====== 1 A revanche do real ====== //ROSSET, Clément; LACROIX, Alexandre. La joie est plus profonde que la tristesse : Entretiens avec Alexandre Lacroix. Paris: Stock, 2019.// **A realidade sempre acaba se impondo** Alexandre Lacroix pergunta o que é um pedaço de camembert. O camembert, como todo objeto real, é singular e indescritível em si mesmo, pois toda descrição procede por comparação com um outro objeto tomado como padrão de referência. * A alcunha de "teólogo do camembert" (théologien du camembert), dada por Vincent Descombes, alude à página de L'Objet singulier (1979) que pastiche a passagem da segunda meditação de Descartes sobre o pedaço de cera. * O camembert pode ser comparado ao livarot ou ao pont-l'évêque, mas seu sabor próprio, sobretudo quando é bom, escapa a qualquer descrição. * O camembert é seu próprio molde (patron), no sentido do termo na costura, tal como o Rei Sol, de quem um cortesão dizia ser difícil fazer o elogio, por ser semelhante a nenhum outro e comparável apenas a si mesmo. Alexandre Lacroix pergunta o que se deve entender pela definição do real como "conjunto não fechado de objetos não identificáveis". O real é um conjunto de objetos indescritíveis e incontáveis, do qual não se sabe se é finito ou infinito, e por isso "não fechado" (non clos), definição que equivale a dizer que não existem dois fios de grama idênticos. * Os números primos, divisíveis apenas por si mesmos e por um, são números tautológicos, feitos somente de si, e ilustram a singularidade de cada objeto. * Nada existe fora do real: não há mundo por trás (arrière-monde) nem espelho fiel em que o mundo possa se contemplar. Alexandre Lacroix pergunta, diante da moda do virtual, qual o estatuto das relações nascidas em jogos on-line e redes sociais: reais ou irreais. Os ambientes ditos virtuais levam ao ápice a doença do divertimento pascaliano (divertissement), e o real, por mais que se tente escapar dele, sempre acaba por cobrar sua revanche. * Viver dos seis aos noventa anos sem passar um minuto no mundo causa admiração, e a frase de Baudrillard, "o real nunca interessou a ninguém", exprime exatamente esse estado, embora sua obsessão tecnológica o mantenha distante. * As pessoas preferem viver na ilusão, comprazendo-se em um falso presente, mas nem o divertimento nem um sistema metafísico impedem o retorno do real. * Raimundo Lúlio, pensador medieval nascido em Maiorca no século XIII, dedicou a juventude aos prazeres, sobretudo às mulheres, isto é, mostrou-se de início muito sábio; depois, numa montanha, teve uma iluminação religiosa e concebeu uma ars magna, demonstração racional tão rigorosa que converteria todos os homens ao cristianismo. * Levado à costa norte-africana, Lúlio pregou em árabe com seus silogismos afiados e foi apedrejado pelos ouvintes, saborosa revanche do real, pois a realidade passa pela sensação: quando uma pedra é atirada, não é a ideia de pedra que se esmaga no rosto. Alexandre Lacroix observa que as religiões estão na mira dessa filosofia realista. As religiões têm sua fonte implícita na fabulosa propensão humana a recusar a realidade, e sua força vem do duplo maravilhoso (double) da vida terrestre que oferecem e dos mundos por trás que edificam. * Os monoteísmos prometem um paraíso, e nenhum duplo é mais sedutor que o paraíso de Alá, muito mais fascinante que a afirmação da existência de Deus, entidade vaga e problemática. Alexandre Lacroix nota que a menção a Lúlio não é acaso, pois essa filosofia deve muito a Maiorca e à cultura espanhola. A família passou quinze anos na Espanha antes do nascimento, até a guerra civil, e o pai, apaixonado por Maiorca, comprou ali uma casinha, Ca'n Cunieta, herdada depois, de modo que a ilha é uma espécie de paraíso na terra e o lugar de uma educação sentimental, que ensina serem indissociáveis a alegria e o sentimento trágico da vida. * Falar de temperamento espanhol é tolice, como a do inglês que, ao desembarcar em Calais, concluiu serem ruivas todas as francesas por ter visto uma passante ruiva, mas há traços nacionais marcantes: a alegria, o senso de festa e o gosto de viver expressos na música e nas danças, sobretudo as aragonesas, boleros e jotas, preferidas às andaluzas, mais austeras. * Na Espanha a dimensão ontológica, o sentido do que existe, é ausente e só o parecer tem consistência: o mundo é uma porta magnífica que não abre para nada, tudo é de papelão (carton-pâte), e o país é o do fenomenismo (phénoménisme) por excelência. * Baltasar Gracián descreve o mundo como aparência e afirma que o que não se vê é como se não fosse, e as ideias "nada vale nada" e "a alegria de viver é infinita" se aliam, como nas divisas "tudo está perdido, sejamos alegres" e "tranquilizemo-nos, tudo vai mal". * Essa concepção impregna a cultura espanhola, do Dom Quixote de Cervantes às composições de Manuel de Falla: só existe o real, e o real dispensa alegria. Alexandre Lacroix pergunta se não é contraditório que o real dispense alegria e que os humanos, ainda assim, não cessem de fugir dele. Um sonho recorrente, em que chega uma convocação oficial e cortês para comparecer à prisão central de Londres e ser enforcado, encena o caráter inelutável da morte, e a finitude, com a perspectiva intolerável do envelhecimento, basta para explicar a obstinação humana em se desviar da realidade. * O tom de grande cortesia é o que há de engraçado, pois o remetente não duvida de que o destinatário irá de bom grado à própria execução. Alexandre Lacroix pergunta se há relação entre essa negação do real por angústia da morte e o recalque (refoulement) freudiano. Não há, pois Freud trata dos mecanismos de recalque em indivíduos neuróticos, ao passo que a eliminação do real pela via do duplo é o procedimento das pessoas normais, muito mais difíceis de curar que os doentes. Alexandre Lacroix pergunta como conciliar o convite a tomar consciência do real, por desagradável que seja, com a afirmação de que a filosofia proposta é alegre. As razões de execrar a realidade ou de adorá-la são as mesmas, e a diferença entre o deprimido e o alegre reside no apetite de viver, isto é, no desejo, cuja extinção é a infelicidade absoluta. * Não sabemos quem somos nem de onde viemos, o real é muitas vezes desagradável ou injusto, cada sensação é fugaz e estamos destinados à morte, e desse quadro se pode sucumbir ao abatimento ou se alegrar a cada instante. * A depressão se caracteriza pela ausência de desejo, que começa pelo sexual e passa pela comida, de modo que nem pratos sublimes despertam vontade. * Desejar é sintoma de saúde miraculosa, e o melhor dos mundos não é aquele em que se obtém o que se deseja, mas aquele em que se deseja alguma coisa (cf. Principes de sagesse et de folie, 1991, cap. 2). * Por isso o real não faz obstáculo ao desejo, que é a atitude mais sã diante do real. Alexandre Lacroix lembra o episódio depressivo evocado em Route de nuit (1999) e pergunta que olhar se lança, quinze anos depois, sobre esse período. A melancolia é uma casa de muitos cômodos, e a depressão nervosa é antes de tudo uma crise existencial, uma crise de identidade e uma perda de realidade. * Há imensa fadiga e nojo de viver; já não se sabe quem se é nem se pertence a si mesmo. * Perguntar-se se as chaminés vistas pela janela são apenas cenário de cinema é péssimo sinal. * O principal sintoma, descrito em Route de nuit, surgia ao despertar: após uma noite tranquila, abrir os olhos dava a sensação de estar em um país desconhecido, horrível e assustador, com forte angústia e aniquilamento psicológico completo, felizmente de curta duração. Alexandre Lacroix pergunta se esse estado foi superado. Sem escuridão não haveria luz, e se tudo é róseo nada é róseo (como dizia Jankélévitch): a alegria é o estado primeiro e mais profundo de todo ser vivo, embora possa resultar de uma melancolia superada, e a capacidade de admitir a parte trágica do real é a pedra de toque da saúde moral e da alegria. * O ponto de partida é a consciência do trágico da existência: tudo está destinado a desaparecer, a morte nos cerca e somos ameaçados por nossa própria inconsistência. * A tentação de recusar em bloco essas considerações desagradáveis é forte, e essa recusa do trágico, portanto da realidade, se paga muito caro. * A história da filosofia se divide em dois eixos: os que dão lugar ao trágico, como Pascal e Nietzsche, e os que se empenham em evacuá-lo pela racionalização excessiva do mundo, como Platão, Kant e Hegel. Alexandre Lacroix pergunta, quanto à tradução política desse realismo, se se condenam as utopias e ideologias que pretendem mudar o mundo. Quem se põe na cabeça melhorar a sorte do próximo, como Marx ou Lênin, produz desastre, pois os atingidos pelo vírus do bem são os mais perigosos para os outros, e as utopias costumam provocar desastres em vez das melhorias esperadas. * Os altermundialistas (altermondialistes) são o caso mais notável da atualidade, e o próprio termo repete, no plano político, a aberração metafísica de Platão, que prefere as ideias às coisas, de Baudelaire ("Em qualquer lugar! Em qualquer lugar! contanto que seja fora do mundo") e de Cioran ("Deem-me outro mundo ou sucumbo"). * O slogan "um outro mundo é possível" pressupõe uma duplicação ilusória deste mundo, e o desígnio de trocar o mau mundo por um melhor é absurdo. * Na École normale supérieure, o professor Louis Althusser e uma geração de intelectuais se convenceram de que só o marxismo e a psicanálise eram ciências exatas, sendo o resto, inclusive matemática e física, duvidoso, e diziam-se materialistas enquanto cultivavam a utopia revolucionária, inconsequência flagrante. * Não há hostilidade ao progresso, pois ser realista em política não significa aderir ao campo conservador ou reacionário; só há o real, e é a partir dele, não de um mundo perfeito imaginado, que se pode produzir melhorias. Alexandre Lacroix observa que, apesar do convívio com Deleuze e Foucault, esse trabalho se situa à margem do pensamento francês dos anos 1970, do estruturalismo e da French Theory. O talento de Foucault é reconhecido, mas o caráter sistemático de sua crítica da violência burguesa e das relações de dominação na escola, nos hospitais e nas prisões causa desconforto, assim como seu fascínio pelos loucos. * Não é verdade que os médicos tenham inventado a loucura ao banir certos membros da sociedade, pois isso ignora a dimensão propriamente patológica e até fisiológica das psicoses, e a atração proclamada pela loucura talvez fosse uma pose. * Anedota: Foucault e Clément Rosset foram assediados pela mesma mulher com psicose erotomaníaca, que assistia às aulas, seguia-os na rua e os inundava de cartas; livre dela, Foucault viu-a voltar-se para Rosset, que lhe pediu conselho e ouviu, em tom de evidência: "Nesses casos, só há uma solução: os tiras!" (les flics). Alexandre Lacroix pergunta se o apolitismo seria a principal divergência com Foucault. A divergência decorre da concepção do trabalho filosófico, que nunca trata do momento presente, pois a filosofia, desde suas origens chinesas, hindus e gregas, não se relaciona com questões políticas ou de atualidade, nem permite viver mais sabiamente o cotidiano. * Ela trata de problemas ligados não às circunstâncias, mas à condição humana ou ao ser das coisas em geral, o que se chama "filosofia primeira" (philosophie première). * O único benefício esperável não está em progressos materiais rápidos, mas em um aumento de luz, um melhor conhecimento do homem e das coisas. Alexandre Lacroix objeta que se poderia censurar o longo desvio pela filosofia para chegar a uma conclusão evidente, à qual o bom senso já chega: só existe o real e nada mais. Pascal mostrou, de forma definitiva, que há três categorias de pessoas, os ignorantes, os semi-hábeis (demi-habiles) e os hábeis, e que o erro nunca vem dos ignorantes, mas dos semi-hábeis, que introduzem sofisticações supérfluas e refinamentos teóricos enganosos para se valorizar. * O desejo é facilitar o acesso a verdades que valem também para os espíritos simples. * Heidegger escreveu que o caminho das coisas próximas sempre foi para o homem o mais longo e difícil, afirmação com a qual se concorda, apesar das poucas afinidades com esse pensamento. * O trabalho consiste apenas em desobstruir o caminho até algumas evidências. {{tag>Rosset entrevista Lacroix}}