====== 1.1 Miragem naturalista ====== //ROSSET, Clément. L'anti-nature: éléments pour une philosophie tragique. Paris: Presses Universitaires de France, 1973.// * A distinção entre artifício e natureza é delimitada pelo campo do natural: a arte apenas opera a partir do natural, podendo melhorá-lo ou degradá-lo, sem jamais produzir criações puramente autônomas, de modo que a única autonomia reconhecida à arte é um poder de transgressão e degradação, mas nunca de fazer. * A concepção naturalista, segundo a qual o artifício retira sua força da natureza e uma produção artificial privada de vínculo natural está fadada a perecer, vem sofrendo ataques frequentes desde a Antiguidade, por Empédocles, pelos Sofistas e Lucrécio, até o início da filosofia moderna, por Bacon e seus contemporâneos, por Nietzsche e pela biologia moderna, sem que nenhuma dessas críticas tenha conseguido extirpar em profundidade o preconceito naturalista que supõe uma diferença obscura, invisível porém essencial, entre o que se faz por si mesmo e o que se produz ou fabrica. * A força do preconceito naturalista, que o livro analisa sem pretensão crítica por incorrer em dupla loucura ao querer extirpar um preconceito provavelmente inextirpável e ao pretender obter êxito onde outros mais qualificados fracassaram, resulta de um caráter eminentemente antropocêntrico, pois o que se considera feito pela natureza é, a princípio, o que se faz sem o homem, e um referencial antropocêntrico decide a respeito da diferença metafísica entre natureza e artifício, servindo de fundamento a todas as representações naturalistas. * A natureza é o que existe independente da atividade humana, porém não se confunde com a matéria, que é o acaso, modo de existência não somente independente das produções humanas mas indiferente a todo princípio e a toda lei; desde que uma ordem se manifeste, ainda que de caráter puramente físico, é considerada natural, de modo que se distinguem três grandes domínios na existência, artifício, natureza e acaso, definindo-se o domínio da natureza como um terceiro estado do qual o homem e a matéria encontram-se excluídos. * Essa trilogia ontológica, afirmada desde Platão e Aristóteles, concordes em definir a natureza como instância alheia tanto à arte como ao acaso, faz o domínio da natureza ocupar uma zona intermediária entre o domínio material e o domínio artificial, assim como existe, na escala dos seres biológicos, um reino animal intermediário ao vegetal e ao humano. * A natureza caracteriza-se por seus efeitos específicos, marcas de um modo de atividade tão distanciado da inércia material quanto diferente dos atos humanos, cabendo entre a ação da pedra que se entrega a seu peso e a ação do homem que atua certo tipo de ação irredutível a uma e outra, perceptível por exemplo na grama que cresce, de modo que três reinos correspondem a três tipos de efeitos: o efeito material, o efeito humano e o efeito natural. * A definição da natureza é puramente negativa, contentando-se em contrapor o efeito natural a dois outros tipos de efeito e em dizer o que o caracteriza em si mesmo, sem ter ganho em especificidade desde Platão e Aristóteles, os primeiros a defini-la pelo que ela não era, nem acaso nem artifício, e mesmo dicionários que se aventuraram em dar outra definição além da tautológica retornaram à tríplice distinção aristotélico-platônica. * A definição de Lalande, segundo a qual a natureza é o princípio considerado como produtor do desenvolvimento de um ser, é conforme às concepções de Platão e Aristóteles, opondo a natureza tanto aos produtos da arte como aos frutos do acaso, mas tal sentido vale particularmente para a noção grega de physis, visto que a maioria dos pensadores gregos anteriores a Platão e Aristóteles somente reconheceram esse sentido para criticá-lo. * A natureza é, antes de tudo, princípio, o que exclui que o domínio das existências reconhecidas como naturais possa não resultar de nenhum princípio; no entanto, o artifício não se opõe à natureza senão quando é tributário do acaso, reintroduzindo na existência uma instância aleatória não como inércia material mas como risco, risco glorioso por ser marca específica do poder humano sobre a natureza, mas risco perigoso, pois o homem está armado com um imprevisível poder de intervenção que lhe permite simultaneamente consolidar e arruinar as construções naturais. * Entre os dois pólos de indeterminação, a natureza ocupa o lugar da ordem e da necessidade, zona de certeza entre o acaso da matéria e as vicissitudes da atividade humana, de modo que a definição mais geral da natureza poderia ser necessidade, e a do artifício e da matéria seria acaso, com a condição de precisar que essa necessidade natural transcende a todas as formas de necessidade não-naturais, consideradas arbitrárias em função da ideia de necessidade natural. * As definições da natureza, ainda que precisem o que a natureza não é, permanecem em total silêncio acerca das características propriamente naturais da natureza, sendo impossível responder o que é a necessidade natural que escapa dos fatos e das produções do homem sem a intervenção do conceito de força, com o qual se designa um poder de realização distinto da passividade material e da eficiência humana. * Com o conceito de força natural, volta-se a fechar em torno dele o círculo tautológico que já aprisionava o conceito de natureza, pois a força natural nem é a inércia material nem o poder humano de intervenção, tampouco é sempre alguma coisa pensada e definida; no entanto, parece impossível negar que o desenvolvimento de uma planta selvagem manifesta o efeito de uma força estranha ao homem, consequenteMENTE força natural, admitindo-se que existe na natureza manifestação de força autônoma. * As características da força dita natural são decepcionantes para a análise filosófica: ela é efetivamente silenciosa, invisível e impensável, pois a vida trabalha em silêncio, nunca a vemos em operação e tudo dela se pensou, isto é, nada se pensou quando se dizia que tinha uma eficácia alheia à inércia e à ação humana. * Todas essas características assimilam curiosamente a representação da natureza à representação da feminilidade, um mesmo véu pudico as envolve protegendo seus mistérios de qualquer olhar inquiridor, como já dizia Heráclito que a natureza gosta de esconder-se, e Diderot precisa a imagem feminina ao afirmar que é uma mulher que adora disfarçar-se, cujas diferentes máscaras dão aos que assiduamente a perseguem alguma esperança de conhecer um dia toda a sua pessoa. * Talvez a natureza reparta com a feminilidade o privilégio de não existir, daí a certeza de uma caça eterna, já que não corre o risco de findar com a captura; qualquer que ela seja, a partir do momento em que se torna possível pensar outra coisa, liberdade e espírito humanos não são nada, já que não se confundem com a natureza, e se quisermos salvar as instâncias metafísicas devemos esquecer que a natureza absolutamente é nada. * Daí o necessário pudor da ideia de natureza, cuja eficácia ideológica supõe a dissimulação e o mistério, valendo as mesmas indicações quanto à eficácia erótica da feminilidade; também Heidegger está determinado a ver na palavra natureza a palavra fundamental da metafísica, a julgar que a metafísica é, num sentido totalmente essencial, uma física, dito de outra maneira, um saber da physis. * Em não conseguindo que a natureza pense, pode acontecer que se pretenda fazê-la ver, conceder-lhe sentimento, iniciativa muito estimada pelos filósofos e educadores do século XVIII; substitui-se a demonstração impossível por um esforço de mostração, cujo resultado pode ser apreciado numa série de imagens ou quadros da natureza que possuem sobre as representações intelectuais o incontestável privilégio de existir. * O privilégio desses quadros é ambíguo, voltando-se de bom grado contra a intenção dos pintores naturalistas, pois a principal característica desses quadros é privilegiar o artifício, introduzindo uma espécie de artifício de segundo grau que transforma o quadro naturalista em alguma coisa mais artificial que qualquer artifício. * No Emílio de Rousseau, o preceptor, intentando proteger seu aluno das tentações do artifício, encontra-se investido da tarefa paradoxal de pretender eclipsar-se diante da natureza mediante uma complicada rede de astúcias e artifícios, organizando para Emílio uma natureza preparada que não difere do artifício senão quando o reforça, reunindo o cálculo à facticidade. * A profissão de fé naturalista com a qual Rousseau abre seu livro, segundo a qual tudo vai bem quando sai das mãos do autor da natureza e tudo degenera nas mãos do homem, acaba por se perder na representação de uma natureza, faltando paradoxalmente à natureza o que antes de tudo o pensador naturalista nela buscava: a espontaneidade e o não-cálculo. * Parece que essa instância espontânea nunca faltou ao artifício, artifício que o naturalismo abandonou por não saber reconhecer nele a espontaneidade, pois o artifício somente se torna artificial quando se disfarça em natureza; sem esse disfarce, ele é verídico e inocente, verídico porque não está disfarçado, inocente porque ignora a natureza que poderia eventualmente transgredir. * Foi esse talvez o princípio do drama intelectual de Rousseau, que estava constantemente procurando a espontaneidade e a inocência onde elas não se encontravam jamais, na representação de uma natureza; o que escapou constantemente a Rousseau foi o disfarce, pois o que preliminarmente contribui para disfarçar os sentimentos e as ideias é justamente a pretensão de constituir-se natureza, isto é, de escapar das eventualidades históricas e psicológicas que fazem de todo gesto humano um acaso imprevisível e singular. * O desejo de pertencer a um princípio transcendente natural priva o gesto de sua autenticidade original, de seu verdadeiro natural, que a ideia de natureza é incapaz de recuperar em suas representações naturalistas. * Tal artifício pode produzir natureza e, inversamente, a natureza pode degradar-se e produzir espontaneamente artifício, contradição insolúvel que permite à natureza não ser sempre natural e ao artifício ser às vezes natural; assim, o preceptor de Emílio pode obter natureza com astúcia e Rousseau pode negar o rótulo de natural a alguns atos e instâncias eminentemente naturais, tal qual demonstrou J. Derrida com relação à masturbação e à imaginação. * Esse paradoxo é inerente ao naturalismo e parece tão antigo quanto a própria ideia de natureza, encontrando-se alguns traços no naturalismo estoico que se permite selecionar determinados seres propriamente naturais no âmago de uma natureza considerada princípio universal; no mais, esse paradoxo não constitui uma contradição senão aparentemente, já que inexiste a instância que se supõe que ele contradiga, a ideia de natureza. * Por nunca ter sido honrada com uma definição, o que implicaria o estabelecimento de uma fronteira entre o que é natural e o que não é, todas as proposições concernentes à natureza destinam-se a uma indefinida compossibilidade, mostrando-se apenas contraditórias graças à ilusão de existir alguma coisa realmente pensada sob o conceito de natureza. * Os jogos da natureza desnaturalizada e do artifício naturalizante não são jogos contraditórios porque não comprometem nenhum conceito, indicando um silêncio conceitual e não o estertor de uma lógica clássica do qual fala J. Derrida, estertor que evoca uma contradição intelectual impossível, no caso da ideia de natureza, em razão de seu caráter impensado. * A ideia de natureza nunca foi pensada, mas somente oposta a uma certa quantidade de fatos, atitudes e acontecimentos que ferem a sensibilidade de alguns homens, sendo antes de tudo expressão de um desagrado e não de uma ideia, permitindo o deslize intelectual graças ao qual se chega a afirmar que transgride a natureza tudo o que de fato se opõe ao desejo. * A função ideológica da ideia de natureza desdobra-se e reforça-se aqui com uma eminente função de ordem moral, permitindo não somente pensar uma metafísica mas também, e talvez principalmente, a culpabilidade; a natureza é reputada jogo de forças espontâneo e inocente, antecedente a qualquer degradação promovida pelo artifício. * A duplicidade da ideia de natureza torna-se precisa e completa: a natureza é um nada considerado força a partir do qual se pensa a autonomia humana, mas é também um nada considerado inocente a partir do qual se pode pensar a culpabilidade dos homens; por isso a ideia de natureza é sempre e infalivelmente orientada para temas morais, ideias de primitividade, de autenticidade, de puro precedendo a poluição, sendo a moralização do tema naturalista evidente desde a Antiguidade, por exemplo nos Cínicos ou em Plínio, o Velho. * Ficam determinados os principais traços da ideologia naturalista, sendo que ideologia, no sentido aqui usado, não designa nem uma doutrina literária nem a doutrina filosófica que diz nada existir fora da natureza, isto é, nada que não se refira a um encadeamento de fatos semelhantes aos que experimentamos. * Uma coisa é a recusa do sobrenatural, outra coisa a ideologia naturalista que, em princípio, é a doutrina segundo a qual a natureza existe, isto é, a forma geral da crença de que alguns seres devem a realização de sua existência a um princípio alheio ao acaso e aos efeitos da vontade humana; nesse sentido, o naturalismo designa muito mais que uma escala literária ou filosófica e é bem anterior à ideologia naturalista do século XVIII, que não manifesta senão um dos momentos de uma longuíssima história cujas origens se confundem com os primórdios da filosofia ocidental. * A ideia fundamental do naturalismo é uma neutralização da atuação do acaso na gênese das existências, afirmando que nada se poderia produzir sem alguma razão e que as existências independentes das coisas introduzidas pelo acaso ou pelo artifício dos homens resultam de outra ordem de causas, a ordem das causas naturais; sabe-se somente que a natureza é aquilo que resta quando em todas as coisas se neutralizam os efeitos do artifício e do acaso, ninguém determina exatamente isso que resta, no entanto, para que se constitua a ideia de natureza, basta supor a existência de qualquer coisa que resta. * Essa condição só é suficiente na medida em que alguma determinação suplementar a acompanhe, devendo paradoxalmente contentar-se com a própria insuficiência, isto é, com seu silêncio forçado; efetivamente, ninguém duvida que a eficácia do conceito de natureza e de suas diversas imagens advenha primeiramente da sua própria obscuridade e da incapacidade em que ela se encontra para se definir e representar. * Nada pensado na ideia de natureza, nada visto nas imagens tidas como da natureza, porém esse nada é uma fonte de inesgotável fecundidade para a alimentação da ideologia naturalista, cujas diferentes ideologias religiosas, metafísicas e morais talvez não passem de variantes. * Esse nada de pensado, que a ideia de natureza situa, faz com que as ideologias dele derivadas, como as de Marx, alimentem-se mais de imprecisão do que de erro, pois o silêncio por omissão é prolixo, engendrando uma proliferação de representações e palavras em torno de um centro ocupado pelo seu silêncio, enquanto a mentira por precisão é silenciosa, falando sua palavra e nada mais que sua palavra. * Distinguem-se assim duas grandes formas de silêncio, o silêncio da ideologia e o silêncio do ceticismo: o primeiro é tão impreciso e prolixo quanto o segundo é preciso e silencioso, um se cala em relação a um único enunciado mas produz a partir desse silêncio um rumor ideológico de indefinida amplitude, o outro, o silêncio cético, ainda que se esmere ao pronunciar sua única proposição, não a vincula a nenhum princípio mais geral e abandona seu dizer a um silêncio ideológico que caracteriza sua moderação filosófica. * Racionalismo, atenção à ideia e indiferença ao detalhe, e empirismo, atenção ao detalhe e indiferença à ideia, são as expressões epistemológicas mais gerais dessas duas formas de silêncio, podendo as proposições singulares enunciadas pelo empirismo referir-se a conjuntos de fatos considerados em si mesmos como fatos isolados, em razão da ausência de sistema no qual possam ser integrados. * A ideia de natureza pertence à primeira forma de silêncio, silêncio prolixo e impreciso, constituindo não um erro, pois para ser falso necessita primeiro ser, mas uma miragem, isto é, uma ilusão no sentido dado ao termo por Freud em O futuro de uma ilusão. * Ao erro, que implica uma neutralidade efetiva, opõe-se a ilusão, que antes de ser um jogo de conceitos é um jogo do desejo, pois uma ilusão não é a mesma coisa que um erro, tampouco é necessariamente um erro, e o que a caracteriza é o fato de ser derivada dos desejos humanos. * Ao analisar a crença, Freud manifesta uma penetração crítica que se inscreve numa tradição anti-socrática e antiintelectualista, ilustrada principalmente pelas análises de Lucrécio, Montaigne, Hume e Nietzsche: o homem não se engana porque ignora, mas porque deseja; ou ainda, com mais profundidade, o homem que se ilude não se engana, pois as promessas do desejo nunca se aventuram a constituir uma expressão precisa que poderia ser intelectualmente refutada. * Por conseguinte, o homem de desejo nunca se engana, pois falta-lhe precisão e conteúdo, e essa falta, não de crença mas de objeto de crença, é precisamente o que define a especificidade da crença e lhe assegura a invulnerabilidade, indiferente a qualquer confirmação ou invalidação por parte da experiência, já que a ilusão, através da não-determinação do que deseja, situa-se fora do alcance de ambas. * Freud invoca dois exemplos de ilusão que ilustram perfeitamente a indiferença da ilusão à verdade ou ao erro: a afirmação de alguns nacionalistas de que as raças indo-germânicas seriam as únicas capazes de cultura e a crença de que a criança seria um ser desprovido de sexualidade, crença destruída pela primeira vez pela psicanálise. * Nos dois casos, a ilusão não se sustenta diante do exame intelectual: a superioridade indo-germânica e a pureza infantil constituem temas simultaneamente vagos em suas afirmações e indiferentes aos fatos, os quais somente poderiam ser invalidados se os temas tivessem sido precisados. * O segundo exemplo é particularmente ilustrativo, pois sendo a sexualidade infantil um fato evidente no cotidiano, o que aliás Freud sempre ressaltou, nunca foi segredo para ninguém; apesar de ter sido a psicanálise que pela primeira vez a anunciou, seria excesso de otimismo declarar com Freud que a crença na pureza infantil foi destruída pela psicanálise, podendo-se no máximo esperar que as manifestações diretas dessa ilusão abandonem progressivamente alguns discursos de tipo científico, contudo, como crença, não parece que venha a correr grandes riscos por parte da psicanálise. * Na ilusão, o desejo basta a si mesmo e não espera nenhum apoio da experiência; a autarquia da ilusão explica um fenômeno bastante corrente e aparentemente desconcertante, o fato de haver surpresa quando a experiência confirma o que existia como crença, surpresa que mostra claramente a que ponto a crença está disposta a prescindir dessa supérflua confirmação, transcendendo assim a toda verdade ou realidade. * Freud, sempre em O futuro de uma ilusão, conta a esse respeito uma anedota, um incidente realmente curioso: sendo já homem maduro, encontrava-se pela primeira vez em Atenas, sobre a colina da Acrópole, entre as ruínas dos templos, olhando ao longe o mar azul, e a sua alegria misturava-se com um sentimento de espanto que o levava a dizer para si mesmo que então as coisas eram verdadeiramente tais quais nos ensinavam na escola, e quão superficial e fraca devia ter sido a crença naquilo que ouvira para que hoje pudesse estar tão surpreso. * Tal surpresa é possível quando um tema intelectual combina-se com um desejo, como na anedota contada por Freud, na qual se combinam um conhecimento aprendido na escola e o objeto de cobiça ulterior que investiu desejo num tema que inicialmente apenas era intelectual; espanta-se porque encontra na realidade a confirmação de um desejo, ao descobrir um desejo arremetendo uma só vez, não forja um hábito, um objeto real. * Em geral, ocorre diferentemente: a crença não espera nenhuma confirmação da experiência, e com razão, uma vez que na crença não existe nenhuma ideia que possa ser intelectualmente confirmada; por isso a crença é, do ponto de vista intelectual, superficial e fraca, mas, também e na mesma medida, do ponto de vista do desejo, inextirpável e com um poder absoluto. * O que impropriamente chamam de ideia de natureza pertence não ao domínio das ideias, mas ao do desejo; seria sedutor tentar precisar a ordem do desejo que caracteriza o desejo de natureza, determinar a natureza do desejo que atrai a ideia de natureza, problema delicado e definitivamente insolúvel, como todas as questões que problematizam a razão ou a origem de um desejo, desejo, como Freud demonstrou, contrariamente ao que quer crer a maioria dos seus intérpretes contemporâneos, de caráter eminentemente irracional e irredutível à análise. * Sem invocar sequer a natureza do desejo sexual, é fácil mostrar, por exemplo, que o desejo de superioridade de um determinado grupo étnico ou da pureza típica a uma certa idade da vida, aos quais se refere Freud em O futuro de uma ilusão, são simples e claros; quando muito, podem-se propor algumas observações a propósito do benefício que a afetividade humana retira da ideia de natureza, benefício que parece resultar principalmente de duas grandes ordens de virtude. * Em primeiro lugar, a ideia de natureza permite que a insatisfação se expresse, isto é, que se constitua como pensamento descontente; sem a ideia de natureza, isto é, sem referencial de necessidade, a insatisfação estaria condenada a permanecer curvada sobre si mesma e a não se exprimir jamais, o que, para toda insatisfação, é a pior e talvez a única absolutamente intolerável sina. * Incapaz de apontar uma instância natural na qual sua própria desgraça pudesse aparecer como acidental e arbitrária, a insatisfação seria incapaz de se manifestar, incapaz de dizer que sua desgraça existe no sentido heideggeriano de ek-sister: para surgir, é preciso surgir de alguma coisa; dito de outra forma, a ideia de natureza assegura uma relação necessária entre a ideia de que isto desagrada e a ideia de que isto não deveria ser. * Em segundo lugar, a ideia de natureza permite poupar a ideia de acaso, à qual opõe, segundo parece, o mais poderoso antídoto já elaborado pela imaginação humana; por outro lado, a ideia de acaso é talvez, dentre todas as que os homens puderam conhecer, a mais difícil de ser assumida por sua afetividade, pois implica a insignificância radical de todo acontecimento, de todo pensamento e de toda existência. * Pode ser que a ideia de acaso seja, direta ou indiretamente, a fonte invisível de tudo aquilo que pode vir a desagradar o homem, hipótese que confirmaria a racionalização paranóica, cuja disposição é admitir tudo, exceto o acaso, humilde reserva que lhe permite, como o sabemos, recusar tudo. * Nesse sentido, a ideia de natureza poderia mostrar-se como a expressão mais geral da afetividade paranóica, isto é, como a expressão de um dos componentes fundamentais de toda afetividade humana, exprimindo com precisão seus dois principais temas: a insatisfação e a racionalização; e, nessa hipótese, não seria por acaso que o mais acintosamente paranóico dos filósofos tenha sido precisamente Rousseau, obsessivo cantor dos temas naturalistas. * Tão interessante e tão misteriosa quanto a questão do por que surge a questão do como: as condições mediante as quais a representação naturalista resulta possível não são muito mais analisáveis que as razões das quais provém o desejo de natureza; no entanto, é ainda possível precisar algumas circunstâncias favoráveis que presidem a fabricação de miragem naturalista. * Dessas circunstâncias, a mais evidente parece ser a repetição que, em todos os casos, desempenha a função de catalisador necessário para essa operação quase mágica da qual deve resultar a representação de uma natureza. * Esse catalisador todo-poderoso que é a repetição já foi designado com o nome de costume, por Montaigne e Pascal, e com o de hábito, por Hume; o problema da moda é uma variante desse problema geral, que consiste em determinar a partir de que momento a repetição faz um costume, determinando assim uma natureza e um modo de obediência natural. * Contrariamente ao que estimava Rousseau, que aí via uma manifestação do artifício desafiando a natureza, a moda pode ser considerada como o próprio modelo da elaboração naturalista, como uma ilustração do procedimento com o qual a repetição fabrica a natureza. * Da eficácia metafísica da repetição, Montaigne dá uma descrição sugestiva quando escreve que o costume é efetivamente um pérfido e tirânico professor, que pouco a pouco, às escondidas, ganha autoridade sobre nós, a princípio terno e humilde, implanta-se com o decorrer do tempo e se afirma, mostrando-nos repentinamente uma expressão imperativa para a qual não ousamos sequer erguer os olhos. * No entanto, essa descrição deixa na obscuridade o problema filosófico da eficácia do costume: desconhecemos sempre de qual fonte a repetição obtém esse efeito metafísico que lhe dará a autoridade de uma natureza. * Também Hume, a partir da observação constante em sua obra filosófica de que a crença nada acrescenta à ideia, isto é, não acrescenta nenhuma impressão nova à experiência da repetição, considera a constituição de uma crença como um dos mais misteriosos problemas da filosofia. * Para Hume, a crença não significa a intervenção de uma impressão nova, mas somente uma maneira diferente de considerar as impressões; do mesmo modo, a ideia de natureza não acrescenta nada ao fato do costume repetidor, todavia de pronto considera-o sob o ângulo metafísico de uma natureza. * Em condições análogas, isto é, na ausência de qualquer impressão de natureza, os temas naturalistas conseguem ter consistência em virtude da repetição de um X, cujo caráter inconceitualizável é atribuído a um efeito de perda de sentido, embora, ao contrário, seja o efeito de repetição desse não-sentido que sugere um sentido perdido. * A fabricação da miragem naturalista é comparável a algumas elaborações oníricas: porventura, ao fim de um sono pesado, acordamos com o sentimento de termos repetido obsessivamente uma mesma estrutura onírica, sem que consigamos rememorar as características dessa estrutura; contamos aos que nos rodeiam que passamos a noite toda repetindo incessantemente em sonhos o mesmo tema, mas nos confessamos incapazes de precisar de qual tema se tratava. * Talvez tenha sido em decorrência do esquecimento; talvez nada tenha sido sonhado: sempre sonhávamos a mesma coisa, porém essa coisa em si mesma não era nada; assim é a ideia de natureza, um sonho visitando a consciência desperta, um sonhar acordado, para citar a expressão de Montaigne na Apologia de Raymond Sebond: a repetição do artifício sugere uma natureza que não é pensada, cujo caráter impensado é atribuído aos efeitos de um esquecimento secular. * Como muitas ideias humanas, a ideia de natureza constitui uma alucinação mais sonolenta que todos os sonhos, porquanto nada pode acordar um homem já acordado: o sono profundo apaga por vezes os nossos sonhos; despertos, nunca o estamos o bastante para nos livrarmos de todos os devaneios que são sonhos de gente acordada e piores do que os sonhos. * O acréscimo de crença à experiência, permitindo a emergência de uma natureza fundada na repetição, implica o auxílio de um apoio análogo ao que a imprecisão de sonho proporciona: o apoio do mito. * Substituindo o trabalho do sonho, inoperante em estado de vigília, o mito é uma instância que não se confunde mais com a repetição: representa um princípio original a partir do qual a repetição somente é considerada por ter começado a repetir. * Tal é precisamente o sentido que um historiador das religiões deu recentemente à noção de mito, M. Eliade, em O mito do eterno retorno e Aspectos do mito; o mito, segundo Eliade, tem por função essencial fixar um modelo na origem das repetições, daí a assimilação das repetições a cópias e, consequentemente, daí a assimilação do platonismo a um esforço genial, visando restaurar uma filosofia mítica violada pela empresa sofística de demolição da ideia de natureza. * Em termos bem gerais, poder-se-á descrever o mito como a passagem da ideia de repetição à ideia de que a repetição repete alguma coisa; a repetição segrega, em condições que permanecem misteriosas, já que provêm do mito, a ideia de uma realidade que serve de modelo a todas as repetições: instância de realidade, de ordem simultaneamente ontológica e mitológica, que permite desconsiderar a existência atual. * A existência reduz-se a uma condição repetidora, que implica degradação e perda do ser; ser real é, deste modo, referir-se à instância original de onde derivam as existências; afastar-se dessa instância é perder a própria realidade, entregando-se a um artifício desconectado da instância naturalista. * O homem das culturas tradicionais não se reconhece como real senão quando deixa de ser ele mesmo, para um observador moderno, e se contenta em imitar e repetir os gestos de um outro; poder-se-ia então dizer que essa ontologia primitiva tem uma estrutura platônica, e Platão poderia ser considerado nesse caso como o filósofo por excelência da mentalidade primitiva. * Uma estreita intimidade vincula a ontologia à mitologia, pois o mito é o único capaz de explicar a fabricação do real: o mito narra como, graças às proezas dos Seres Sobrenaturais, uma realidade tornou-se existente, quer seja a realidade total, o Cosmo, ou somente um fragmento: uma ilha, uma espécie vegetal, um comportamento humano, uma instituição; trata-se sempre do relato de uma criação: narra-se como alguma coisa foi produzida, como começou a ser. * Da mesma maneira, o mito testemunha a existência de uma natureza, ao decifrar nos estilhaços atuais da existência em vias de perda ontológica os signos de um livro natural do qual só subsistem algumas páginas dispersas. * A ideia de natureza afigura-se como uma expressão muito geral do pensamento mítico: designa, em todos os casos, essa instância primitiva a partir da qual se considera que a existência se constituiu através de repetição e, sobretudo, de degradação, uma vez que entra em cena o artifício; miragem da natureza e miragem do ser se confundem em uma mitologia tão alérgica à lógica quanto à cronologia, pois é preciso um curioso sofisma da retroação. {{tag>Rosset natureza artifício}}