====== 3 filosofia e ciência====== //ORTEGA Y GASSET, José. O que é a Filosofia?. Tr. José Bento. Lisboa: Cotovia, 1994, p. 46-49.// [O «tema do nosso tempo». —A «ciência» é mero simbolismo. —As ciências em rebeldia. — Por que há filosofia?—A exactidão da ciência e o conhecimento filosófico. — Agnosticismo e «temas últimos».]// Mas o meu assunto agora não me deixa desviar-me em considerações sobre o porvir da ciência, e o que insinuei sobre o seu presente veio só para mostrar as condições intelectuais atmosféricas que prepararam o regresso a uma filosofia maior, corrigindo a retracção dos últimos cem anos. O filósofo encontra na combinação do ar público uma nova coragem para se t;ornar também independente e fiel à limitação do seu destino. Mas há um outro motivo mais forte que os apontados para que seja possível um renascimento filosófico. A tendência para que cada ciência aceite a sua própria limitação a se proclame independente são somente condições negativas bastantes para acabar com os estorvos que durante um século paralisaram a vocação filosófica, mas não nutrem nem provocam esta energicamente. Por que volta, pois, o homem à filosofia? Por que volta a ser normal a vocação para ela? Evidentemente, volta-se a uma coisa pela mesma razão essencial que levou a ela na primeira vez. Se assim não for, o regresso carece de sinceridade, é uma falsa volta, um fingir que se volta. Isto obriga-nos a que coloquemos a questão da razão por que ocorre ao homem em absoluto fazer filosofia. Porquê ao homem — ontem, hoje ou outro dia — lhe ocorre filosofar? Convém trazer com claridade à mente essa coisa que costumamos chamar filosofia, para poder depois responder ao «porquê» do seu exercício. Nesta nova óptica reaparece a nossa ciência com as características que teve em todas as épocas vigorosas, embora o progresso do pensamento module aquelas de forma nova e mais rigorosa. [46] Vou responder a esta pergunta com uma série de traços, mediante fórmulas que, pouco a pouco, nos dias que se seguem, irão revelando todo o seu sentido. O que primeiro ocorrería dizer seria definir a filosofia como conhecimento do Universo. Mas esta definição, sem ser errônea, pode deixar-nos escapar precisamente tudo o que há de específico, o peculiar dramatismo e o tom de heroicidade intelectual em que a filosofia e só a filosofia vive. Parece, com efeito, essa definição uma oposição à que podíamos dar da física, dizendo que é conhecimento da matéria. Mas sucede que o filósofo não se coloca diante do seu objecto — o Universo — como o físico perante o seu, que é a matéria. O físico principia por definir o perfil desta e só depois começa o seu labor e tenta conhecer a sua estrutura íntima. Do mesmo modo, o matemático define o número e a extensão; isto é, todas as ciências particulares começam por demarcar um pedaço do Universo, por limitar o seu problema, que por ser limitado deixa em parte de ser problema. Em outras palavras: o físico e o matemático conhecem de antemão a extensão e os atributos essenciais do seu objecto; portanto, começam não com um problema, mas com algo que dão ou tomam como já sabido. Mas o Universo em cuja pesquisa o filósofo parte audaz como um argonauta, não se sabe o que é. Universo é o vocábulo enorme e monolítico que como uma vasta e vaga gesticulação oculta mais do que enuncia este conceito rigoroso: tudo quanto há. Isso é, para já, o Universo. Isso, notem vocês bem, nada mais do que isso, porque quando pensamos o conceito «tudo quanto há», não sabemos o que seja isso que há; aquilo em que unicamente pensamos é um conceito negativo, a saber: a negação do que somente é parte, bocado, fragmento. O filósofo, pois, de modo diferente de qualquer outro cientista, embarca para o desconhecido como tal. O mais ou menos conhecido é partícula, porção, esquírola de Universo. O filósofo situa-se perante o seu objecto numa atitude diferente de qualquer outro conhecedor; o filósofo ignora qual é o seu objecto e dele sabe somente: primeiro, que não é nenhum dos restantes objectos; segundo, que é um objecto integral, que é o autêntico todo, o que não deixa nada de fora e, por isso, o único que se basta. Mas precisamente [47] nenhum dos objectos conhecidos ou suspeitados possui esta condição. Portanto, o Universo é o que radicalmente não sabemos, o que absolutamente ignoramos no seu conteúdo positivo. Em outras palavras, podíamos dizer: às restantes ciências é dado o seu objecto, mas o objecto da filosofia como tal é exactamente o que não pode ser dado; porque é tudo e porque não é dado, terá que ser num sentido muito essencial o buscado, o perenemente buscado. Nada tem de estranho que a ciência, cujo objecto tem que se começar por buscar, isto é, que até como objecto e assunto já é problemática, tenha uma vida menos tranquila que as outras e não goze à primeira vista daquilo a que Kant chamava der sichere Gang. Este passo seguro, tranquilo e burguês não o terá nunca a filosofia, que é puro heroísmo teorético. Ela consistirá em ser também como o seu objecto a ciência universal e absoluta que se busca. Assim a chama o primeiro mestre da nossa disciplina, Aristóteles: Filosofia, a ciência que se busca, ζητουμένη έπιστήμη [zetoumene episteme]. Mas tão-pouco na definição dita antes — a filosofia é o conhecimento do Universo — significa conhecimento o mesmo que nas ciências particulares. Conhecimento no seu sentido estrito e primário significa solução positiva e concreta para um problema, isto é, penetração perfeita do objecto pelo intelecto do seu sujeito. Pois bem, se conhecimento fosse somente isso, a filosofia não podería comprometer-se a sê-lo. Imaginem vocês que a nossa chegasse a demonstrar que a última realidade do Universo está constituída por um ser absolutamente caprichoso, por uma vontade aventureira e irracional — isto acreditou, com efeito, descobrir Schopenhauer. Então não era possível a penetração total do objecto pelo sujeito — essa realidade irracional seria opaca para a intelecção — e, contudo, não é duvidoso que fosse aquela uma perfeita filosofia, não menos perfeita que as outras para as quais o ser era na sua integridade transparente para o pensamento e dócil para a razão, ideia básica de todo o racionalismo. Temos, pois, de salvar o sentido do termo conhecimento e observar que se, com efeito, significa, em primeiro lugar, esse [48] pleno ingresso do pensar no Universo, será possível uma escala de valores de conhecimento de acordo com a maior ou menor aproximação a esse ideal. A filosofia deve começar por definir aquele conceito máximo e simultaneamente deixar abertos os graus inferiores daquele conceito, pois todos serão, ao fim e ao cabo, em uma ou outra medida, modos de conhecer. Por esta razão proponho que, ao definir a filosofia como conhecimento do Universo, entendamos um sistema integral de atitudes intelectuais no qual se organiza metodicamente a aspiração ao conhecimento absoluto. O decisivo, pois, para que um conjunto de pensamentos seja filosofia, baseia-se em que a criação do intelecto perante o Universo seja também universal, integral — que seja, em suma, um sistema absoluto. É, pois, obrigação constituinte da filosofia tomar uma posição teorética, enfrentar todos os problemas, o que não quer dizer resolvê-los, mas sim demonstrar positivamente a sua insolubilidade. Isto é o característico da filosofia perante as ciências. Quando estas encontram um problema para elas insolúvel, simplesmente deixam de o tratar. A filosofia, contudo, ao partir admite a possibilidade de que o mundo seja um problema em si mesmo insolúvel. E o demonstrá-lo seria plenamente uma filosofia que satisfaria com todo o rigor essa sua condição. {{tag>Filosofia ciência}}