====== Deus ====== //KOLAKOWSKI, Leszek. Freedom, fame, lying and betrayal essays on everyday life. London: Routledge, Taylor & Francis Group, 2018.// * Ao falar de Deus não sabemos exatamente de quem ou do que estamos falando, hábito que a tradição secular nos permite exercer com naturalidade, mas que uma reflexão mínima revela como assentado sobre profunda incerteza. * A maior dificuldade reside em conciliar o Deus bíblico, que repreende os primeiros pais, ordena Noé e fala a Moisés como um soberano, com o Deus dos teólogos, concebido como Ser atemporal, infinito, onisciente e onipotente, que contém em si toda a existência sem jamais sair de si mesmo. * Tudo isso é fácil de dizer por hábito, mas não compreendemos realmente o que significa existir fora do tempo, ser onipotente, criar do nada ou ser onisciente e onipresente, nem o que seja a Santíssima Trindade ou a identidade entre essência e existência, havendo inclusive divergência entre os próprios teólogos sobre tais atributos. * O reconhecimento do mistério sempre foi princípio da doutrina cristã, e é verdade que também as coisas mais simples da vida cotidiana, como o tempo, a liberdade ou a consciência, podem despertar sensação de mistério insondável; a diferença é que o mistério cotidiano pode ser ignorado ou tido por resolvido pela ciência, enquanto o mistério divino permanece sempre evidente, e o crente, ao contrário de quem ignora o que é o tempo, precisa estar pronto a justificar sua crença na existência de Deus. * Trata-se, contudo, do mais cruelmente desconcertante dos mistérios, pois como pode o Absoluto ser também pessoa, infinitamente superior a nós mas pessoa no mesmo sentido em que cada um de nós o é, dificuldade que leva à tentação, como certos gnósticos ou Mestre Eckhart, de separar o Deus pessoal das insondáveis profundezas da Divindade em si. * O cristianismo alivia esse desconforto por meio da dupla natureza de Cristo, mediador cuja existência histórica ninguém questiona, e que, embora a encarnação, a filiação divina e a Trindade permaneçam entre os dogmas mais enigmáticos, permite esquecer as complexidades teológicas, pois Ele nos ama com todas as nossas faltas e deseja apenas que O amemos e oremos ao Pai, ficando o resto talvez reservado para depois, ou talvez nunca revelado. * Ainda assim, o problema de Deus Criador não pode ser dispensado; não é plausível supor que todos nasçamos com uma ideia de Deus gravada na alma, dada a existência de ateus, mas é plausível supor que nossa razão aspire naturalmente à totalidade do ser, e que nossa necessidade de ordem e de sentido nos leve a buscar aquilo que constitui a raiz e o fundamento da existência, como reconheceram até ateus como Nietzsche, para quem, morto Deus, resta apenas o vazio indiferente e a dança sem sentido de prótons e elétrons, sem recompensa nem punição, de modo que afirmar não haver Deus e estar tudo bem é mera ilusão. * A crença em Deus pode preservar-se pela cultura e exprimir-se em infinita variedade de palavras e imagens marcadas pela precariedade de nossa existência temporal, mas Deus não é produto transitório de circunstâncias culturais mutáveis: Ele é o ponto para o qual convergem persistentemente a razão, a imaginação e o coração, aquilo que não tem causa fora de si mesmo e sobre o qual não cabe perguntar quem o criou ou para que existe. * Deus, provedor de sentido, deve ser pessoa e também Absoluto, novo mistério insondável; deve ainda ser fonte e provedor do Bem, o que levou defensores da fé a atribuir o mal e o sofrimento humanos à liberdade que nos torna humanos, e o sofrimento natural a justo castigo pelos pecados, explicação que os céticos sempre rejeitaram por não haver correspondência entre a distribuição do sofrimento natural e a dos pecados, propondo-se alternativamente que Deus, ao criar o mundo físico, o dotou de leis que operam automaticamente à margem de considerações morais, sendo o sofrimento físico mera consequência dessas leis. * Indaga-se, porém, se Deus não poderia ter criado o mundo de outra forma; a resposta possível é que um mundo isento das leis físicas, sustentado por sucessão infinita de milagres, não seria verdadeiramente um mundo material, e quanto à possibilidade de leis que não nos prejudicassem, não podemos sequer imaginar tal mundo, sendo razoável supor que Deus não seja onipotente a ponto de poder combinar os elementos do mundo de qualquer maneira que garantisse nosso bem-estar, pagando Ele mesmo, de algum modo, um preço por tudo que faz. * É verdade que o sofrimento pode purificar, mas não todo sofrimento, nem sempre, nem para todos; o cristianismo ensina que todo sofrimento tem sentido, ainda que não o percebamos, devendo-se confiar inteiramente em Deus e aceitar o destino sem revolta nem desespero, sendo bem-aventurados os que possuem fé tão inabalável. * Poderia Deus ser simplesmente mau, ou o mundo ter sido criado e ser governado por Satanás, como pareciam supor, sem o dizer, os pregadores que descreviam minuciosamente o inferno? Contudo, existe Bem no mundo, incomensurável mas real, como o amor, a amizade, a caridade, a compaixão, o perdão, a beleza, a razão, a arte, a ciência e a própria alegria de existir, bens que não existiriam sob um demiurgo maligno, de modo que a presença do Bem constitui argumento mais forte a favor da bondade divina do que o mal e o sofrimento contra ela, não por haver mais Bem que Mal, mas porque, fosse Deus mau, não haveria Bem algum, apenas fogo eterno na escuridão infernal. * O sofrimento sempre existiu, mas só recentemente se tornou argumento tão evidente e contundente contra Deus, sendo incerto se isso decorre de seu aumento real ou apenas de percebê-lo mais agudamente, tendendo hoje a considerar todo sofrimento injusto, o que constitui antes efeito do que causa de nossa descrença. * Talvez Deus se pareça mais conosco, ora bom ora mau, mas nunca tão mau a ponto de condenar os pecadores ao tormento eterno, hipótese para a qual a própria Bíblia oferece bons argumentos, restando quanto às insondáveis profundezas da Divindade, melhor deixadas inexploradas, que a elas simplesmente não se apliquem os atributos do Bem e do Mal. {{tag>Kolakowski Deus}}