====== CRISE E CONFLITO ====== //PARROCHIA, Daniel. La forme des crises: Logique et épistémologie. Seyssel: Champ vallon, 2008.// * Toda crise histórica intensifica a relação entre o indivíduo e a sociedade, transformando-a em problema e tensão. * Em períodos de estabilidade relativa, essa relação tende a permanecer implícita e pouco tematizada. * A crise torna visível aquilo que antes operava de modo latente. * A ligação entre indivíduo e ordem social passa a ser vivida como conflito. * No século XVII, antes da chamada “crise da consciência europeia”, predominava uma atitude de acomodação à ordem estabelecida. * Em Descartes, a moral provisória recomenda a adaptação dos desejos ao mundo existente. * A transformação interior é preferida à contestação da ordem externa. * A racionalidade cartesiana ainda não se traduz em crítica social radical. * Espinoza mantém essa integração entre indivíduo, sociedade e natureza. * A ordem social é inscrita em uma ordem racional da Natureza. * Essa Natureza é pensada tanto como natureza naturante quanto como natureza naturada. * O social aparece como expressão necessária de uma racionalidade cósmica. * Com os Encyclopédistes, em especial Diderot, emerge uma sensibilidade nova à arbitrariedade dos códigos culturais. * As ordens sociais passam a ser percebidas como frágeis e historicamente contingentes. * A ideia de necessidade racional do social começa a se desfazer. * A crítica desloca-se da Natureza para a cultura. * Rousseau radicaliza essa crítica ao denunciar a corrupção da sociedade. * A ordem social é vista como fator de desumanização. * O homem é progressivamente privado de seu caráter humano. * Anuncia-se aqui a noção de alienação, entendida como cisão entre o indivíduo e o mundo em que deveria realizar-se. * Consolida-se, assim, a ideia de que toda crise revela um conflito subjacente. * O conflito é inicialmente latente e não tematizado. * A crise atua como fator de exacerbação e revelação. * O que se manifesta na crise já estava estruturalmente presente. * O conceito de conflito remete historicamente à ideia de combate. * Deriva do latim conflictus, choque, proveniente de confligere, chocar-se. * O conflito designa um embate constitutivo, e não um acidente ocasional. * A condição humana é, desde o início, uma condição conflitiva. * Em Hegel, o conflito fundamental decorre da própria situação do indivíduo no mundo. * O indivíduo se percebe como totalidade fechada e unidade autônoma. * Simultaneamente, encontra-se dependente do que não é ele. * Essa contradição gera uma luta incessante sem resolução definitiva. * A tentativa de superação apenas prolonga o conflito originário. * Essa estrutura contraditória pode ser compreendida em diferentes níveis. * No nível biológico, há um debate permanente entre o organismo e o meio. * Georges Canguilhem descreve essa relação como debate normativo, e não como luta. * O vivente impõe normas ao meio e se acomoda a ele. * A luta aparece apenas como caso limite e patológico. * Uma vida que se afirma contra o meio já se encontra ameaçada. * A dominação do exterior sobre o organismo manifesta-se em reações de rigidez. * A vida saudável é caracterizada pela flexibilidade, pela adaptação confiante. * A situação em que o meio comanda o organismo define a situação catastrófica. * No caso humano, porém, o conflito é inevitável e assume forma existencial. * A consciência humana é atravessada por tensões internas. * Em Hegel, a figura de Abraão simboliza essa contradição vivida. * O desejo de existir entra em choque com o medo de existir. * A dor resulta da experiência dessa contradição como tal. * O homem encontra-se, portanto, em conflito consigo mesmo e com o mundo. * Esse conflito pode permanecer em estado latente. * Ele se intensifica quando ocorre uma crise histórica ou pessoal. * Com a crise, o conflito adquire nova dimensão. * À tensão estrutural soma-se uma oposição de caráter ético. * O fenômeno da aceitação ou recusa deixa de ser apenas psíquico. * Ele passa a envolver valores, decisões e escolhas fundamentais. * A crise provoca uma ampliação excessiva da situação conflitiva. * Um acontecimento inicialmente limitado adquire alcance global. * Pode transformar profundamente a vida ou a visão de mundo de um indivíduo. * A dimensão existencial do conflito torna-se explícita. * O conflito existencial distingue-se das crises afetivas ordinárias. * Ele não se dissipa com o tempo. * Não se reduz à tensão cotidiana que se resolve espontaneamente. * Ele tende a se estender e a se agravar enquanto a crise persiste. * De modo geral, os conflitos se intensificam nas crises, mas não se originam nelas. * O conflito precede a crise. * A crise atua como revelador e catalisador. * Ela faz emergir contradições já existentes. * Exemplos históricos ilustram essa dinâmica. * No final do século XVIII, a crise do trigo e a fome revelam o conflito entre povo e nobreza. * No século XX, a crise de 1929 explicita contradições do capitalismo. * A euforia econômica anterior ocultava temporariamente esses conflitos. * Pode-se afirmar que as grandes rupturas históricas decorrem de conflitos levados ao extremo. * A interpretação marxista entende a história como processo conflitivo. * As transições entre modos de produção resultam de conflitos econômicos fundamentais. * As forças produtivas entram em contradição com as relações sociais existentes. * As crises econômicas expressam essa contradição estrutural. * O progresso técnico gera sobreprodução. * O mercado torna-se incapaz de absorver o excedente. * Instala-se a crise e abre-se a possibilidade de transformação revolucionária. * Segundo Marx, a história deveria culminar na superação do capitalismo. * A passagem ao comunismo seria o desfecho necessário. * Essa previsão não se realizou conforme esperado. * Uma das razões desse desvio reside na capacidade adaptativa do capitalismo. * O sistema desenvolveu mecanismos de gestão de crises. * Soluções transacionais atenuaram conflitos estruturais. * A crise deixou de conduzir automaticamente à ruptura revolucionária. 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