====== 4.1 Medo e desejo ====== //ROSA, Hartmut. Resonanz: Eine Soziologie der Weltbeziehung. Berlin: Suhrkamp Verlag, 2016. (Tradução inglesa: Resonance: A Sociology of Our Relationship to the World. Cambridge: Polity Press, 2019).// **Relações emocionais, avaliativas e cognitivas com o mundo** **1 Medo e desejo como formas elementares de nossa relação com o mundo** 1. A relação humana com o mundo não é primariamente física e só depois interpretada e avaliada cognitiva e afetivamente, pois a subjetividade sempre se desenvolve a partir de sua relação com o mundo, que inclui aspectos corporais, reflexivos, cognitivos e emocionais inextricavelmente entrelaçados, de modo que os sujeitos se experimentam situados num mundo que de algum modo os interpela, positiva ou negativamente, com coisas que lhes falam, os asseguram ou os repelem, e aquilo que nada lhes diz é algo com que não mantêm relação alguma. 2. Relacionar-se com o mundo significa sempre que algum segmento dele aparece como agradável e atraente ou como ameaçador e repulsivo, dualidade expressa em várias bipolaridades da filosofia, da psicologia e do pensamento político, como os impulsos que dizem sim e as inibições que dizem não em William James, o prazer e a dor em Jeremy Bentham ou simplesmente o medo e o desejo, par mais adequado por exprimir com clareza o caráter relacional dessa dualidade, já que a presença do mundo é fundamentalmente pática e se dá como potencialmente atraente ou repulsiva, ainda que se possa desejar o que se teme, e é dessa atração e repulsão que nasce o significado dos segmentos de mundo, base, segundo o conceito de cultura de Max Weber e as avaliações fortes de Charles Taylor, de todas as concepções culturais e cognitivas de si e do mundo e ponto de partida motivacional dos mapas cognitivos e avaliativos que indicam cursos de ação e obstáculos. 3. O desenvolvimento de uma relação desengajada com o mundo, que permite examinar ou manipular seus segmentos sem consideração pelo medo ou pelo desejo, pressupõe e deriva da cultura e repousa, como insiste Charles Taylor, na crença frequentemente não reconhecida de que a própria abstração do medo e do desejo é valiosa, isto é, desejável. 4. A qualidade relacional da relação com o mundo estabelece-se sempre pelo desejo de algo que aparece como atraente ou pelo medo de algo que aparece como repulsivo, e cada determinação de atração ou repulsão molda os contornos tanto do sujeito quanto do mundo, como em ser gay e amar aquele homem, ser religioso e crer na palavra do profeta Maomé ou ser cientista e querer estudar a natureza dos buracos negros. 5. Não por acaso religiões e filosofias contam esses dois princípios entre os modos cardeais da existência humana, como na afirmação de Jesus de que no mundo haverá aflição, na angústia como estado fundamental em Heidegger e Kierkegaard, no medo e na náusea como categorias existenciais em Sartre, no desejo ou nas pulsões como força motriz da ação em Freud e seus sucessores, de Lacan, Hardt e Negri a Deleuze e Agamben, no princípio de maximização da utilidade da teoria da escolha racional ou na superação do medo e do desejo como via régia para a libertação do sofrimento existencial no estoicismo e no zen-budismo. 6. Para uma sociologia das relações humanas com o mundo, isso significa que o modo de relacionar-se com o mundo não pode ser compreendido sem analisar as relações com o medo e o desejo, formadas não apenas pelo que se teme e deseja, mas também pelo modo como se experimenta passivamente e se enfrenta ativamente o temido e o desejado e pelas relações e intensidades respectivas da atração e da repulsão. 7. A questão existencial de saber se o mundo como tal é desejável ou assustador contém a chave da afinação emocional básica do sujeito, que lhe sugere a afirmação ou a renúncia ao mundo como posição existencial, reconfigurada depois por mapas cognitivos e culturais, de modo que a diferença entre Anna, que ama o mundo, e Hannah, que carece dessa qualidade relacional, indica que o fio vibrante de Anna é formado pelo desejo, pela energia libidinal, e medo e desejo podem incidir sobre a própria relação com o mundo, como no medo de perdê-lo ou de vê-lo emudecer, ou de perder-se nele, assim como Heidegger, em Ser e Tempo, define a angústia como afinação fundamental ligada ao lançamento no mundo, podendo-se interpretar que o cuidado diz respeito à preservação de uma relação ressonante e a angústia à sua perda. 8. Levada a sério a metáfora físico-musical da ressonância como relação entre dois corpos abertos o bastante para se relacionar e estáveis o bastante para soar em sua própria frequência, percebe-se que ela pode falhar de ambos os lados e de dois modos: do lado do sujeito, quando ele se enrijece e se fecha, tornando-se incapaz de sintonizar-se com algo, ou quando se abre demais, perde-se no mundo, abandona sua frequência e funciona apenas como eco, e do lado do mundo, quando este se endurece e se reifica, sem cantar nem vibrar, ou quando seus movimentos se tornam tão imprevisíveis e caóticos que nenhuma voz pode ser discernida na cacofonia. 9. Franz Riemann deriva dessas mesmas quatro formas de relação fracassada com o mundo as formas básicas da angústia que moldam a personalidade, determinando a qualidade da relação com o mundo segundo um eixo de vínculo e um eixo de ordem, em que se teme o excesso ou a falta: a personalidade esquizoide teme entregar-se e perder-se numa relação, a depressiva teme não ter vínculo autêntico e ficar isolada, a histérica teme uma ordem rígida e sufocante, e a compulsiva teme o caos e a desordem da mudança errática. 10. Do ponto de vista da teoria da ressonância, esses quatro medos são fundados por designarem as quatro formas possíveis de alienação, pois, se a ressonância só é possível entre entidades suficientemente abertas para se relacionar e suficientemente estáveis para desenvolver frequência própria, a perda de si numa relação viola a segunda condição e a incapacidade de vínculo mina a primeira, assim como os segmentos de mundo devem ser estáveis o bastante para acolher eixos de ressonância sem se tornarem rígidos a ponto de não ressoar, exigindo-se de ambos os lados uma vibração livre mas não caótica, de modo que também as personalidades histérica e compulsiva temem a perda de ressonância e o ponto de interseção equilibrado entre os dois eixos revela-se o ponto de ressonância de uma relação saudável com o mundo. 11. Émile Durkheim, em seu estudo sobre as causas sociais do suicídio, desenvolveu uma visão muito semelhante, compatível com essa reformulação, ao entender o aumento das taxas de suicídio como efeito de um desequilíbrio das forças sociais na relação dos sujeitos com o mundo, distinguindo um eixo de integração e um eixo de regulação cujo excesso ou falta gera alienação extrema: o suicídio egoísta resulta da falta de laços sociais, o altruísta da absorção completa por eles, o fatalista da regulação excessiva que sufoca o indivíduo e o anômico da falta de normas capazes de limitar e orientar os desejos, de modo que, enquanto Riemann vê traços de personalidade, Durkheim apresenta consequências de relações sociais de ressonância disfuncionais, oferecendo um esboço de crítica sistemática dessas relações. 12. As quatro formas de angústia na relação com o mundo reaparecem nos distúrbios ligados à ingestão e à excreção de alimentos como formas básicas de relação com o mundo, já que a anorexia parece caracterizar-se pela perda ou perturbação da ingestão de mundo, a obesidade pelo excesso de mundo e a correspondente perda da forma do eu, a bulimia por aspectos histéricos e a ortorexia pela compulsão. 13. Entendidos como forças motrizes fundamentais das relações humanas com o mundo, medo e desejo devem ser concebidos de modo muito amplo, como repulsão e atração básicas, podendo a primeira manifestar-se como aversão ou nojo e funcionando a segunda de modo amorfo ou polimorfo como energia libidinal, enquanto estados emocionais como ódio e agressividade seriam formas híbridas em que energias atrativas e repulsivas se cruzam. 14. Medo e desejo podem ser concebidos de modo plausível e instrutivo como forças motrizes fundamentais e modos existenciais de ser quando entendidos como medo da alienação, isto é, de que o mundo se torne hostil ou mudo e da correspondente perda de relação, e como desejo de ressonância. 15. Nos modos concretos pelos quais um sujeito ou uma cultura se relaciona com o mundo, medo e desejo, em si difusos e referidos apenas ao mundo como tal, manifestam-se em geral como forças dirigidas, isto é, como medo de algo e desejo de algo. 16. Como mostram entrevistas pessoais extensas, medos e desejos tornam-se biograficamente específicos por meio de experiências intensas de alienação e ressonância que funcionam como desertos e oásis, oferecendo uma espécie de bússola para a vida, de modo que as lembranças de momentos felizes de harmonia consigo e com o mundo fazem sentir-se sustentado, enquanto os momentos de abandono num mundo frio e hostil dão direção e substância ao medo e ao desejo, abrindo caminhos e determinando o horizonte de expectativa, de sorte que memórias e expectativas se ligam intrinsecamente à estrutura dos medos e desejos e toda biografia pode ser entendida como busca de oásis de ressonância e fuga de desertos de alienação. 17. Charles Taylor, nas páginas iniciais de Uma Era Secular, define as experiências de plenitude ou harmonia e as de vazio ou alienação como dois modos básicos de experimentar o mundo, extremos opostos que, em seus traços básicos, pertencem ao repertório de quase todos os seres humanos, citando como exemplo do primeiro a autobiografia de Bede Griffiths. 18. Num passeio solitário ao entardecer, no último período escolar, o canto pleno dos pássaros, os espinheiros em flor e uma cotovia que subiu cantando sobre o campo ao pôr do sol pareceram a Griffiths vistos e ouvidos pela primeira vez, como se estivesse no Jardim do Paraíso, e no silêncio do crepúsculo sentiu um assombro que o fez querer ajoelhar-se como diante de um anjo, como se o céu fosse apenas um véu diante da face de Deus. 19. Esse momento bem-sucedido de relação com o mundo é uma experiência de ressonância que reúne sinestesicamente num só instante as três esferas verticais de ressonância da cultura moderna, natureza, estética e religião, tornando quase palpável uma ressonância profunda do mundo, primeiro pelas metáforas de um mundo que canta e depois pelo silêncio em que emerge um mundo transcendente que abarca e sustenta a natureza terrena, de modo que canto e silêncio formam uma unidade antonímica que torna possível a experiência de plenitude, sendo esse silêncio um silêncio ressonante, como o conhecido por muitos andarilhos do deserto. 20. Quase todos os seres humanos conhecem esses momentos oceânicos de completa sustentação pelo mundo, geralmente na infância ou juventude, junto à fogueira, diante da árvore de Natal iluminada, nas praias e ondas ou no riacho atrás de casa, ainda que jamais os descrevam numa linguagem tão metafisicamente carregada, e conhecem também o modo oposto, que Taylor descreve como não ressonância, em que o sujeito se sente separado como por um muro de todos os outros seres vivos. 21. O sentimento de vazio ou não ressonância pode surgir quando o cotidiano parece esvaziado de ressonância profunda, seco e plano, quando as coisas ao redor parecem mortas, feias e vazias e o modo de organizá-las para viver carece de sentido, beleza e profundidade, podendo gerar uma espécie de náusea diante de um mundo sem sentido. 22. As experiências de oásis e de deserto são exceções e extremos, pois a vida cotidiana é dominada por um estado intermediário, impulsionado, porém, pela antecipação ou memória delas, isto é, pela busca de plenitude e pelo esforço de evitar a alienação, o que sugere uma teoria alternativa da ação na qual a busca de ressonância e o medo da alienação, entendidos como modos de relação e não como estados emocionais subjetivos, constituem os impulsos fundamentais do comportamento, de modo que as ações não se explicam pela maximização da utilidade ou pela busca de distinção, mas pelas concepções e intuições individuais e socialmente aprendidas de oásis e de deserto, cabendo perguntar em que contextos e práticas o sujeito se sentiu sustentado e em quais experimentou o deserto. 23. As condições materiais de existência desempenham papel decisivo, pois contextos de fome, violência, falta de recursos para uma vida autodeterminada ou impotência diante de forças externas dificilmente podem ser vividos como oásis, e mesmo o desejo dirigido a objetos materiais é desejo de relação, já que carros, televisores, joias ou smartphones são desejados por prometerem, sempre vagamente, abrir certos modos de estar no mundo, promessa que a publicidade há muito transformou em argumento central de venda, sendo sempre motor da ação as estratégias para aproximar-se dos oásis e evitar os desertos. 24. Essas estratégias e a tradução da angústia e do apetite gerais em medos e desejos concretos apresentam diferenças individuais, culturais e de classe, pois o desejo, como aspecto fundamental da relação com o mundo, é inicialmente indefinido e insaciável, impulso de todo movimento rumo ao mundo que se manifesta como curiosidade, amor, gosto pela vida e alegria da descoberta, e, quando dirigido a um objeto concreto ou segmento específico do mundo, assume a forma de apetites individuais saciáveis que abrem relações locais, focadas e instrumentais com o mundo, dirigindo energia, atenção e ação. 25. Há sempre algo de inquietante nesses apetites, pois, dirigidos ao inteiramente outro e estranho, contêm um elemento transgressivo que, embora constitua a base de todo encontro genuíno com o mundo, exige transformação adaptativa e comporta o risco da alienação, já que os encontros podem fracassar e provocar angústia, ponto em que medo e desejo, analiticamente opostos, se mesclam empiricamente quando o desejo de ser abalado colide com o medo de ser repelido, amálgama que constitui o terreno da psicanálise, com o prazer no terrível e o medo do objeto desejado ou do próprio desejo. 26. As relações individuais com o mundo diferem também conforme predomine o desejo ou o medo, a nostalgia de oásis potenciais ou o temor dos desertos, prevalecendo neste caso as estratégias de evitação, sendo plausível que a disposição para encontros desejantes cresça com um sentimento básico de sustentação, isto é, com relações ressonantes, enquanto a alienação, sentimento de viver num mundo hostil ou indiferente e não responsivo, tende a conduzir à paralisia ou a atos agressivos de transformação adaptativa do mundo, como a violência excessiva. 27. Como relação existencial com o mundo, o medo ou a angústia é inicialmente difuso e sem objeto, manifestando-se como pavor sem nome ou medo do fim do mundo, isto é, da perda de um mundo com o qual relacionar-se, enquanto os medos individuais são concretos, dirigidos e nomeáveis, podendo ser aplacados, tratados como fobias e superados, e estabelecem relações locais com o mundo que variam entre angústias corporais relativamente estáveis no tempo e entre culturas, como o medo do fogo ou de animais selvagens, e medos socialmente produzidos, como o do desemprego, incompreensível para épocas pré-modernas, os quais se ancoram em estruturas psicológicas mais elementares, como o medo de ser desconsiderado ou excluído socialmente. 28. Toda relação humana com o mundo, individual ou coletiva, é marcada por uma angústia existencial básica acompanhada de um sentimento de inadequação categorial, de uma mancha indelével ou estigma existencial ligado à estrutura elementar do desejo e codeterminante da experiência do deserto, o que talvez explique a potência cultural da noção cristã de pecado original e o fato de doutrinas éticas e religiosas, dos estoicos ao zen-budismo, apontarem a superação do medo e do desejo como condição de uma relação ideal com o mundo, buscada pela meditação como estado de tranquilidade espiritual sem desejos que perseguem nem medos que atormentam. 29. A forma talvez mais negativa da experiência humana do mundo, a depressão, caracteriza-se frequentemente pela completa ausência de medo e desejo no sujeito e de atração e repulsão no mundo, paradoxo aparente que aproxima a relação mais desejável e a mais terrível, mas que se explica porque, no plano fenomenológico, a extinção da energia libidinal na depressão ou no burnout está ligada a um sentimento existencial de lançamento e solidão num mundo indiferente ou latentemente hostil, de alienação extrema em que eu e mundo se encontram sem conexão alguma, como quando tudo dentro e fora parece morto, negro e vazio. 30. O silenciamento da energia libidinal buscado pela renúncia meditativa é, ao contrário, um silêncio significativo e falante, em que, calados todos os medos e desejos focados, quem medita se sente idealmente sustentado e ligado ao universo, o que mostra que medo e angústia não se reduzem a momentos de alienação e que a relação entre ressonância e desejo é ambivalente, pois a ressonância profunda de uma experiência quase mística do mundo só pode ser sentida quando todas as relações focadas e o próprio desejo silenciam, razão pela qual muitas religiões veem no retiro do mundo, na caverna, no claustro, no deserto, nas montanhas ou no oceano, um caminho para uma relação verdadeiramente satisfatória com o mundo, como no relato de Edmond Jabès de que no deserto se perde a identidade, torna-se anônimo e se ouve o silêncio falar. 31. A plenitude nascida do vazio tem como oposto diametral o vazio em meio à plenitude da depressão ou do burnout, de onde se conclui que, embora todo desejo seja no fundo desejo de ressonância e todo medo medo de sua perda, a experiência ressonante ideal é livre de desejo, pois o desejo busca sempre transformar e superar a situação presente, enquanto a ressonância traz em si sua realização, como o instante fáustico de demorar-se, cuja consciência da fugacidade pode até aprofundar o impacto, como no pôr do sol de Bede Griffiths ou no ápice de uma sinfonia, de uma ária ou de uma dança, vividos, como o orgasmo, como momentos sempre já passageiros, correlato na teoria da ressonância da falta inapaziguável e do movimento infinito do desejo em Jacques Lacan. 32. Medo e desejo, como formas elementares de relação com o mundo, são estados emocionais enraizados no corpo fenomênico que se transformam e se sobrepõem às convicções cognitivas e atitudes avaliativas resultantes de visões de mundo culturais e práticas sociais, como o desejo de uma Ferrari vermelha, que ativa os centros de prazer do cérebro por ter sido inscrita, por processos complexos de socialização, nos mapas cognitivos e avaliativos como signo de riqueza, status, poder e velocidade, ou o medo de Satanás e do desemprego, que só se cristalizam por processos individuais e coletivos de autointerpretação, embora também existam medos e desejos que resistem obstinadamente a esses mapas, como o medo irracional de voar ou de aranhas, o instinto de fuga na guerra apesar da própria bravura ou desejos sem atração cognitiva ou avaliativa, de modo que a relação com o mundo é sempre marcada pela interação entre energias atrativas e repulsivas e processos complexos de autointerpretação que convergem na percepção das situações concretas. 33. Para uma crítica das relações de ressonância, o enfraquecimento ou a ausência de medo e desejo podem indicar uma situação de alienação marcada pela indiferença e pela falta de conexão entre sujeito e mundo, uma relação de ausência de relação em que o sujeito sem medo nem desejo se defronta com um mundo plano e indiferenciado, de modo que as condições sociais que produzem tais relações são tão condenáveis quanto as que geram relações dominadas pela angústia e pelo medo. 34. Medo e angústia são exterminadores paradigmáticos da ressonância, pois, quando avassaladores, impedem o sujeito de abrir-se, sintonizar-se e envolver-se com o mundo, tornando-o incapaz de encontro e até paralisado ao neutralizar a força motivadora dos atratores potenciais, de modo que, seja diante dos esbirros de um regime repressivo, da doença, da falta de recursos ou de formas sutis de exclusão social, o sujeito angustiado se preocupa inevitavelmente em não ser tocado e em evitar ressonâncias. 35. Medo e angústia são reações naturais a uma experiência repulsiva do mundo e abundam onde os sujeitos se sentem num mundo latente ou manifestamente hostil, o que não impede experiências ressonantes muitas vezes súbitas mesmo em estado de angústia ou de medo mortal, mas estas tendem a ser apenas momentos de superação, apaziguamento ou abolição desse medo. 36. Também o desejo pode tornar-se hostil à ressonância quando o desejo de ressonância se converte em puro desejo de objeto, pois desejar uma pessoa, coisa, posição ou experiência apenas para apropriar-se dela ou controlá-la elimina a possibilidade de assimilação e de ressonância, e o desejo errante produz sujeitos impelidos que, como os movidos pelo medo, carecem de eixos de ressonância estáveis e da capacidade de encontro genuíno, de modo que as condições sociais que produzem sistematicamente desejo de objeto e minam as possibilidades de ressonância são tão condenáveis quanto as que produzem angústias. 37. Seguindo Albert O. Hirschman, as sociedades capitalistas orientadas para o crescimento tendem a desenvolver medos e desejos patológicos, sendo movidas pelo medo na medida em que cada posição é corroída pela dinâmica da competição, tornando o medo de ficar para trás, defasado ou excluído um modo de existência, e pelo desejo na forma duvidosa do desejo de objeto inibidor da ressonância, na medida em que precisam produzir incessantemente desejos mercantilizáveis que nunca sejam satisfeitos de forma duradoura nem tão frustrados que abandonem a esfera do consumo, de modo que o desejo frustrado de ressonância se exprime como desejo de objeto e de posição jamais livre de angústia, núcleo do mecanismo capitalista de produção do desejo, cuja estabilidade talvez se deva à capacidade de reproduzir e dirigir os medos e desejos fixados na produção e no consumo e, assim, a própria forma das relações com o mundo, tendência que se exprime com especial clareza na evolução recente dos desejos relacionados ao corpo. 38. Como mostra qualquer shopping center do mundo, os desejos mercantilizados dos sujeitos da modernidade tardia dirigem-se ao próprio corpo numa medida talvez sem precedentes, com o predomínio de farmácias, perfumarias, academias, estúdios de tatuagem e bronzeamento, joalherias, lojas de relógios, calçados e roupas, enquanto recuam as lojas de livros, telescópios, instrumentos musicais ou artesanato, de modo que o corpo se tornou a superfície central de projeção do desejo de ser mais magro, mais saudável, mais belo, mais bronzeado e mais eficiente, confirmando que esses sujeitos reificam o próprio corpo como objeto de design e talvez percam o interesse pelo encontro real, tendência que alcança até a sexualidade, cada vez mais satisfeita virtualmente ou com brinquedos sexuais, embora o interesse pelo encontro possa apenas ter migrado para as redes sociais, um mundo em grande parte livre de corpos estranhos. 39. Se procede a hipótese de uma produção tardo-moderna do desejo dirigida ao sujeito como objeto, também os medos e angústias tardo-modernos se voltam para dentro, já que o medo da perda de ressonância pode dirigir-se tanto ao polo do mundo quanto ao polo do sujeito e geralmente toca ambos, mas os sujeitos das sociedades ocidentais desenvolvidas já não temem tanto os atos hostis do mundo, como hunos, gafanhotos, frio, a ira divina ou as seduções do diabo, quanto o próprio fracasso e inadequação, como esgotar-se, engordar, envelhecer, ficar só e pouco atraente, males pelos quais só podem culpar a si mesmos, de modo que as fontes do sofrimento são buscadas dentro, e não fora, como mostra a transformação do medo da exclusão social, que nas sociedades de classes ou castas tinha como fonte um mundo injusto que negava por nascimento bens, privilégios e oportunidades, enquanto hoje a negação desses bens é percebida como fracasso pessoal, percepção resultante de uma interpretação culturalmente estabelecida de si e do mundo, enraizada em práticas e instituições, que só pode ser compreendida à luz do mapa cognitivo da modernidade. {{tag>HRosa mundo medo desejo emoção}}