====== Igualdade ====== //KOLAKOWSKI, Leszek. Freedom, fame, lying and betrayal essays on everyday life. London: Routledge, Taylor & Francis Group, 2018.// * A afirmação de que "todos os homens são iguais" não constitui uma injunção arbitrária a tratar todos igualmente perante a lei, mas decorre de um estado de coisas factual que fundamenta essa exigência, restando saber em que consiste exatamente tal estado de coisas e como se pode verificar sua existência. * A tentativa de negar a igualdade humana apelando às diferenças de habilidades, conhecimentos e naturezas é equivocada, pois quem proclama a igualdade como fato independente dessas diferenças já as reconhece plenamente, de modo que invocá-las nada tem a ver com o sentido de igualdade em questão. * A igualdade humana tampouco se funda no pertencimento à mesma espécie biológica, pois isso permitiria dizer igualmente que "todos os gansos são iguais" ou "todas as moscas são iguais", afirmações que carecem de sentido; são as pessoas que são iguais, não as moscas. * Os pensadores iluministas acreditavam que todos nascem como tábulas rasas e que as diferenças decorrem inteiramente da criação e do ambiente, crença hoje insustentável diante do conhecimento genético, segundo o qual as pessoas diferem também por traços herdados, sendo produto tanto da natureza quanto da criação; ainda que não se possa atribuir toda a trajetória de Hitler aos seus genes nem todo o percurso de Madre Teresa aos seus, é razoável supor a existência de traços hereditários que tornam mais provável, sem ser necessário, tornar-se mais parecido com um ou com outra, sendo ambos, apesar de sua enorme dissimilaridade, iguais naquele sentido específico que se busca esclarecer. * A tradição religiosa cristã, entre outras, permite justificar a igualdade humana ao afirmar que todos são filhos de um mesmo pai e serão julgados por Deus segundo a mesma medida, ricos e pobres, independentemente de condição, educação, classe ou lugar de nascimento, sendo todos iguais como sujeitos morais dotados de livre-arbítrio para cumprir ou transgredir os mandamentos da lei natural. * É possível proclamar a igualdade humana como fato, e não apenas como injunção, independentemente da crença religiosa, desde que se assumam certas premissas de natureza moral referentes à própria constituição do homem, segundo as quais todos possuem igual dignidade humana, inseparável, para alguns filósofos, da capacidade de pensar e de escolher livremente entre o bem e o mal, ainda que essa dignidade não seja algo visível, sendo mais fácil reconhecer sua violação do que defini-la. * Limitando-se à concepção do homem como ser capaz de escolher entre o bem e o mal por conta própria e independentemente de pressões externas, é a posse dessa capacidade, e não o modo como é exercida, que torna todos iguais em dignidade, de modo que mesmo os piores indivíduos, aqueles que devem ser punidos por seus crimes, conservam essa dignidade, independente de sexo, raça, nacionalidade, educação, profissão ou caráter. * Caso os seres humanos fossem meros autômatos cujos pensamentos e atos dependessem inteiramente de forças e circunstâncias externas, os conceitos de dignidade e, portanto, de igualdade, perderiam todo sentido. * Dessa igualdade decorre que a desigualdade perante a lei atenta contra a dignidade humana, mas não decorre o direito a exigir igualdade na distribuição dos bens, ideal proclamado por seitas medievais, pelos jacobinos durante a Revolução Francesa e por diversos movimentos socialistas a partir do século dezenove, sob o raciocínio simples de que, sendo iguais, todos mereceriam parcela igual dos bens terrenos, chegando algumas vertentes igualitárias a sustentar esse objetivo mesmo que todos, inclusive os mais pobres, ficassem piores, pois o essencial seria impedir que alguém ficasse melhor que os demais; tal raciocínio, porém, revela-se falho, pois essas ideologias não se inspiram no senso de justiça, mas na inveja, como ilustra a anedota do camponês russo que, podendo pedir a Deus qualquer coisa desde que o vizinho recebesse o dobro, pede que lhe arranquem um olho. * Esse ideal de igualdade é irrealizável na prática, pois exigiria submeter toda a economia a controles totalitários, com planejamento estatal integral e ausência de qualquer atividade autônoma, levando ao colapso econômico sem sequer produzir igualdade, já que a experiência mostra que, em regimes totalitários, os governantes, isentos de controle social, sempre reservam para si a maior parte dos bens materiais e também o controle de bens não materiais, como o acesso à informação e à participação política, resultando simultaneamente em pobreza e repressão. * A possibilidade de uma distribuição igualitária de bens em bases voluntárias, como em mosteiros ou kibutzim, não violaria leis físicas ou químicas, mas contradiria tudo o que se sabe sobre o comportamento humano típico. * Isso não significa que a desigualdade na distribuição de bens deixe de ser um problema sério, sobretudo diante de pobreza extrema em larga escala, sendo os impostos progressivos o meio mais eficaz até hoje encontrado para atenuá-la, embora além de certo ponto produzam efeitos desastrosos sobre a economia, em prejuízo de pobres e ricos; importa, portanto, garantir a todos o acesso aos elementos essenciais de uma vida digna, como alimentação, vestuário, moradia, assistência médica e educação para os filhos, princípios geralmente aceitos, ainda que imperfeitamente realizados, nos países civilizados, ao passo que buscar plena igualdade na distribuição dos bens constitui receita de desastre para todos, pois o mercado pode não ser justo, mas sua abolição conduz à pobreza e à opressão; já a igualdade em dignidade humana, e a igualdade de direitos e deveres que dela decorre, é requisito essencial para não degenerarmos em barbárie, pois sem ela poderíamos admitir o extermínio impune de outras raças ou nações, negar às mulheres os mesmos direitos civis dos homens ou eliminar os idosos e enfermos considerados inúteis, de modo que essa crença na igualdade não apenas protege a civilização, mas é o que nos constitui como seres humanos. {{tag>Kolakowski igualdade}}