====== PALAVRA E ESCRITURA (1942) ====== A linguagem é o corpo do pensamento. É por meio dela que o pensamento entra no mundo, mas de tal forma que mantém sua independência e abrange o real sem nunca se identificar com ele. É o instrumento pelo qual o pensamento apreende as coisas, que, como todos os instrumentos, parece ser uma coisa entre as coisas e que é, não como os outros instrumentos, o veículo de nossa ação sobre elas, mas o veículo, por meio delas, de nossa ação sobre os outros homens. A linguagem é testemunha do espírito e meio de comunicação entre os espíritos: sem ela, cada um permanece enclausurado tanto na impotência quanto na solidão. Mas a linguagem os revela perpetuamente uns aos outros: ela lhes descobre o que há entre eles de comum, que é também, sem que o saibam, sua intimidade mais profunda, e o que há de diferente, que os opõe apenas em aparência e para que se enriqueçam mutuamente. Assim, a linguagem atesta que há apenas um espírito do qual todos os espíritos participam, sendo cada um deles, ao longo de seu percurso, um auxiliar e um apoio para todos os outros. Há apenas um espírito, assim como há apenas um mundo. E a linguagem que vai de um ao outro transpone a identidade dos pensamentos para a identidade das coisas. A linguagem é, portanto, a prova da verdade que ela obriga a se manifestar de modo que todos possam compreendê-la. Mas isso não ocorre sem esforço: pois é a obra do indivíduo separado que tenta superar sua separação. ---- E é preciso dizer que a linguagem é ao mesmo tempo humana e divina; humana, pois é criada pelo homem e para o homem, como uma criação à sua medida, por meio da qual ele coloca ao seu alcance a criação do mundo; e divina também, porque ela confere sentido, que é o pensamento interior do qual o mundo procede e por meio do qual cada homem, superando seus próprios limites, comunga com todos os outros. Assim, a palavra está na junção do humano e do divino: seu papel é precisamente testemunhar a cada instante que essa junção se realiza. **Introdução sobre os perigos presentes da fala e da escrita.** **Primeira parte O linguagem** * **Capítulo I.** — Dar nomes às coisas. * **Capítulo II.** — Distância entre o pensamento e a linguagem. * **Capítulo III.** — Do grito à ideia. **Segunda parte A voz** * **Capítulo I.** — O sopro. * **Capítulo II.** — O piar da criança. * **Capítulo III.** — Comparação da audição e da visão. **Terceira parte A palavra** * **Capítulo I.** — As virtudes da palavra. * **Capítulo II.** — O Verbo. * **Capítulo III.** — O diálogo. **Quarta parte O silêncio** * **Capítulo I.** — A atmosfera do silêncio. * **Capítulo II.** — As espécies de silêncio. * **Capítulo III.** — O silêncio religioso. **Quinta parte A escrita** * **Capítulo I.** — O eterno no temporal. * **Capítulo II.** — Comparação da palavra e da escrita. * **Capítulo III.** — O eu do escritor. **Sexta parte A leitura** * **Capítulo I.** — Ler e escrever. * **Capítulo II.** — Uma solidão preenchida. * **Capítulo III.** — Regras da leitura. **Conclusão sobre a disciplina da inspiração.** Introduction sur les périls présents de la parole et de l’écriture. [7] Première partie Le langage * Chapitre I. — Donner des noms aux choses. [15] * Chapitre II. — Écart entre la pensée et le langage. [27] * Chapitre III. — Du cri à l’idée. [43] Deuxième partie La voix * Chapitre I. — Le souffle. [63] * Chapitre II. — Le pépiement de l’enfant. [73] * Chapitre III. — Comparaison de l’ouïe et de la vue. [83] Troisième partie La parole * Chapitre I. — Les vertus de la parole. [93] * Chapitre II. — Le Verbe. [101] * Chapitre III. — Le dialogue. [111] Quatrième partie Le silence * Chapitre I. — L’atmosphère du silence. [129] * Chapitre II. — Les espèces de silence. [139] * Chapitre III. — Le silence religieux. [147] Cinquième partie L’écriture * Chapitre I. — L’éternel dans le temporel. [159] * Chapitre II. — Comparaison de la parole et de l’écriture. [173] * Chapitre III. — Le moi de l’écrivain. [185] Sixième partie La lecture * Chapitre I. — Lire et écrire. [199] * Chapitre II. — Une solitude remplie. [209] * Chapitre III. — Règles de la lecture. [221] Conclusion sur la discipline de l’inspiration. [239]