====== 2.1 Problema do fenômeno ====== //PLESSNER, Helmuth. Die Stufen des Organischen und der Mensch: Einleitung in die philosophische Anthropologie. Berlin/Leipzig: Walter de Gruyter, 1928. (2ª ed. ampliada com prefácio teórico: Berlin: Walter de Gruyter, 1965).// **Capítulo II A objeção cartesiana e a posição do problema** **1. A alternativa entre extensão e interioridade e o problema do fenômeno** 1. Uma experiência não submetida a uma disciplina tende a tomar por fundamental aquilo que lhe garante maior segurança no avanço e melhor ângulo de visão sobre suas conexões, mas na extensão científica da experiência tais vantagens já não bastam, pois algo pode ser fundamentalmente importante para o desenvolvimento das ideias sem por isso possuir o caráter de autêntico fundamento. 2. Um autêntico fundamento sustenta sem precisar ele próprio de suporte, e o empirista, atento apenas à primeira função, inclina-se a concluir sem mais pela segunda, como mostra a história da ciência empírica, na qual quase toda descoberta ou teoria importante, como a seleção de Darwin, a superestrutura de Marx, a relatividade de Einstein, os quanta de Planck ou o recalque e a sublimação de Freud, foi inicialmente tomada por princípio de objetividade ou de conhecimento das coisas. 3. Cabe ao empirista decidir se algo é capaz de sustentar a experiência, mas saber se isso mesmo não carece de outro suporte exige uma investigação filosófica sobre a essência do fundamento e do princípio, da qual pode resultar que algo seja fundamentalmente importante sem ser fundamento, e que o reconhecimento de um fundamento em filosofia permaneça sem influência sobre o conteúdo da experiência científica. 4. A distinção entre o físico e o psíquico possui evidência e pertinência extraordinárias, atingindo diferenças essenciais no ser da efetividade, como prova o progresso das ciências do corpo e da alma, mas tomá-la por fundamento suscita hoje, entre filósofos e cientistas empíricos, reservas e contradições ligadas às enigmáticas conexões do físico e do psíquico nas representações da pessoa e de suas realizações. 5. Descartes instaurou como fundamento a distinção entre físico e psíquico ao declarar principial a diferença entre res extensa e res cogitans, conferindo-lhe o caráter de disjunção integral, e embora os sentidos de psíquico e de res cogitans não coincidam, ambos visam a mesma esfera, que convém designar pelo termo alemão Innerlichkeit, interioridade, para não decidir de antemão sobre as essencialidades do psíquico, da consciência e do sujeito. 6. A fundamentalização cartesiana completa-se com a exigência de que o único método de conhecimento das coisas físicas seja a exposição matemático-mecânica ou a medida, de modo que, pela identificação entre corporeidade e extensão e pela equivalência entre extensão e mensurabilidade, a alternativa res cogitans e res extensa acarreta a fundamentalização da ciência matemática da natureza. 7. A separação de todo ser em res extensa e res cogitans, originalmente ontológica, possui um alcance metodológico que a subtrai em certo sentido à crítica ontológica, pois, sendo a natureza acessível apenas pela medida, toda diversidade intensiva das qualidades deve ser tida por cogitativa, restando somente duas possibilidades: dissolver mecanicamente os modos qualitativos dos corpos em quantidades ou defini-los como conteúdos e produtos da interioridade. 8. O pertencimento do ego, em sua autoposição, à interioridade designada como cogitans estabelece de modo ainda ontológico a base para a subjetivação dos elementos não extensos da natureza, pois ao lado da extensão não se encontra a intensidade, mas a interioridade, o pensar ou a consciência, de sorte que a determinação positiva de uma única contraesfera decide a estrutura de toda a imagem do mundo, sem necessidade da afirmação idealista-subjetivista de que a interioridade pertence somente ao ego. 9. O estreitamento do ser cogitans à dimensão do ego pessoal resulta da consideração gnosiológica inaugurada por Descartes, segundo a qual o ser do ego pessoal é indubitável justamente por ser res cogitans, já que o ser da dúvida, sendo ele mesmo uma cogitatio, está imunizado contra seu próprio veneno. 10. Enquanto cogitans, o ego só é compreensível em autoposição, isto é, apenas para si, porque cada um alcança o ser cogitans unicamente voltando o olhar para si num modo de percepção exclusivo, de modo que os outros egos, encontráveis num modo de percepção acessível a todos, não ficam ao abrigo da dúvida, e assim a concepção ontológica da res cogitans converte-se numa concepção metodológica pela qual a interioridade pertence somente a mim. 11. A possibilidade de a consciência ou o ego pessoal assumir a responsabilidade pelos fenômenos não quantitativos do mecanismo natural funda-se na natureza pensante do ego, plenamente contrária ao ser da extensão, e com a contrainstância da res cogitans encontra-se um procedimento para salvar os fenômenos e as qualidades da dissolução no mecanismo da natureza extensa. 12. Duas direções empíricas intransferíveis uma na outra obtêm assim seus campos de competência, a experiência interna e a experiência externa, o que equivale à partilha do conhecimento do mundo em conhecimento dos corpos e conhecimento do eu, ou seja, em física e psicologia. 13. O fenômeno como tal permanece inconcebível, pois o século XIX só pôde resolver o problema da qualidade sensível como Descartes, tornando subjetivo o qualitativo, seja pelas energias específicas dos sentidos no aparelho nervoso, seja por uma causalidade psíquico-espiritual, persistindo na fisiologia e na teoria do conhecimento modernas a mesma aporia da junção entre coisa extensa e coisa pensante e o mesmo enigma de como excitações e processos mecânicos nos nervos e no cérebro colorem qualitativamente a imagem de um objeto. 14. A filosofia só encontrou respostas às questões insolúveis derivadas da alternativa cartesiana onde ousou contestar a utilidade exclusiva dos métodos exatos para o conhecimento da natureza, e se a filosofia da natureza do idealismo alemão pouco avançou devido ao estado ainda insuficiente da ciência exata, hoje, esgotada a concepção da natureza como mera extensão e perplexos os cientistas da biologia e da psicologia, o lema de romper com Descartes reuniria inúmeros adeptos das ciências da natureza orgânica, caso a filosofia se decidisse a enfrentar de novo todo esse grande complexo de problemas. {{tag>Plessner fenômeno Descartes}}