo, do homogêneo ao heterogêneo, do tempo puro ao tempo degradado, espaço chamado. Transforma o Deus sive natura de Espinosa, o uno e homogêneo, no múltiplo e heterogêneo, já que a queda inaugural é geradora de profundas alterações ontológicas: um ser puro, mas diminuido e um ser separado, ou universo; um tempo imóvel ou eternidade e um tempo alterado, espaço chamado. Assim, dirá:
No princípio era a Perfeição, o espírito homogêneo e puro. No segundo momento, mercê do efeito dum mistério, temos o espírito diminuído e a seu par a diferença que se tornou heterogênea, isto é o mundo. No terceiro momento, reintegrar-se-á o espírito puro, pela absorção final de todo o heterogêneo. Assim, três são os instantes supremos do crescimento. Um: é o espírito homogêneo e puro, que foi e há-de voltar a ser. Eis o ponto de partida e eis o ponto de chegada. Outro: é o espírito puro mas diminuído atualmente, pelo destaque separativo do Universo. Enfim, o outro ainda: é esse Universo, que aspira a regressar ao homogêneo inicial.
Nós não podemos compreender como foi esse mistério da diferenciação de parte do espírito puro. Porém, que ele dado se houvesse é necessário: para que, um tanto inteligentemente o enigma universal nos seja, ainda que em seu limiar, acessível (Op. cit., p. 343-344).
Situando o mistério no início de toda a ciência humana e divina, aceitando a queda misteriosa no seio da própria perfeição, Bruno parece deslocar as origens solares da filosofia, para as suas profundidades crepusculares ocultas. No princípio era a cisão misteriosa, ou o mistério como princípio seminal da filosofia. A partir do mistério da cisão, o mal e o erro tornam-se, então, noções fundamentais, reais e razoáveis na sua irracionalidade, já que a queda que afeta o Espírito puro, afeta também a Verdade e o Bem, podendo considerar-se Sampaio Bruno, como diz José Marinho, "o nosso primeiro filósofo da negação e da negatividade"[^].
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