====== A2 Cacofonia ====== **APÊNDICE II CACOFONIA NA FÍSICA** **I — Uma polêmica na região mais pacífica** 1. A inquietação generalizada revela a fragilidade da serenidade anteriormente alcançada e exige fortalecer essa capacidade especificamente humana de libertar-se das solicitações imediatas do ambiente, recolher-se a si mesmo e superar a reação animal de permanente sobressalto. 2. A irritação contemporânea alcança até a física inglesa, cuja posição elevada na cultura ocidental parecia assegurar um domínio de calma e equilíbrio intelectual. 3. A ocorrência de uma disputa na revista Nature, tradicionalmente associada à tranquilidade da investigação científica, constitui um sinal expressivo da disseminação da inquietação. 4. O artigo “Novo aristotelismo”, publicado por Herbert Dingler, ataca grandes físicos ingleses com uma brevidade e uma agressividade que revelam irritação pessoal e culminam na acusação de traição. 5. A repercussão do ataque provoca uma quantidade de cartas suficiente para obrigar a direção da Nature a publicar um suplemento dedicado à controvérsia. 6. Uma nova modalidade de investigação física procura construir dedutivamente a estrutura do universo a partir de hipóteses mínimas formuladas como axiomas, obtendo leis conhecidas e novas regularidades sem recorrer diretamente ao experimento ou à indução. 7. Dingler condena essa construção apriorística do universo por considerá-la um retorno ao aristotelismo, contrapondo-lhe uma interpretação da ciência galileana como descrição dos fenômenos observáveis, livre da suposição de que a natureza obedeça às regras do pensamento humano. 8. A acusação de traição funda-se na ideia de que os novos físicos abandonaram a orientação experimental atribuída a Galileu, segundo a qual a independência da natureza impede conhecer antecipadamente seu funcionamento e obriga a investigá-la pela observação. 9. O empirismo tradicional inglês torna particularmente provocadora a afirmação de Eddington de que todas as leis físicas poderiam ser deduzidas de considerações epistemológicas, sem necessidade de repetir o percurso experimental que historicamente conduziu a elas. 10. A possibilidade de reconstruir o conhecimento físico apenas com a matemática e o princípio de economia do pensamento desafia radicalmente a primazia do experimento e introduz um fundamento filosófico na investigação da natureza. 11. Na interpretação depreciativa de Dingler, o aristotelismo consiste em considerar a natureza uma manifestação de princípios gerais que a mente humana conhece independentemente da percepção sensível. 12. A identificação do aristotelismo com um conhecimento independente dos sentidos contradiz sua orientação tradicional, enquanto Descartes, fundador do pensamento moderno, combate precisamente a dependência sensorial que atribui à filosofia aristotélica e escolástica. 13. Dingler apresenta como fundamento inequívoco da ciência experimental a exigência de começar pela observação e admitir somente princípios gerais derivados indutivamente dos fatos observados. 14. A redução da ciência à observação permanece controversa desde Galileu, contra quem os aristotélicos argumentavam justamente que suas formulações não correspondiam estritamente aos resultados experimentais. 15. Os adversários aristotélicos de Galileu eram predominantemente nominalistas que, desconfiando da racionalidade da natureza, defendiam um conhecimento empírico destinado a ordenar os fenômenos e já praticavam experiências antes do surgimento da física galileana. 16. A oposição entre observação e invenção simplifica indevidamente a história da ciência e transforma em alternativa aparentemente resolvida um problema muito mais complexo e persistente. 17. A relação entre observação e invenção constitui uma questão debatida pelo pensamento europeu há trezentos anos, sem possuir a solução evidente que Dingler lhe atribui. 18. Apesar das simplificações e da agressividade de Dingler, sua inquietação pode corresponder a dificuldades efetivas da física contemporânea, cujas conquistas extraordinárias não eliminam as dúvidas acerca de seu futuro. **II — Propaganda do bom humor. — Física e guarda-roupa. — Ou filósofo ou sonâmbulo** 1. O mau humor esteriliza a discussão e enfraquece a vida coletiva, enquanto o sorriso permite enfrentar a miséria da existência e oferece aos povos jovens, especialmente à Argentina naquele momento histórico, uma oportunidade de aprender com a experiência humana e fortalecer sua formação. 2. A expansão extraordinária da física no último quarto de século exige uma pausa de esclarecimento e serenidade, pois o esforço de ampliar seu domínio comprometeu a organização interna de seus fundamentos. 3. A crescente abstração matemática das teorias torna obscura sua correspondência com os fatos observados, deixando incerto o modo pelo qual os sistemas conceituais da física se relacionam com as coisas. 4. A teoria física pode corresponder à natureza sem assemelhar-se a ela, assim como os números das fichas de um guarda-roupa permitem localizar sobretudos sem reproduzir suas características, embora a abstração matemática torne essa distância ainda maior. 5. A condição exemplar da física torna paradoxal que ela forneça sobretudo relações numéricas, pois permanece duvidoso se tal representação merece ser chamada de conhecimento quando quase nada das próprias coisas parece tornar-se presente à mente. 6. A caracterização da física como conhecimento simbólico não resolve a questão de sua natureza, pois ainda seria necessário esclarecer se a correspondência entre símbolos e coisas constitui propriamente conhecimento ou uma técnica eficaz. 7. A controvérsia científica envolve problemas filosóficos que os especialistas evitam, embora a aparente inutilidade da filosofia exprima sua liberdade em relação a finalidades externas e sua capacidade de permitir uma vida consciente de si, em contraste com o exercício irrefletido de uma atividade especializada. 8. As investigações da vanguarda física aproximam-se da filosofia ao fazer depender as leis naturais de considerações epistemológicas, provocando a reação daqueles que interpretam essa aproximação como submissão indevida da física. 9. A intensidade dos ataques pessoais, que incluem acusações de traição e insinuações depreciativas, evidencia o caráter exaltado assumido pela disputa entre os cientistas. 10. O destino da física deve ser acompanhado com bom humor e interesse profundo porque sua disciplina intelectual constitui uma realização decisiva da cultura ocidental e uma condição necessária para que a própria filosofia defina sua atividade em contraposição a ela. **III — Conversão da física em geometria. — Observação ou invenção — Grécia ou Egito** 1. A possibilidade de uma transformação profunda no caráter da física impõe também ao público não especializado o dever de compreender suas grandes vicissitudes, abandonando a atitude de reivindicar direitos sem reconhecer obrigações intelectuais. 2. A disposição de Milne para preservar o valor de uma construção matemática mesmo quando seus pormenores não coincidem com o universo efetivo leva Dingler a acusar a nova física de abandonar a tradição experimental galileana e combinar descontrole da fantasia com enfraquecimento da razão. 3. A resposta de Milne distingue-se por uma clareza matemática na qual o encadeamento intelectual parece tornar as próprias coisas transparentes, dispensando a mediação de imagens concretas. 4. O esclarecimento do procedimento intelectual seguido por Milne constitui o caminho para compreender o sentido de suas investigações. 5. A física permanece insuficientemente racional enquanto separa a descrição da estrutura das coisas da investigação experimental de seu comportamento, devendo buscar a derivação das leis de funcionamento a partir da constituição da realidade. 6. Milne e outros representantes da nova física procuram superar essa separação e já alcançaram resultados importantes na unificação racional entre estrutura e comportamento. 7. A aplicação radical do princípio de economia do pensamento permite a Milne deduzir regularidades físicas de um conjunto mínimo de axiomas sobre a homogeneidade do universo e a percepção da sucessão, convertendo leis antes empiricamente contingentes em consequências necessárias de uma estrutura teórica. 8. A transformação da física em uma geometria que incorpora o movimento permite reconstruir por dedução resultados obtidos ao longo de séculos de trabalho experimental e abre a possibilidade de descobrir novas leis pelo desenvolvimento das mesmas construções. 9. A dedução matemática não garante a correspondência das leis com os fenômenos, mas altera a função da observação, que passa de fonte exclusiva da descoberta a instância de confirmação de resultados previamente construídos. 10. Uma física dedutiva conserva valor teórico mesmo sem confirmação imediata, assim como as geometrias não euclidianas precederam sua aplicação física, justificando a construção de diferentes sistemas a partir de distintas bases axiomáticas. 11. A referência a um universo homogêneo e isotrópico parece contrariar a restrição tradicional da física ao observável, pois estende suas afirmações a regiões que ultrapassam o alcance da experiência. 12. O universo de Milne é inicialmente uma construção imaginária definida por axiomas, cuja pertinência física depende de comparação posterior com as leis experimentais, sendo legítimo formular outros universos teóricos com diferentes graus e formas de heterogeneidade. 13. A nova orientação da física consiste em inventar um repertório de mundos ideais e confrontar cada sistema, considerado em sua totalidade, com os fatos observados, reconhecendo como fisicamente adequado aquele que melhor os acomode. 14. A construção de mundos ideais recoloca o problema de determinar se o fundamento da ciência reside na observação ou na invenção. 15. A observação não pode fundar sozinha a ciência porque depende de perguntas e alternativas previamente inventadas, mediante as quais os fatos passam a responder a uma investigação orientada. 16. A passagem da física empírica à construção racional reproduz a transformação da geometria egípcia pela matemática grega, enquanto Dingler permanece vinculado ao aspecto empírico que essa transformação pretende superar. **IV** 1. A física atravessa uma etapa perigosa porque suas realizações avançam sem suficiente clareza sobre a natureza de seu conhecimento, a relação entre experiência e raciocínio e o sentido do projeto de seus fundadores. 2. A interpretação da obra de Galileu como simples abandono do raciocínio apriorístico em favor da observação constitui uma simplificação arbitrária de seu método. 3. A análise desenvolvida em 1927 sobre a filosofia da história de Hegel e a historiologia já oferecia uma interpretação do método galileano pertinente à controvérsia contemporânea. 4. A análise galileana da natureza substitui a aceitação imediata do fenômeno por sua decomposição em processos ideais, permitindo reconstruir o movimento observado mediante a combinação de leis imaginariamente formuladas para a queda, a resistência do ar e o atrito. 5. A especificidade do método galileano consiste em interpretar os fenômenos segundo formas matemáticas rigorosas construídas a priori, em vez de limitar a elaboração das ideias à reprodução dos dados observados. 6. A autonomia da construção matemática manifesta-se na possibilidade de desenvolver todas as consequências de princípios hipotéticos sobre o movimento, preservando sua validade geométrica mesmo quando os corpos observados não correspondem às condições supostas. 7. A divergência entre os corpos reais e a construção ideal não invalida automaticamente esta última, pois suas consequências dizem respeito às condições teóricas estabelecidas e não a qualquer comportamento empírico indistintamente. 8. As diferenças entre a física contemporânea e a de seus fundadores exprimem o aperfeiçoamento e o enriquecimento de uma mesma estratégia intelectual, em vez de uma oposição fundamental entre seus métodos. 9. A convergência entre a física de Milne e o procedimento dos sucessores imediatos de Galileu revela uma continuidade histórica que contradiz a interpretação empirista de Dingler acerca do programa galileano. 10. A surpresa de Einstein diante da previsão de uma conversão da física em geometria exemplifica a dificuldade humana de compreender perspectivas inesperadas, dificuldade que pode aumentar quando o êxito excepcional enfraquece a disposição de reconhecer os próprios limites. 11. A caracterização explícita da nova física como geometria e o reconhecimento de sua inspiração relativista confirmam a pertinência da possibilidade que Einstein recebera com espanto. 12. A transformação da física em geometria permanece um acontecimento surpreendente cujo sentido e cujos fundamentos ainda não foram esclarecidos, evidenciando a insuficiente compreensão que essa ciência possui de si mesma. 13. A obscuridade da física e de outras esferas da vida decorre da resistência a uma filosofia capaz de organizar radicalmente as ideias, instância indispensável à unidade intelectual da civilização europeia e historicamente exercida pela escolástica até mesmo sobre o pensamento teológico. {{tag>Ortega ciência}}