====== INTRODUÇÃO A "O REAL" ====== //PARROCHIA, Daniel. Le réel. Paris: Bordas, 1991.// * A decisão de escrever sobre o real não coloca em questão o objeto do discurso, mas sim seus limites. * Quem se propõe a tratar do real não enfrenta a dificuldade de escolher um tema, mas a impossibilidade de determinar o que ficaria fora dele. * Coloca-se assim a questão fundamental de saber se algo pode efetivamente escapar ao real. * Mesmo o irreal, seja ele possível, ilusório ou fictício, parece participar de algum grau de realidade. * Algumas posições filosóficas sustentam inclusive que o irreal possui uma qualidade de existência tão real quanto o real propriamente dito. * Exemplos clássicos dessa ampliação ontológica aparecem na concepção do desordem como forma de ordem, ou do nada como modalidade do ser. * Essa indeterminação inicial conduz a uma desconfiança conceitual em relação ao termo “real”. * O termo parece excessivamente abrangente e, por isso mesmo, conceitualmente instável. * Diversas disciplinas contribuem para tornar essa desconfiança metodologicamente necessária. * A antropologia oferece uma primeira via crítica para compreender o estatuto do real. * O termo “real” pode funcionar como certos significantes polivalentes das línguas indígenas, descritos pela etnologia. * Esses significantes não designam conteúdos determinados, mas ocupam uma função estrutural de preenchimento de uma lacuna. * O real aparece, nesse sentido, como um significante flutuante, destinado a nomear aquilo que não se conhece. * Ele marca a presença de uma falta no coração do ser, que pode ser nomeada de múltiplas formas. * A própria ideia de Deus pode cumprir essa função, enquanto instância suprema do ser. * O deslocamento contínuo do saber reforça essa função flutuante do conceito de real. * O conhecimento reorganiza incessantemente suas fronteiras, categorias e divisões. * O real passa a indicar o movimento da diferença entre o que é conhecido e o que permanece desconhecido. * Trata-se da inadaptação estrutural entre o significante e o significado. * O real designa, assim, o impossível da adequação total entre o mundo e o saber. * Ele é o resto irredutível que impede o fechamento completo do sentido. * Essa impossibilidade de adequação total constitui a própria condição da vida social. * A troca, a comunicação e a vida coletiva baseiam-se nessa ausência permanente de completude. * Se o real fosse plenamente presente e totalmente conhecido, cessariam os intercâmbios. * A vida social depende dessa retirada incessante do real. * Surge então a questão da legitimidade de escrever um livro para falar desse impossível. * A filosofia analítica anglo-saxônica reforça essa cautela conceitual. * Existe um risco em redefinir unilateralmente termos do uso comum. * O termo “real” é apresentado como exemplarmente indefinível. * Ele acumula simultaneamente funções distintas no funcionamento da linguagem. * Enquanto termo dominante, o real exerce uma função excludente. * Ele serve mais para excluir o não-real do que para afirmar uma propriedade positiva. * O real se define por oposição ao fictício, ao ilusório ou ao enganoso. * Trata-se de um operador de exclusão sem conteúdo próprio. * Enquanto termo de cotação, o real confere valor e autenticidade. * Ele pertence a uma família de termos avaliativos. * Aplicar o termo “real” a algo equivale a reconhecê-lo como legítimo, verdadeiro ou autêntico. * Essa função aproxima o real de termos como verdadeiro, natural ou genuíno. * Ele opera de modo análogo ao termo “bom”, que expressa aprovação. * Enquanto termo ajustador, o real permite afinar o uso da linguagem. * Ele serve para ajustar outros termos às exigências variáveis do mundo. * O exemplo do gato ilustra esse papel regulador. * Diante de um caso limítrofe, o termo “real” ajuda a decidir se algo pertence ou não a uma categoria. * O real atua, assim, como critério de correção contextual. * A variabilidade desses critérios evidencia a instabilidade do conceito. * O que hoje é exceção pode tornar-se norma. * Os critérios do real e do não-real podem inverter-se. * O real revela-se dependente de contextos históricos e pragmáticos. * Ele não possui um conteúdo fixo e definitivo. * Essa análise parece esvaziar o conceito de real de qualquer consistência ontológica. * O real corre o risco de ser reduzido a um simples operador linguístico. * Coloca-se então a questão de saber se ainda é possível sustentar uma noção robusta de realidade. * O texto assume explicitamente esse desafio teórico. * O real não é concebido como uma essência imutável. * O próprio universo encontra-se em transformação contínua. * No entanto, essa mutabilidade não implica que tudo seja possível. * Certas impossibilidades persistem, independentemente das transformações. * O problema central passa a ser o da estabilidade no interior da mudança. * Trata-se de uma questão filosófica clássica. * A dificuldade consiste em identificar invariantes sem negar a dinâmica do real. * O desafio não autoriza o abandono do conceito, mas exige sua reformulação. * A questão fundamental é então reformulada em termos filosóficos. * Não se pergunta o que é real, mas o que é a realidade. * A primeira questão exigiria a totalidade do saber científico. * A segunda interroga a essência e a estrutura do real. * Trata-se de uma pergunta propriamente filosófica. * A abordagem adotada não consiste em um inventário histórico das respostas filosóficas. * O objetivo é explorar o campo semântico do conceito de realidade. * Essa exploração permite esclarecer seus usos e suas articulações conceituais. * O conceito é situado em uma rede de significações. * Três grandes problemáticas são então distinguidas. * A problemática ontológica define o real como aquilo que existe efetivamente. * O real se opõe ao aparente, ao fictício e ao ilusório. * A problemática epistemológica define o real como o absoluto. * Ele se opõe ao relativo e ao puramente fenomenal. * Durante muito tempo, foi pensado como independente do conhecimento. * A problemática antropológica define o real como o dado e o atual. * Ele se opõe ao possível e ao ideal. * Essa acepção envolve a finitude humana e as esferas psicológica, moral e político-jurídica. * A abordagem epistemológica é privilegiada no desenvolvimento da obra. * Essa escolha decorre da importância do real físico. * As questões contemporâneas da mecânica quântica reforçam essa centralidade. * A primeira razão dessa opção é crítica. * Busca-se resistir às tendências de desrealização presentes em certas correntes filosóficas. * O foco desloca-se das querelas metafísicas clássicas para a história efetiva das ciências. * Interessa compreender como a natureza foi constrangida a responder às interrogações humanas. * A segunda razão é de ordem cultural. * A relação moderna com o real difere radicalmente da relação religiosa tradicional. * Nas sociedades arcaicas, o real se dividia entre o sagrado e o profano. * O sagrado constituía a única realidade plena. * O mundo profano só adquiria realidade por participação em arquétipos transcendentais. * A vida humana era concebida como repetição de atos originários. * A modernidade rompe com essa estrutura simbólica. * O mundo torna-se homogêneo e não orientado. * O homem moderno é confrontado com a errância e com a necessidade de inventar sua liberdade. * Essa transformação é apresentada como irreversível. * Ela é atribuída às exigências internas da razão. * O texto assume, por fim, uma posição pragmatista e neorrealista. * A ciência transforma nossa imagem do real, mas não pode prescindir da referência. * A multiplicidade dos níveis de realidade supõe um elemento último irredutível. * A existência da realidade não é posta em dúvida. * O conhecimento dessa realidade permanece sempre parcial. * A ciência permite apenas uma redução progressiva da ignorância. * A distinção entre a existência do real e seu conhecimento é mantida como fundamental. {{tag>Parrochia realidade}}