====== Sagrado e morte ====== //KOLAKOWSKI, Leszek. Religion, if there is no God. London: Fontana Press, 1982.// * Além e acima de toda pesquisa antropológica sobre as crenças na vida após a morte, destacam-se duas questões não empíricas e não históricas: por que os homens, ao longo de toda a história conhecida, sempre acalentaram a esperança numa existência sem fim, e de que modo essa esperança dependeu do culto da realidade eterna. * A resposta mais óbvia à primeira pergunta, de que a ideia de imortalidade decorreria do medo da morte compartilhado com os animais, é a menos crível, pois não se sabe como esse medo geraria o conceito de extinção última nem por que levaria a buscar refúgio na crença de sobrevivência, já que os tubarões, que também evitam a morte, não criaram imagens de inferno e paraíso; do mesmo modo, se a experiência erótica humana decorresse apenas do instinto reprodutivo, ou a religião fosse mero paliativo para o sofrimento, rãs e ratos, que também acasalam e sofrem, deveriam ter produzido seus próprios mitos e templos. * Essas questões não são absurdas, pois envolvem a possibilidade mesma de definir satisfatoriamente o ser humano numa concepção evolutiva do mundo, sendo tentador reduzir toda criatividade cultural, a linguagem, a arte, a religião, à função instrumental de servir necessidades biológicas fundamentais, teoria cômoda mas infalsificável, seja para sustentar a excepcional adaptabilidade da espécie, seja para sustentar sua crescente impotência biológica, restando sem resposta como tais necessidades culturais se teriam autonomizado e por que nenhuma outra espécie produziu algo comparável. * Não se pretende aqui resolver esses enigmas, que alimentam a chamada filosofia da história, bastando notar que nenhuma solução empírica pode ser esperada, pois não se pode analisar o que é a natureza humana sem antes decidir arbitrariamente onde começa nossa espécie, tendo razão Jaspers ao afirmar que não podemos sequer conceber o conceito de história universal sem nos colocarmos, ainda que provisoriamente, além dela; qualquer significado atribuído ao processo histórico como um todo é necessariamente opcional e não extraído do conhecimento histórico, sendo mais coerentes aqueles que, como Santo Agostinho ou Teilhard de Chardin, situam explicitamente esse significado fora do processo histórico, admitindo que tal perspectiva coincide com o olhar divino e só nos é acessível pela palavra revelada. * Inclino-me a sustentar esse ponto de vista, parecendo a questão do significado vazia e ilegítima a menos que se nos abra um canal de contato com o repositório eterno dos significados; nada nos impede, por puro ato de vontade, de conferir ao "todo" histórico um significado que confirme aquilo que sentimos ser ou poder ser capazes, esquecendo depois esse decreto livre e experimentando o mundo como se estivesse intrinsecamente repleto de sentido, exemplo modelar de "alienação"; se não esquecemos, não podemos apagar a diferença entre o pseudossignificado, mera projeção de nosso desejo, e o significado correto, que exige referência à eternidade e à crença de que os fatos são mais do que parecem, componentes de uma ordem significativa. * Se somos levados a crer nisso, não é porque percebamos tal ordem com olhos profanos, mas porque mesmo os que rejeitam deliberadamente toda crença religiosa abrigam uma prontidão oculta, quase inconsciente, de buscar ordem no imenso monte de destroços que chamamos história humana, coação que os racionalistas convictos rejeitam como resíduo bizarro de nosso legado mitológico, mas que outros veem como revelação de um verdadeiro vínculo da mente com o fundamento eterno do significado, sem que nenhuma explicação biológica plausível tenha sido encontrada para o conceito de Eternidade nem para a autocompreensão que ele proporciona ao homem. * Repita-se: é opção ontológica crer que o Eterno manifesta sua verdadeira presença como termo de referência na autocompreensão humana ao longo de toda a história; a crença oposta, de que uma explicação puramente antropológica do culto à realidade eterna seria plausível, é igualmente uma opção, sem que nenhuma das duas possa ser validada pelo critério de verdade da outra. * O desejo de imortalidade deve ser visto contra esse pano de fundo: se o medo instintivo e animal da morte deve ser distinto do horror humano diante dela, sem constituir sua condição suficiente, a explicação talvez resida na estrutura ontológica da cultura sugerida por Heidegger, pois a extinção inevitável da pessoa humana nos parece a derrota última do ser, violando a ordem do cosmo, ordem essa só concebível quando a contingência das coisas se relaciona com uma realidade necessária e, portanto, eterna. * Cinis aequat omnia: se a vida pessoal está condenada à destruição irreversível, também o estão todos os frutos da criatividade humana, pouco importando sua duração, havendo pouca diferença entre estátuas esculpidas em fumaça e os mármores "imortais" de Michelangelo; mesmo que exista um deus indiferente que faça girar a roda da vida apenas para depois descartar o universo como brinquedo quebrado, a reação espontânea de um camponês espanhol perguntando a Unamuno "para que serve então esse Deus?", diante da hipótese de um Deus sem imortalidade, revela que o essencial não é o anseio egoísta por recompensa celestial, mas o fato de que, se nada além de Deus perdura, e se Deus não se torna melhor nem mais rico pelas fadigas humanas, um vazio sem limites seria a última palavra do Ser, tornando sem sentido toda a evolução do universo e da história humana caso esta não se relacione com a eternidade. * A fé em Deus e a fé na imortalidade estão, portanto, mais intimamente ligadas do que sua simples justaposição como asserções separadas sugeriria, sendo logicamente separáveis, como mostram os saduceus, que adoravam Deus negando a imortalidade humana, ou, inversamente, pessoas que creem na sobrevivência sem crer em Deus; contudo, crer em Deus e aceitar a destruição última de tudo o mais torna Deus conspicuamente "inútil", não em termos de gratificação pessoal, mas porque Deus, do ponto de vista do crente, é o garante do sentido do mundo, aquele que confere propósito, sendo Sua existência dificilmente concebível à parte de Sua relação com as criaturas, ainda que os grandes místicos possam ter alcançado atitude puramente teocêntrica, adorando Deus apenas por amor a Deus. * Por outro lado, crer na imortalidade pessoal sem Deus deixa obscura a questão do sentido, pois, sem Deus e num cosmos indiferente, nenhuma lei natural garantiria a bênção da imortalidade nem explicaria por que o universo atenderia a nossos desejos, mostrando-se assim os dois conceitos psicológica e historicamente entrelaçados, componentes interdependentes do dom por excelência da religião: um mundo dotado de sentido. * Diante dessa função perene da fé na imortalidade, é irrelevante que as pessoas busquem ou não confirmação empírica da sobrevivência, revelando uma civilização como a nossa, ávida por provas experimentais dessa esperança, não louvável confiança nos métodos "científicos", mas antes a fragilidade e a incerteza de seu legado religioso, já que em muitas culturas primitivas a comunicação com os espíritos dos mortos visa a algum propósito prático, e não à confirmação empírica da fé, do mesmo modo que os hindus não buscam ativamente provas de reencarnação para sustentar suas crenças. * O cristianismo sempre se mostrou desconfiado diante da busca de provas experimentais da sobrevivência, seja por sessões espíritas, seja pelo estudo de fenômenos paranormais, tendo o Santo Ofício proibido oficialmente em 1917 a participação dos fiéis em sessões espíritas e a literatura católica geralmente atribuído tais aparições à ação do demônio, sendo a doutrina cristã da imortalidade fundada nas promessas de Deus e na ressurreição de Cristo, e não na confiança conclusiva de experimentos sempre ignoráveis pelos críticos racionalistas; tais pesquisas podem ter valor próprio, mas jamais poderiam servir de sustentáculo racional à fé religiosa enfraquecida, quando muito seu Ersatz. {{tag>Kolakowski sagrado morte}}