====== 1.5 Uso ====== //Para uma leitura filosófica do Yi King, Le Livre de Poche, 1993 (trad. em português publicada pela Editora 34)// **V — Do bom uso do Clássico** 1. Uma mesma preocupação rege com efeito todo o manuseio do livro, em função dessa alternativa: a da adequação ou da inadequação, que se manifesta a propósito de cada um dos traços em relação ao mesmo tempo ao momento em que este aparece e à posição que ocupa. * Que o traço de baixo esteja em estado de receber ou de herdar daquele que está acima, resume WFZ, e que o de cima esteja em estado de se apoiar sobre o de baixo, de montar sobre ele, que os traços similares, à proximidade, se sustentem mutuamente, relação de tipo fu, e que os traços opostos se respondam à distância, relação de tipo ying: há, nesse momento, adequação sobre cada um dos pontos. * De tal adequação decorre o caráter favorável da figura e da situação, enquanto o caso contrário é nefasto. * Com efeito, à parte os dois primeiros hexagramas, um inteiramente yang e outro inteiramente yin, mas dos quais se verá que não evocam uma situação particular e não devem ser postos no mesmo plano, todos os hexagramas são compostos ao mesmo tempo de yin e de yang. * É, por conseguinte, da simples mistura, cada vez diferente, desses dois fatores constitutivos, indo e vindo através das seis posições do hexagrama, assim como não cessam de evoluir para formar a realidade, que resulta o caráter adequado ou inadequado de cada figura e de cada traço. 2. Surge assim uma diferença essencial que não poderíamos esquivar, pois que seja um rapport d'adéquation que busquemos aqui, em vista de estabelecer nossa conduta em harmonia com o curso do mundo, e não uma verdade, cria um desvio radical, de uma cultura a outra, não tanto das representações ou dos procedimentos, mas de sua motivação, do qual me parece importante tomar a medida. * Não esqueçamos, com efeito, que o pensamento chinês mais fundamental, aquele que se deu por missão remontar ao início do real como ir até o fim da modificação das coisas, não cessou de voltar a esse Clássico para nele encontrar sua inspiração. * Ora, quando interrogamos hoje o pensamento chinês para julgar sua pretensão de fazer parte da filosofia, nós o submetemos por instinto à questão da verdade. * Teremos, portanto, de nos perguntar se o pensamento chinês, tal como se encontra fundado pelo Clássico da mudança, não nos obriga a encarar uma exploração do real que não se põe em termos de verdade, não sendo a própria noção nunca marcada como tal no livro. * E não deveremos forjar um termo mais largo, pois este apareceu demasiado exclusivamente ocidental, tratando por exemplo de modos diferentes de inteligibilidade, a chinesa e a ocidental, cada uma em obra com seus meios próprios e sem que uma deva necessariamente enquadrar-se com a outra e se submeter a seus critérios. * Algumas constatações ao menos se impõem: por um lado, a preocupação de adequação que exibe o pensamento do Clássico não se limita à esfera das atividades práticas, portanto não pode ser por nós reduzida à pura empiria, mas se elaborou em visão do mundo e possui uma dimensão global e especulativa. * Por outro lado, se a conceção ocidental da verdade repousa igualmente sobre uma relação de adequação, trata-se sempre de uma adequação relativamente estável, quer entre o espírito conhecente e o objeto a conhecer, quer no seio mesmo do espírito, como lógica, quer no seio mesmo do objeto, como ciência, e não de uma adequação em relação ao que, por princípio, é constantemente mutável, ao que é a contingência mesma, e se revela através de uma manipulação, a tiragem, e não apenas por contemplação. * Enfim, se o pensamento ocidental se preocupa também, e mesmo correntemente, com a adequação de nossa conduta em sua relação com o mundo, não o faz, note-se, senão a título de consequência, nesse domínio sempre segundo que é a moral, isto é, tirando o benefício da verdade que fundou num outro plano, que ordinariamente é metafísico. * Mesmo quando Merleau-Ponty se mostra inclinado a prestar ouvidos, mais do que se fizera antes, à secreta, surda contribuição do Oriente à filosofia, e parte desde então em busca das relações laterais que as diversas culturas mantêm entre si, em vista de abrir o conceito de que o Ocidente foi o inventor mas no qual talvez se tenha encerrado, ele não consegue no entanto conceber o trabalho explorador do pensamento, em relação ao real, fora desse imperativo único da verdade. * Pois reconhecer que os orientais, indianos e chineses confundidos, teriam compreendido a verdade de outro modo que nós, não como o horizonte de uma série indefinida de pesquisas mas como um tesouro esparso, indiviso, sincrético, mantém-nos no entanto numa dependência de princípio, permanecendo implícita, em relação a esse objetivo comum que seria a verdade, quer filosófica quer religiosa, impondo-se a todos não por seu conteúdo mas enquanto exigência, e fora do qual a atividade especulativa do pensamento não teria mais ponto de referência e se decomporia. * Daí resulta em Merleau-Ponty essa posição abrupta e revelando-se, apesar de todas as generosas tentativas de abertura, definitiva: o Ocidente, em sentido lato, permanece sistema de referência, é ele que inventou os meios teóricos e práticos de uma tomada de consciência, que abriu o caminho da verdade. 3. Pois com que esse clássico da mudança nos põe em adequação? * A resposta nos vem, sob um termo ou outro, a todas as páginas do comentário: com a marcha das coisas, o grande processo do mundo. * Ele nos liga à eficácia que lhe é própria, pondo-nos em fase com seu desenrolar. * Pois aquilo a que o Céu vem em ajuda, diz-nos o Grande comentário, é o fato de se conformar. * É decretado fasto, com efeito, tudo o que desposa a lógica inerente à renovação sem fim do real, e é julgado nefasto o que a ele se opõe. * Como, no pensamento do Clássico, nada transcende o horizonte desenhado por esse grande processo das coisas, o que é fasto, isto é, o que vai no sentido dele, se identifica portanto, segundo WFZ, com o bem. * E como nós mesmos não podemos tirar nossa origem de nada além desse grande processo, ao mesmo título que todos os existentes, o que é revelado fasto pelo Clássico coincide também com nossa natureza. * O objeto do Clássico não é outro, em definitivo, aos olhos de WFZ, senão o de nos ajudar a cultivar essa natureza fundamental que está em nós, respeitando seu enraizamento no seio do real, de onde decorre nossa aptidão à moralidade. * Todas as suas indicações práticas, com efeito, do género arrependimento ou inquietação, visam fazer-nos tomar consciência da delicada linha de clivagem que separa continuamente o que vai no bom sentido, o da Via, o Tao, segundo a apelação tradicional, e por aí coopera com o real, e o que dela se afasta. * Essa demarcação é eminentemente subtil, porque apreendida em seu estágio inicial, e é por isso que se precisa de todo o dispositivo do Clássico para apreendê-la, mas permite-nos reagir tanto mais facilmente porque mais cedo, e por aí voltar à nossa natureza e nos emendar. * A esse estágio, com efeito, o desvio apenas se esboça e não é ainda marcante. 4. Mas esse uso, que é essencialmente moral, pode ser pervertido, e WFZ denuncia com veemência todos aqueles que recorrem ao Clássico com um objetivo interessado, isto é, que tentam espionar o grande jogo do yin e do yang, tal como nele se manifesta, em vista de atingir seus fins egoístas. * O Clássico seria a distinguir a esse respeito de todos os manuais ulteriores de adivinhação com que se tentou confundi-lo: pois estes visam dar conta da complexidade das situações e de sua evolução, sem se preocupar com sua adaptação ao conjunto nem com os princípios normativos que as regem, isto é, em definitivo sem as integrar numa lógica global que levaria em conta o interesse da realidade inteira, o ponto de vista do Céu, da via. * Somos convidados, por aí mesmo, a opor sorte e destino. * Enquanto o resultado esperado por esses manuais de adivinhação, assim como por um mau uso do Clássico, seria o de tentar desvendar a relação secreta do yin e do yang para dela tirar fraudulentamente proveito e fazer fortuna, o verdadeiro objetivo do Clássico é o de nos ajudar a cumprir nossa vocação: não o de procurar evitar uma condição aparentemente menos invejável, pois recordemos que todas as posições, no seio do hexagrama, são igualmente justificadas, mas o de assumir a situação em que se está, por mais difícil que seja, fazendo-a concordar com a perspetiva de conjunto da realidade e sua exigência de regulação. 5. Será fácil estabelecer, sobre essas bases, a responsabilidade do homem, pois se a via do homem está misturada, em seu fundamento, à realidade do mundo, Céu e Terra, diz-nos WFZ, o uso que se faz do yin e do yang repousa sobre o homem, quer no bom quer no mau sentido, e por isso o que é nefasto provém sempre de uma falta do homem, assim como o que é fasto de um êxito de sua parte, perda ou obtenção. * O Sábio compôs o Clássico e o homem de bem o consulta, de modo a estar em medida de bem utilizar o yin-yang para levar a seu completo desenvolvimento os negócios humanos e participar do grande processo do real. * E WFZ conclui que não é que haja no Céu uma determinação do fasto e do nefasto à qual o homem não teria acesso. * Com efeito, se se acede à lógica inerente à realidade, acorda-se com o Céu, pois este nada mais é que essa coerência em obra. * Ao se encostar a esse conformismo estoico, o pensador chinês é cuidadoso de corresponder o mais finamente à razão das coisas, mas está livre, de antemão, de toda angústia, pois sabe que no fundo o proveito e a equidade se harmonizam e que não há felicidade ou infelicidade que não se tenha procurado a si mesmo. * O objetivo do livro, e de seu dispositivo, não é outro em definitivo senão o de nos ajudar a localizar, em toda ocasião, como se opera essa conciliação indefetível do real e do bem. {{tag>Jullien I-Ching transformação mutação hexagramas trigramas Yin Yang}}