====== Meyer ====== ~~NOCACHE~~ Michel Meyer //ABEL, Olivier. L’éthique interrogative. Herméneutique et problématologie de notre condition langagière. Paris: PUF, 2000// A problematologia é uma filosofia viva que pensa a coerência do pensável — e não se contenta em comentar fragmentariamente os "grandes" textos do passado nem em arquivar a memória filosófica. * Discute as filosofias passadas como filosofias contemporâneas, sem se limitar a reconstituí-las. * "Se a história fosse simplesmente o passado, seria apenas edificante estudá-la" — ela nada nos diria. * Se o passado nos fala, é porque o interpretamos, isto é, o fazemos responder a questões que são também as nossas. * Meyer escreve em De la problématologie: "A historicidade é dimensão constitutiva do questionamento na medida em que o torna atual, presente a cada vez sob certas formas." * A hermenêutica opera pela busca e pelo questionamento que se dirige aos fatos, aos textos, às ações do passado — que se tornam como que respostas para nós a questões contemporâneas. A proximidade entre a problematologia e a hermenêutica de Gadamer reside na compreensão de que o passado só fala porque o questionamento filosófico nos torna contemporâneos dos textos mais distantes. * Gadamer escreve: "Toda questão que se coloca como questão não é mais simplesmente rememorada. Como lembrança do que foi outrora perguntado, ela é o que perguntamos agora." * Essa experiência primeira do questionamento filosófico como contemporaneidade com os textos do passado veio a Gadamer de seus anos de aprendizado com Heidegger. * Gadamer descreve o jovem Heidegger: "Não tinha nada de um historiador da filosofia. Era teólogo de formação e um autêntico pensador. Os que foram inspirados pela prestação de Heidegger nunca puderam aceitar a distinção pura e simples da filosofia e de sua história, tanto tornava presente o que se punha a falar através da desmontagem dos recobrimentos históricos por trás da tradição conceitual da filosofia ocidental." * Com Heidegger, segundo Gadamer, "os pensamentos da tradição filosófica eram vivos porque eram compreendidos como respostas a verdadeiras questões... Não se pode contentar-se em tomar conhecimento de questões que são compreendidas, pois elas se tornam então nossas próprias questões... Foi somente quando Heidegger me ensinou a servir-me do pensamento histórico para reconquistar os questionamentos da tradição que as antigas questões se tornaram tão compreensíveis e tão vivas que voltavam a ser as nossas." * Essa observação sobre o "tomar conhecimento" não seria rejeitada por Meyer — nem por quem quer que tenha vivido a experiência filosófica fundamental do reconhecimento: "Esta questão, não posso conhecê-la sem me apropriar dela ou nela me reconhecer; ela é minha." A dificuldade da experiência filosófica, sublinhada por Nietzsche, consiste em que nela se faz a experiência sobre si mesmo — o que torna impossível controlar de fora o que entra no pensamento. * Uma experiência de pensamento que pretendesse controlar tudo o que nele entra exigiria que esse controle precedesse a própria entrada — mas para controlá-lo é preciso que ele já tenha entrado, e aí é tarde demais. * Platão observa isso no Protágoras a propósito dos alimentos da alma que são os logoi — os discursos: ao comprar alimentos para o corpo, pode-se ainda examiná-los num "recipiente especial" antes de ingeri-los; quanto ao saber, porém, "não se pode transportá-lo num recipiente à parte; ao contrário, uma vez adquirido, é inevitável recebê-lo diretamente na própria alma e partir instruído por ele — seja para nosso infortúnio, seja para nosso bem." * Por isso seria necessária certa prudência e certa ascese diante do que entra em jogo: há leituras indigestas ou venenosas — não tanto por si mesmas quanto em relação à questão viva e à organicidade problematológica que caracteriza um pensamento singular. * O juízo de gosto intervém talvez aqui — não apenas para distinguir o que é comunicável a outros sem a mediação de um conceito, mas para distinguir, inversamente, o que imediatamente se pode ou não se apropriar; e Nietzsche parece entender frequentemente por "gosto" essa faculdade. O espanto filosófico primeiro — poder reconhecer-se numa questão que antes não se conhecia — é acompanhado simultaneamente pela dúvida que é sua sombra: a de saber se não somos enganados por falsos logoi indiscerníveis dos verdadeiros. * Esse espanto consiste em descobrir uma questão que se levanta em nós "à maneira de um sonho" e que não se conhecia antes. * A dúvida que o acompanha é a de saber se não somos envenenados por preconceitos inarrancáveis que nos impedem tanto de pensar por nós mesmos quanto de pensar colocando-nos no lugar de qualquer outro. * A dúvida cartesiana — que pretende esvaziar o estábulo de Augias dos preconceitos acumulados apoiando-se na hipótese de um gênio maligno enganador — é provavelmente apenas o avesso metódico do espanto primeiro: aquele de descobrir o surpreendente poder de pensar qualquer coisa — ou justamente não qualquer coisa — na primeira pessoa do singular, e portanto de pensar em termos de "eu."