====== 0.12 Opiniões ====== //ORTEGA Y GASSET, José. El hombre y la gente. Madrid: Revista de Occidente, 1957.// **Introdução** **XII. O DIZER DA GENTE: AS "OPINIÕES PÚBLICAS", AS "VIGÊNCIAS" SOCIAIS. O PODER PÚBLICO** 1. A língua materna está fora de cada um, no contorno social, e desde a primeiríssima infância penetra mecanicamente pelo que a gente diz, de modo que falar, no sentido estrito de usar uma linguagem determinada, é uma operação que vai de fora para dentro, recebida e devolvida mecânica e irracionalmente, enquanto dizer começa dentro do indivíduo, como tentativa consciente e racional de exteriorizar algo de sua intimidade, para o que emprega todos os meios disponíveis, entre eles a fala e também as belas-artes, sendo a fala como uma série de discos de gramofone que o dizer dispara, de modo que dizer é ação propriamente humana e falar é exercer um uso imposto pela coletividade, nem nascido em quem o exerce, nem inteligível, nem voluntário, e na fala, que os antigos chamavam ratio e lógos, reaparece a estranha realidade de todo fato social, humana e inumana, pois cada palavra ou construção, perseguida até sua etimologia, foi uma criação com sentido para quem a inventou e para seus receptores imediatos e, ao entrar no uso, esvaziou-se de sentido e se desalmou. 2. Durante a guerra civil espanhola alguém inventou a expressão manda-más, combinação original que, embora seu autor tampouco entendesse por que mandar se chama mandar nem por que mais se chama mais, tinha sentido para ele e seu contorno e iluminava tão bem a situação tragicômica do poder público daqueles dias que descrevê-la daria a definição mais exata dessa situação, e passada essa anomalia incapaz de perdurar, a palavra decai e provavelmente desaparecerá, exemplo de uso que teve vigência e cai em desuso, mas se continuasse vivo no dizer da gente, em poucas gerações se contrairia talvez em malmás e seus usuários já não entenderiam por que assim se chama quem manda mais em situações confusas de autoridade. 3. A ação humana cheia de sentido do compatriota que a inventou genialmente, transformada em puro uso verbal, ter-se-ia desumanizado, como ocorre hoje com as palavras mandar e mais, esta última incompreendida até por Meillet, o que merece exame por ser mais um exemplo do desalmamento da língua e por antecipar assuntos importantes. 4. Mais vem do latim magis, como em magis esse, do mesmo radical de magnus, e Meillet, sem extrair disso nada, nota que em latim havia também grandis, de tamanho espacial, e plus, de abundância numérica, enquanto magnus tinha frequentemente uma ideia acessória de força e poderio, o que basta para extrair desse radical um sentido importante, pois de magis esse vem magister, de onde magistratus, o magistrado, que em Roma é o governante, o que manda, mais que os outros cidadãos porque pode mais, já que mandar, de manu dare, é impor-se porque se tem poder superior, e o erro de Meillet está em ficar diante da coisa nomeada como se existisse por pura magia, sem perceber que toda coisa é decantação de uma energia que a causou e a sustenta no ser, como dizia Platão, energia revelada pelo mesmo radical em majestade, no germânico Macht, poder, no alto alemão magan, no antigo franco amoier, assustar, de onde o francês émoi, no inglês may e might, no alemão mögen e möglich, e no grego megalé, que é também poder de fazer algo, e mekhané, mecanismo, mecânica e máquina. 5. Numa etapa da evolução indo-europeia, mag significou poderio e força, e como todo homem tem algum poder, significou desde logo um poder superior ao dos demais, prepotência, poder mais, de modo que magistrado significa propriamente manda-mais, coisa em que hoje ninguém pensa, o que mostra que as palavras são cadáveres de antigas significações, embora a realidade do magistrado, ainda hoje, consista em fazer funcionar as forças de polícia, e em Roma o cônsul era ao mesmo tempo capitão-general do exército. 6. O jogo das etimologias não é vão, pois quase sempre desnuda realidades cruas da vida humana que séculos posteriores, mais afeitos à hipocrisia e aos eufemismos, ocultam, e esta, além de mostrar de novo como as palavras, ao entrar no sistema de usos verbais, perdem sua inteligibilidade e sua alma e perduram como peças mecânicas, antecipa algo muito importante que não é questão linguística. 7. Com essas peças mecânicas se diz, melhor ou pior, o que se pensa, e o contorno social, ao injetar desde a infância a linguagem usual, insufla também as ideias que ela diz, o que é mais grave, pois as ideias sobre as coisas, os outros e si mesmo são o que mais profundamente constitui o homem e o argumento do drama que é a vida, muito diferente para quem crê em Deus e para quem crê só na matéria, e a maioria dessas ideias nunca foi pensada nem repensada por conta própria, mas empregada mecanicamente por conta da coletividade, que as fez penetrar sob pressão como o lubrificante no automóvel, de modo que seria curioso saber quantos pensaram alguma vez que dois e dois são quatro ou que o sol nascerá amanhã, e a imensa maioria das ideias, embora atuem como convicções, não é racional, mas usos tão mecânicos, ininteligíveis e impostos quanto a língua ou a saudação, já que uma ideia, sendo opinião verdadeira ou falsa sobre algo, só é racional quando se fazem presentes as razões que fundam sua verdade ou demonstram seu erro, ao passo que se diz tudo sobre todos os assuntos por conta do que a gente diz, como quem saca contra um banco cujo balanço nunca leu, vivendo intelectualmente a crédito da sociedade como autômato, e só em um ou outro ponto se revisam as contas, se critica a ideia recebida e se a rejeita ou readmite por tê-la repensado e examinado seus fundamentos. 8. O contorno social, cheio de palavras e dizeres, está por isso mesmo cheio de opiniões. 9. No enxame de opiniões que saem do dizer da gente distinguem-se as reinantes, ditas como coisa óbvia admitida por todo mundo, e as particulares, enunciadas como não admitidas ou opostas às comuns, com brio ou timidez, mas com veemência persuasiva e mostrando suas razões, pois o opinante sabe que precisam, para ter existência pública, ser afirmadas e propagadas por ele ou por um grupo afim, enquanto as reinantes não são ditas como descoberta própria nem precisam de apoio, bastando aludir a elas para apoiar-se nelas como instância superior, um regulamento ou lei, porque são usos estabelecidos que se impõem a todos e exercem sobre todos sua pressão, chamados por isso vigências, cujo vigor percebe com enfado quem tenta opor-se, e um enorme repertório dessas opiniões estabelecidas, os lugares-comuns, vigora em todo momento normal da existência coletiva, de modo que a sociedade não contém ideias clara e fundadamente pensadas, mas só lugares-comuns, que podem ser magníficas ideias, mas não atuam por suas qualidades, e sim por sua pressão mecânica e sem alma, e a língua vulgar as chama significativamente opiniões reinantes, pois reinam como um governo, a opinião pública que Pascal chamou rainha do mundo e que não é noção moderna, já que Protágoras falava no século V a.C. de dógma póleon e Demóstenes de uma voz pública da pátria, reinando como a saudação, os costumes e a língua, porque todo o verdadeiramente social é pressão, coação, império e reinado sobre os indivíduos. 10. Há uma diferença radical entre a opinião particular de um grupo, por enérgico, proselitista e combativo que seja, e a opinião pública, efetivamente estabelecida e vigente, que impera por si sem precisar de defensores, enquanto a particular só existe na medida em que alguém se dá ao trabalho de sustentá-la. 11. Livros, estudos e sobretudo as enquetes dos institutos anglo-saxões de opinião confundem quase sempre a opinião pública com uma opinião particular sustentada por mais ou menos indivíduos, mas a vigência, fenômeno sociológico fundamental presente em todo uso e caráter mais substantivo do fato social, não consiste na adesão individual, e nisso reside todo o acerto de uma sociologia, pois o uso é uso porque se impõe aos indivíduos e não depende de sua adesão, sendo por isso o social realidade distinta do individual, como na saudação, que pesa sobre todos mesmo que todos sejam in pectore contrários a ela, até que se ponham abertamente de acordo, e como o uso se forma nos grandes espaços multitudinários da sociedade, sua vigência não exige o acordo de todos nem de uma maioria, erro de ótica derivado de ter sido durante quase cem anos lugar-comum reinante o princípio majoritário, que os trisavós e bisavós julgaram desastradamente decorrer da ideia democrática. 12. Determinar as condições em que algo, opinião ou outro uso, adquire o caráter de vigência social é questão que daria saborosas investigações, mas que cabe deixar intacta, sendo ainda mais importante compreender a própria ideia de vigência, alfa e ômega de toda a sociologia, difícil de ver e propensa a escapar, cujos dois caracteres mais acusados são não depender da adesão individual, estando aí como algo com que é preciso contar e que por isso coage, e poder ser invocada a todo momento como instância de poder em que se apoiar. 13. A palavra vigência procede da terminologia jurídica, que distingue leis vigentes de derrogadas, sendo vigente a lei que, quando o indivíduo recorre a ela, se dispara automaticamente como aparelho mecânico de poder, e os dois caracteres atribuídos à vigência coincidem com os que tradicionalmente se atribuem ao direito e à ação do Estado, o que mostra o erro dos filósofos do direito ao considerá-los específicos do direito, quando aparecem já num uso débil e cerimonial como a saudação e são constitutivos de todo fato social, de modo que a sociedade, conjunto dos usos, se impõe e ao mesmo tempo é instância de amparo, o que implica que é por essência poder, incontrastável diante do indivíduo, poder que a opinião pública tem por trás de si e faz funcionar nas diversas dimensões da existência coletiva, o poder público. 14. Persiste um vício intelectual nunca de todo curado que impede ver os fenômenos sociais, o de não perceber uma função social sem um órgão especializado em servi-la, como os etnógrafos que, até há pouco, julgavam não haver direito nem função estatal nas sociedades primitivas sem magistraturas nem legisladores. 15. O mesmo ocorre com o poder público, que só se vê quando, numa etapa avançada, assume a figura de um corpo armado especial com regulamento e chefes, mas que atua constantemente sobre os indivíduos desde que há agrupação humana e, na própria sociedade atual, opera sem cessar além da polícia e do exército, sem ser percebido por ser constante e ubíquo, como a pressão atmosférica ou a dureza do chão, embora sua eficácia se manifeste na regulação da conduta e, tão logo alguém sai do leito dos costumes, na tempestade de protestos ameaçadores do contorno contra seu abuso. 16. Nos povos primitivos não há polícia encarregada de vigiar e inspecionar, mas o corpo social exerce essa função com minúcia e continuidade muito superiores às da polícia moderna. 17. Speiser observa, em sua contribuição ao livro The Depopulation of Melanesia, que nas Novas Hébridas homens e mulheres vivem o dia todo juntos, cada sexo por seu lado, de modo que a ausência de um homem é sempre notada e precisa de justificativa, sem falar da presença de um homem entre as mulheres. 18. Assim os costumes têm forçosamente de ser o que se chama bons, pois a coletividade vigia sem propô-lo cada minuto da vida individual, sem necessidade de corpo especial de polícia, e quando os europeus desarticularam a sociedade nativa atraindo os homens para trabalhos industriais e agrícolas, essa vigilância espontânea desapareceu e foi substituída por autêntica polícia, e no mesmo momento os costumes das ilhas começaram a ser maus. 19. Muitos fatos semelhantes poderiam ser aduzidos, mas este basta para adestrar o olhar na percepção das funções que toda sociedade exerce sem dar-se ares disso. 20. O poder público não é senão a emanação ativa e energética da opinião pública, na qual flutuam todos os demais usos ou vigências que dela se nutrem. 21. A forma e o grau de violência com que o poder público atua dependem da importância que a opinião pública atribui aos abusos ou desvios do uso, como mostra o fato de que em muitos povos africanos de língua banto a palavra para crime significa coisas odiosas à tribo, isto é, contrárias à opinião pública. 22. Reciprocamente, o poder público supõe uma opinião verdadeiramente pública, unitária e de vigência robusta, e quando isso falta há apenas opiniões particulares de grupos, geralmente associados em dois grandes conglomerados, e então a sociedade se cinde e o poder público deixa de sê-lo e se fragmenta em partidos, hora da revolução e da guerra civil. 23. Essas dissensões máximas são apenas o superlativo de um fato inerente a toda sociedade, o caráter antissocial de muitos indivíduos, o assassino, o ladrão, o traidor, o arbitrário, o violento, o que basta para perceber que chamar sociedade a uma coletividade é um eufemismo que falseia a visão da vida coletiva, pois ela nunca é o que o nome promete, mas sempre também dissociedade, repulsão entre os indivíduos, uma realidade constitutivamente enferma e deficiente, luta incessante entre seus elementos sociais e seus elementos dissociadores e antissociais, que para manter um mínimo de sociabilidade e perdurar precisa fazer intervir com frequência, de forma violenta, seu poder público interno e até criar, quando deixa de ser primitiva, um corpo especial encarregado de fazê-lo funcionar de modo incontrastável, o que se chama o Estado. {{tag>Ortega humano opinião público}}