====== 1 Escudo de Aquiles ====== //ROSSET, Clément. L'endroit du paradis: trois farces. Paris: Les Éditions de Minuit, 2014.// **Da alegria de viver** * A alegria de viver, parodiando Aristóteles, constitui uma substância totalmente independente de seus "acidentes": está exposta a interrupções, como a tortura física ou moral e a morte, mas estas não são acidentes da alegria; onde ela reina, nenhum fato ou circunstância a perturba, pois é alheia ao factual (l'événementiel), e as melhores como as piores circunstâncias pouco a afetam, como resume Pascal ao dizer que traz em si mesmo seus nevoeiros e seu bom tempo, e que até o bem e o mal de seus negócios pouco influem. * Essa alegria, que não é alegria de coisa alguma em particular, costuma ser assimilada, com justeza, a uma fruição do chamado maravilhoso cotidiano, expressão aparentemente oximórica, já que o cotidiano é alheio ao extraordinário. * A alegria de viver aproxima-se não de um motivo excepcional de regozijo, mas do simples prazer de acertar um cozido de carne com legumes (pot-au-feu) ou uma fondue savoiarda; como os vinhos medianos porém honestos, é então uma pequena alegria para todos os dias. * Distinta é a alegria de viver para sempre, permanente (salvo grande motivo de luto), independente, que existe sem razão de sua própria existência, e não em razão de motivos que a fariam existir, como uma obra-prima culinária. * Em que consiste a alegria de viver? Os filósofos mais qualificados para saber, como Spinoza, Leibniz e Nietzsche, não souberam ou não puderam responder. * Nem o instinto vital nem o instinto sexual, os mais invocados, respondem: apenas deslocam o problema, disfarçando-o (l'affublant) com outras palavras igualmente impenetráveis. * A existência é fonte de alegria (ser triste é sentir que se existe menos, diz Comte-Sponville após Spinoza), mas resta saber por que e em quê; o prazer sexual é de intensidade indiscutível, mas, embora todos o tenham experimentado, ninguém o definiu. * As razões que explicariam por que a vida é desejável, e até infinitamente desejável, sempre estiveram ausentes da chamada (manqué à l'appel) ou apresentaram apenas motivos incompreensíveis e opacos. * Todos consideram instintivamente a privação da vida o pior dos males, mas ninguém soube explicar por quê; permanece na sombra o que faz o preço da vida, seja-se rico ou pobre, feliz ou infeliz. * Esse preço jamais foi analisado nem descrito, como se fosse tão evidente que definir-lhe o teor parecesse quase absurdo: as afirmações dele são inúmeras, mas as definições nunca foram produzidas. * As palavras de Aquiles entre os mortos, no canto XI da Odisseia, ilustram de modo impressionante essa aporia, uma afirmação incondicional desse preço, porém sem nenhuma premissa (sans aucun attendu). * Descido aos Infernos, Ulisses encontra Aquiles morto e o lisonjeia, perguntando se se viu ou se verá felicidade igual à sua: outrora honrado como um deus, agora exerce poder sobre os mortos, e para ele nem a morte é triste. * Aquiles responde que Ulisses não lhe maquie a morte (ne me farde pas la mort): preferiria viver como vaqueiro a serviço de um pobre lavrador a reinar sobre todo aquele povo extinto. * O que a inteligência não consegue esclarecer, a poesia, como toda forma de arte, às vezes consegue fazer entrever e sentir; no domínio literário, nenhum texto supera, quanto à alegria de viver, a descrição homérica da confecção do escudo de Aquiles por Hefesto, no canto XVIII da Ilíada. * A descrição do "ferreiro divino" forjando o escudo parece a alguns longa e até enfadonha. * Estranha-se que o poeta se detenha numa decoração que, do ponto de vista épico e da ação, é mero detalhe, e também a dimensão de tal ornamento, que exigiria não um único escudo, mas muitos, ou um escudo tão vasto que cobrisse toda a Grécia. * A confecção do escudo marca uma pausa no relato: ação e tempo se detêm, como na Ode sobre uma urna grega de Keats, mas começa um encantamento que rompe radicalmente com o resto da Ilíada. * A Ilíada, como a Odisseia, é narrativa e não pintura; o escudo, ao contrário, é pintura, ou antes escultura, que não relata fato algum, ainda que por vezes com micro ou pseudoeventos (pseudo-événements). * Se uma parte narra eventos de guerra, a outra descreve ou sugere o estado de paz e a felicidade não factual a ele ligada; o texto grego mais próximo é uma passagem de A Paz, de Aristófanes (v. 1140 ss.), que evoca as alegrias da vida cotidiana, possíveis só em tempo de paz. * O início da descrição mostra Hefesto forjando um escudo grande e sólido, com tripla borda luminosa, boldrié de prata (baudrier) e cinco placas, ornado de decoração variada e feita com arte sábia. * Nele figuram a terra, o céu e o mar, o sol infatigável, a lua cheia e todas as constelações que coroam o céu: Plêiades, Híades, o robusto Órion e a Ursa, também chamada Carro, que gira sobre si vigiando Órion e é a única a não banhar-se no Oceano. * Forjam-se ainda duas cidades de homens mortais. * Na primeira, há núpcias e festins: noivas conduzidas pela cidade à luz de tochas, canto nupcial por toda parte, rapazes dançando ao som de flautas e cítaras, e mulheres à porta de casa, maravilhadas. * Na praça, uma multidão se reúne em torno de uma querela: dois homens disputam o preço do sangue de um morto, um afirmando ter pago tudo, o outro negando ter recebido algo, e ambos recorrem a um juiz. * O povo grita por um lado e por outro, arautos mantêm a multidão afastada, e os Anciãos, sentados em pedras polidas no círculo sagrado, levantam-se cetro em punho e julgam um após outro; dois talentos de ouro aguardam quem emitir o parecer mais reto. * Segue-se a alusão à segunda cidade, sitiada por dois exércitos, com um duro combate que evoca muitas passagens da Ilíada. * Depois vêm um grande campo fértil e seu lavrar minucioso ("uma maravilha de arte", diz Homero de Hefesto, ferreiro divino e escultor genial). * Vem também um domínio real, com ceifeiros ajudados por enfeixadores (botteleurs) e crianças, um rei silencioso de coração "em júbilo", e arautos e mulheres preparando a refeição de todos, espalhando "muita farinha branca" (force farine blanche). * Por fim, uma bela vinha, onde moças e rapazes "cheios de ternos pensamentos" carregam a colheita em cestos trançados, enquanto um menino os anima cantando ao som da cítara e outros lhe respondem dançando, cantando e gritando em coro, com pés saltitantes. * O final desse pequeno poema (mini-poème) incluído no canto XVIII traz um rebanho de vacas de chifres retos, feitas de ouro e estanho, que correm mugindo do estábulo ao pasto, ao longo de um rio rumorejante, acompanhadas de quatro pastores de ouro e nove cães de patas velozes. * Dois leões temíveis, à frente das vacas, seguram um touro que muge e o arrastam; cães e homens robustos os perseguem, mas os leões já lhe rasgaram o couro e devoram suas entranhas e o sangue negro, e os cães, em vão açulados, apenas latem à distância, evitando morder. * O Ilustre Coxo (l'illustre Boiteux), epíteto de Hefesto, forja ainda, num belo vale, um vasto pasto de ovelhas brancas, com currais, abrigos cobertos e apriscos. * Hefesto modela também um coro de dança semelhante ao que Dédalo, na vasta Cnossos, formou para Ariadne de belas tranças. * Rapazes e moças, que valeriam muitos bois, dançam de mãos dadas pelos pulsos; elas vestem linho fino e coroas belas, eles túnicas bem tecidas de brilho fosco de óleo, punhais de ouro e boldriés de prata. * Ora correm com toda a velocidade e perfeita desenvoltura, como um oleiro sentado que testa a roda ajustada à mão, ora correm em fileiras, face a face. * Numerosa multidão em festa cerca o coro encantador, um cantor épico divino (aède) canta ao som da cítara entre os dançarinos, e dois acrobatas fazem estrelas laterais (font la roue) no meio de todos para marcar o início da festa. * O que primeiro impressiona nessa descrição é o aspecto pacífico, a atmosfera de paz: em plena Ilíada, com a guerra e a raiva de matar no auge (matar Heitor para vingar Pátroclo), e quando Hefesto fabrica o escudo destinado à violência quase cega de Aquiles, surgem cenas de regozijo cotidiano que só a paz e seus benefícios tornam possíveis. * Há episódios cruéis, mas é sina de toda história e de toda realidade conhecer arranhões, isto é, imperfeições, ainda que seja preciso esperar Leibniz para imaginar o porquê. * O que impressiona em seguida é que as cenas esculpidas, imóveis por definição, acabam por animar-se e narrar, como no resto da Ilíada, como se Homero, levado pelo assunto, esquecesse que evoca imagens paradas. * Não se trata, porém, de retorno ao relato nem à "era sucessiva" (l'ère successive) cara a Paul Valéry: a narrativa homérica é épica, refere fatos imaginários e de bom grado extraordinários, dado o papel dos deuses. * O que o escudo conta é o relato da vida real, a vida dos homens, da qual os deuses estão ausentes por não terem acesso a essa felicidade especificamente humana; "não são convidados para a festa", como diz Marcel Conche, ponto de primeira importância. * Só existe felicidade humana, e os deuses devem lamentar às vezes não ser homens para participar da festa; Nietzsche diz o mesmo no aforismo 160 de O andarilho e sua sombra: quase todos os estados de alma e condições de vida têm seu momento de felicidade, e Chopin emprestou a esse momento acordes em sua Barcarola, a ponto de os próprios deuses desejarem passar, deitados numa barca, os longos serões de verão. * O que o escudo de Aquiles descreve é a felicidade, isto é, a alegria de viver ou, mais geralmente, a alegria de existir, tal como a descreve a Chandogya Upanixade, segundo a qual até a árvore se sente feliz por existir e ser árvore. * Conche o diz com perfeição: o decoro do escudo oferece uma imagem da felicidade, no tempo da alegria e do júbilo, com noivas indo ao encontro dos esposos, canto nupcial, danças, flautas e cítaras, lavradores que recebem no fim do sulco uma taça de vinho doce como mel, ceifeiros que trabalham com entusiasmo à espera de boa refeição, e vindimas que são festa, embora tingidas de suave nostalgia. * Essa felicidade é essencialmente humana e, se evoca um paraíso, é o daqui e não o do além, isto é, o paraíso terrestre. * Conche o sublinha: há embelezamento do real, mas sem passagem a um alhures nem deriva utópica; o embelezamento se faz no sentido do real, e a felicidade, se se a quer, está muito próxima, pois tudo o que ela requer já está presente. * Valery Larbaud diz de modo semelhante que os bens foram recebidos nesta vida, e Aristófanes o faz ao longo de toda a sua obra, como em As Nuvens, que evoca a existência feliz do adolescente ainda não pervertido por más doutrinas: treinar corrida sob as oliveiras sagradas, coroado de juncos brancos, com um camarada gentil da mesma idade, com aroma de corriola (fleurant le liseron), de humor pacífico, sob o choupo que agita as folhas, saboreando os encantos da primavera quando o plátano sussurra com o olmo. * Pode-se objetar que esse paraíso terrestre é o avesso do paraíso (l'envers du paradis) prometido por certas religiões, como no título do primeiro livro de Scott Fitzgerald, mas pode-se retrucar que esse avesso do paraíso é o próprio paraíso. {{tag>Rosset vida alegria mito Aquiles Conche}}