====== 0.9 Saudação ====== //ORTEGA Y GASSET, José. El hombre y la gente. Madrid: Revista de Occidente, 1957.// **Introdução** **IX. MEDITAÇÃO DA SAUDAÇÃO** 1. A viagem rumo à descoberta do que é em verdade a sociedade e o social entrou em crise. 2. O percurso partiu da desconfiança inspirada pelos sociólogos, nenhum dos quais se deteve com a demora exigível na análise dos fenômenos sociais mais elementares, e da constatação de que nos livros, na imprensa e nas conversas se fala com exemplar irresponsabilidade de nação, povo, Estado, lei, direito e justiça social sem a menor noção precisa, o que levou a buscar por conta própria a verdade dessas realidades, pondo diante de si as próprias coisas e fugindo das interpretações alheias, e para isso foi preciso retirar-se à realidade radical em que todas as demais têm de aparecer, a vida de cada um. 3. Na vida tem de manifestar-se tudo o que pretenda ser realidade, e o âmbito dessa manifestação é o mundo primordial, patente e sem mistério, cujo inventário buscou coisas a que coubesse aplicar com precisão algum dos sentidos imprecisos das palavras social, socialidade e sociedade, percorrendo minerais, plantas, animais e homens, e só nestes últimos, capazes de responder à ação com amplitude e nível equivalentes, isto é, de corresponder e reciprocar, pareceu encontrar-se uma realidade digna de chamar-se trato ou relação social. 4. Várias lições analisaram a estrutura mais elementar e abstrata da relação social, na qual o homem vai aparecendo e se precisando diante do outro, passando do puro outro, o desconhecido ainda não identificado, ao indivíduo único, o tu e o eu. 5. Percebe-se agora algo constitutivo do que se chamou relação social, tão evidente que não fora sublinhado, que todas essas ações e reações se originam num indivíduo como tal e se dirigem a outro indivíduo como tal, sendo portanto uma realidade formalmente interindividual, conhecidos ou desconhecidos os dois, como entre pais e filhos, irmãos, amantes, camaradas, mestres e discípulos ou homens de negócios, sempre dois homens frente a frente, cada um agindo a partir de sua individualidade e em vista de seus fins, de modo que convivem, emergindo cada um de sua solidão radical para tentar alcançar a do outro, num plano de realidade segundo que conserva o caráter fundamental do humano, ser sempre pessoal, como o pai que se dirige ao filho enquanto indivíduo personalíssimo ou o enamorado que se apaixona não pela mulher em geral, mas por esta mulher. 6. A análise dessas relações, agora chamadas interindividuais ou convivência, parecia ter esgotado as realidades que podem pretender o nome de sociais, como ocorreu à maioria dos sociólogos, que nem puseram o pé na autêntica sociologia por confundirem desde o umbral o social com o interindividual, o que significa que chamar este último de relação social, seguindo o uso vulgar e a doutrina de Max Weber, o maior sociólogo recente, era um puro erro, sendo preciso aprender de novo e claramente o que é o social, que aparece não por oposição ao individual, como era óbvio crer, mas por contraste com o interindividual, o que tornava imprescindível toda a preparação anterior. 7. A simples experiência do guarda de trânsito que, com gesto digno e até hierático, impede atravessar a rua causa um sobressalto que é como uma chicotada de luz, revelando uma realidade estranhíssima, envolvente e cotidiana, à qual nunca se prestara a devida atenção, e que Durkheim entreviu confusamente sem conseguir analisá-la nem pensá-la em conceitos, razão pela qual convém rejeitar as aparentes coincidências com sua doutrina, ilusórias e desorientadoras, já que a sociologia daqui resultante é a mais oposta possível à dele, a ponto de ser tremenda, pois a de Durkheim é beata e esta é tremenda no sentido de tremebunda. 8. A relação com o guarda nada tem de relação de pessoa a pessoa, pois, enquanto o ato de atravessar nasceu da responsabilidade individual, o ato do guarda não se origina nele nem se dirige ao outro de homem a homem, já que, talvez preferindo ser amável, ele suspendeu sua vida pessoal e se converteu num autômato que executa mecanicamente o regulamento, expressão de uma vontade que, por uma série de transferências como alcatruzes, do guarda ao diretor de polícia, ao ministro do Interior e ao chefe de Estado, desemboca numa entidade que não é um homem, o Estado, que nunca aparece, sempre oculto atrás de homens que governam em seu nome, sendo talvez a mais social das coisas segundo a língua, fértil indicadora de realidades, mas nunca garantia suficiente, pois toda palavra é já teoria, às vezes arcaica e mumificada, uma definição contraída, diante da qual o homem de ciência deve dizer vejamos, e como o mesmo ocorrerá com todas as coisas sociais, é preciso exercitar métodos de detetive, já que a realidade social é essencialmente ocultadora, encoberta e sub-reptícia, causa de ser a sociologia a mais recente e balbuciante das ciências humanas. 9. Além do Estado, indicado e encoberto pelo guarda, outras coisas sociais saem de seu esconderijo habitual, como o vestir-se, que, deixando margem ao capricho, impõe suas linhas principais porque se usa, e o usual se faz porque se faz, e quem o faz é a gente, todos e ninguém determinado, sem autor responsável, de modo que andar pela rua e vestir-se são atos humanos executados por nós, mas não nossos, decididos em nós por Ninguém, e portanto inumanos, realidade heteróclita e contraditória que se estende das condutas externas às ideias e opiniões, em sua maioria nunca pensadas com evidência responsável, mas pensadas porque ouvidas e ditas porque se dizem, expressas pelo estupefaciente se impessoal, que nomeia um alguém que é ninguém, um homem qualquer contanto que não seja nenhum, como no dandismo de Baudelaire que queria viver em qualquer parte contanto que fosse fora do mundo, ou no on dit francês, de homo, um homem que não é nenhum homem determinado e portanto um homem inumano, que, quando se faz o que se faz e se diz o que se diz, se leva dentro e se é. 10. Esse é o fenômeno inegável e incontestável, a nova realidade inescapável, que é preciso agora entender com transparência total, sem ser lícito eludi-la ou negá-la, pois é patente apesar de seu caráter esquivo. 11. Para tentar entendê-la convém analisar um exemplo de fato social que parece o mais adequado para ingressar a fundo em toda a questão. 12. Alguém vai à casa de um conhecido onde encontrará reunidas outras pessoas conhecidas, por motivo privado e não oficial, uma visita de aniversário, um coquetel, uma festa de sociedade ou uma reunião sobre algum assunto, e vai por ato voluntário, movido pela intenção de fazer algo que lhe interessa pessoalmente, ações que lhe ocorreram, procedem de sua inspiração e têm sentido para ele, ainda que outros tenham feito o mesmo, pois as faz por conta própria, reoriginando-as em si, de modo que têm os dois caracteres específicos do comportamento humano, nascer de sua vontade, sendo ele seu autor pleno, e ser inteligíveis, entendendo o que faz, por que e para quê. 13. O estupefaciente é que a primeira ação ao entrar no salão, anteposta a todas as demais como primeira nota de uma melodia de comportamento, é algo estrambótico, aproximar-se de cada pessoa presente, tomar sua mão, apertá-la, sacudi-la e soltá-la, a saudação, que não estava na lista do que se ia fazer, não foi premeditada, não interessa e talvez até incomode, de modo que não procede de quem a pratica, embora indubitavelmente a execute. 14. A saudação interessa tão pouco que nem sequer é referida individualmente a cada dono da mão apertada, nem ele a refere a quem saúda, o que mostra que não é uma relação interindividual, embora sejam dois indivíduos que se dão as mãos, mas que seu sujeito criador e responsável é um alguém ou algo X que não é nenhum dos dois e os envolve como que acima deles, podendo haver de individual apenas um mínimo bordado acrescentado ao esquema, o mais ou menos de pressão, o ritmo ao sacudir, reter ou soltar, gesto emotivo e secreto que não pertence à saudação, forma rígida, sempre idêntica, notória e habitual de tomar a mão alheia, apertá-la, sacudi-la e soltá-la. 15. Para evitar hipóteses e ater-se ao que acontece com evidência a cada um ao saudar, único método radical que defende do erro, cabe extrair os caracteres mais importantes desse ato: é executado por um ser humano; não lhe ocorreu nem foi inventado por ele, mas copiado da gente, de origem extraindividual, nem meu nem teu nem de ninguém determinado; não é executado por vontade espontânea, mas muitas vezes a contragosto; falta-lhe portanto a origem intelectual e volitiva própria de toda ação humana, parecendo-se mais a um movimento mecânico e inumano; e, o pior, apesar de elementar e habitual, nem sequer se entende, pois o que se sabe é que é preciso fazê-lo para não ser tido por mal-educado ou presunçoso, mas não se entende o que se faz, ao contrário do médico que toma a mão do doente para sentir o pulso ou de quem detém a mão que empunha um punhal, e isso se confirma no Tibete, onde em ocasião idêntica o próximo vira a cabeça de lado, puxa uma orelha e mostra a língua, operação cuja finalidade está longe de ser translúcida. 16. Sem passar em revista as formas de saudação surgidas na história, muitas ainda vigentes, urge extrair com rigor os caracteres do próprio ato de saudar enquanto ação humana, dois dos quais já foram sublinhados. 17. A saudação não é invenção do indivíduo, mas vem já inventada de fora, sem que se saiba por quem, encontrada pronta por todos os vivos, ação cumprida por nós, mas não nossa, de origem anônima e extraindividual; sua execução não é voluntária, aceita-se fazê-la, mas não por desejo; e, por fim, o que se faz ao saudar não é entendido, sendo tão sem sentido e misterioso quanto o mais insondável arcano da natureza, e portanto irracional. 18. Invertendo a ordem desses caracteres, se não se entende o ato de saudar, mal pode ter ocorrido a quem o pratica, e se não tem sentido, mal se pode querer fazê-lo, pois só se quer o que é inteligível, de modo que se saúda sem saber o que se faz e, em consequência, sem querer, contra a vontade e o gosto, ação ininteligível, involuntária e às vezes contravoluntária, novo caráter de inumanidade. 19. O que não se faz por gosto se faz a contragosto, isto é, à força, e saudar é um fazer à força, não muito diverso do de quem cai de um segundo andar à força da gravidade, embora as objeções prontas a essa afirmação aparentemente óbvia sejam menos certeiras do que parecem. 20. É verdade que o amante gosta de saudar a amada, que toda a Vita Nuova e a vida inteira de Dante giram em torno do afã de uma saudação e que o enamorado aproveita fraudulentamente a ocasião para estremecer ao sentir o calor de outra mão, mas esse prazer não é da saudação, que não é prazer algum, e sim uma fraude, um abuso do uso, pois o amor sempre mostra fértil inspiração fraudulenta, como alerta contrabandista, e o próprio enamorado sabe que a delícia de tocar a mão querida lhe custa apertar muitas outras, algumas aborrecidamente suadas, sendo também para ele saudar uma operação feita à força. 21. Quem força é o uso, mas resta saber quem é esse uso que tem força para forçar, esse atleta vigoroso. 22. É inevitável enfrentar o problema do que é o uso, que ninguém até agora se deu o trabalho de investigar a fundo e que quase passou despercebido no inventário do mundo, embora não haja realidade mais abundante e onipresente, pois não se trata só do uso estatal de impedir a travessia e das normas do vestir, mas o uso se intercala até na relação mais puramente interindividual, entre mãe e filho ou entre amantes, que precisam usar uma língua, imenso sistema de usos verbais, repertório gigantesco de vocábulos usados e formas sintáticas estereotipadas, imposta desde o nascimento pelo dizer da gente, e como vocábulos e formas levam significação, ideia e opinião, o dizer da gente é também um sistema de opiniões públicas que penetra, quase enche por dentro e oprime sem cessar por fora. 23. Desde que se vê a luz, vive-se mergulhado num oceano de usos, que são a primeira e mais forte realidade encontrada, o contorno ou mundo social em sentido estrito, a sociedade em que se vive, através da qual se veem o mundo dos homens e das coisas e o Universo. 24. Vale a pena, portanto, esclarecer plenamente o que é o uso, como se forma, o que lhe acontece quando cai em desuso e em que consiste a contravenção do uso que se chama abuso. 25. Para que essa investigação seja evidente, convém fazê-la analisando um uso concreto, e nenhum parece tão apropriado quanto a saudação. {{tag>Ortega humano sociologia alteridade instersubjetividade saudação}}